A espetacular virada

Published On 16/11/2016 | Jogos Históricos, Mundial Interclubes
Por Ronaldo Silva
Santos, 16/11/2016

O dia 14 de novembro de 1963 entrou para a história do futebol mundial. Santos e Milan protagonizaram um incrível duelo válido pelo 2º jogo do Mundial Interclubes.
Vitória era palavra de ordem na Vila Belmiro para este confronto, pois era o único resultado que manteria o sonho do bicampeonato vivo para o Santos, já aos italianos que haviam vencido o jogo em Milão por 4×2, restava apenas um empate no Maracanã para levantar a taça.
Lula não contaria nesta decisão com três importantes jogadores como o quarto-zagueiro Calvet, o eterno capitão Zito e também Pelé que se encontrava machucado, sendo estes respectivamente substituídos por Haroldo, Lima e Almir Pernambuquinho.
O Santos poderia ter mandado a partida no Pacaembu  já que estaria mais próximo de seus torcedores, porém optou por mandar o jogo no Maracanã. Tanto o público carioca como diversos torcedores santistas que se deslocaram de outras cidades, proporcionaram a quebra do recorde brasileiro de renda e aumentaram a corrente positiva em torno do Alvinegro Praiano, que representaria o Brasil neste “Choque de Titãs”.

O JOGO
A grande plateia presente ao “Maior Estádio do Mundo” tinha certeza que presenciaria uma partida acirrada após uma série de declarações por parte do italianos após derrotarem o Santos na primeira partida.

Mauro foi capitão do Santos no 2º e 3º jogo da decisão. (Foto/Revista Bola Alvinegra)

Mal iniciou o espetáculo e Almir já deu seu cartão de visitas sobre o brasileiro Amarildo cometendo duas faltas com menos de 1 minuto de jogo, a equipe italiana desde esse começo conseguiu impor o que tinha de melhor com seu sólido sistema defensivo, a eficiência de seu líbero, a velocidade e o excelente preparo físico que sobrepujaram sobre o time santista no início da partida que começou atuando de forma confusa, sem o habitual conjunto e técnica sempre imposta pelos comandados de Lula.
O Milan conseguia demonstrar tranquilidade e padrão de jogo com excelente senso de cobertura de Maldini, a versatilidade de Rivera e a velocidade de Mazzola, Amarildo e Mora, que foi irritando o time santista que com certa afobação buscava tomar a iniciativa do jogo e trabalhava com passes de Lima e Mengálvio, auxiliados por Almir e Pepe. Mas aproveitando uma desatenção da zaga santista, aos 14 minutos num centro alto e longo de Amarildo encontrou a cabeça de Mazzola que abriu o marcador para o Milan. Foi um gol inesperado, que contou com o oportunismo do brasileiro Mazzola.
Dois minutos depois, foi a vez de Amarildo num passe rasteiro no meio da área encontrar Mora, livre entre Mauro e Haroldo, somente ter o trabalho de colocar a bola no fundo do gol sem chances para Gylmar.
Este placar consolidava ao Milan uma grande vantagem e o Santos após sofrer estes dois gols seguiu o restante da primeira etapa sem disciplina tática, a partida a cada minuto que passava se tornava mais violenta e acirrada, somente nos minutos finais desta etapa que o ataque santista se fez presente mais na base do entusiasmo que na técnica com a criação de boas oportunidades com Almir, aos 41 minutos, que escorou um ótimo cruzamento de Pepe, que obrigou o goleiro Ghezzi a uma espetacular defesa que originou rebote para o próprio Pepe que chutou para fora com o gol vazio.
O Santos ainda seguiu sua pressão com duas oportunidades de Coutinho que foram defendidas pelo goleiro italiano, num término de primeira etapa em que muitos no Maracanã não acreditavam numa reação do time alvinegro.
Durante o intervalo, um autêntico dilúvio desabou sobre o Rio de Janeiro enquanto Lula nos vestiários buscava tranquilizar seus atletas e orientou que os pontas Dorval e Pepe deviam jogar abertos e pediu para Lima e Mengálvio se aproximarem dos atacantes. Antes do término desse período, o Santos retornou ao gramado debaixo de toda aquela chuva e ficou aguardando com ansiedade o retorno do time italiano.

A VOLTA DO INTERVALO

Logo que a bola rolou no gramado inundado do Maracanã, pode se notar que os jogadores santistas voltaram com outra disposição para a segunda etapa, disputando todas as jogadas com alma.
A chuva acabou facilitando para o Santos que possuía jogadores com mais técnica e conseguiram se adaptar melhor ao gramado que os do Milan, a zaga santista apresentou melhor entendimento que conseguiram neutralizar os perigosos avanços de Amarildo e Mazzola e permitiu que fosse possível o restante da equipe avançar em busca da reação. Neste panorama, já no primeiro minuto o endiabrado Almir, em jogada individual, invadiu a área e cara a cara com o goleiro chutou na trave.
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Substituindo o Rei Pelé, Almir foi um dos responsáveis pela virada santistas pra cima do Milan! (Foto/Bola Alvinegra)

O Santos seguiu pressionando utilizando seus ponteiros e o time de Milão buscava através da forte marcação e exagerando nas faltas anular o ataque santista. Aos 5 minutos, numa falta sofrida por Pepe, que o próprio se encarregou de executar num chute rasteiro, violento e colocado, não dando chances a Ghezzi para diminuir o placar. Com apenas um gol de desvantagem, o Santos seguiu insistindo e aos 8 minutos após um centro de Dalmo pela esquerda contou com a participação de Mengálvio e o oportunismo de Almir num toque de classe para empatar a partida e incendiar o Maracanã.
O Milan sentiu o golpe, não conseguia apresentar o padrão de jogo da etapa inicial e somente com o artifício da violência buscava conter o ímpeto santista, mas aos 17 minutos foi a vez do coringa Lima avançar com a bola e de fora da área num chute violento surpreender Ghezzi para colocar o Santos em vantagem, 3×2.
Porém, sem diminuir a vontade de vencer os comandados de Lula seguiram dominando amplamente dominando a partida, quando surgiu uma falta sofrida por Almir que contou novamente com a cobrança de Pepe num chute muito ao parecido ao primeiro gol para vencer o goleiro italiano e com apenas 22 minutos estabelecer o quarto gol santista e devolver o placar sofrido em Milão.
Na sequência da partida, o Santos administrou o resultado, que transcorreu com muita violência de ambos os lados, devido a conivência do árbitro argentino Juan Brozzi, porém o time santista buscou explorar bons lançamentos em profundidade e conseguiu plenamente evitar que os principais jogadores do Milan conseguissem esboçar perigo ao gol defendido por Gylmar.
Nas arquibancadas, repletas de bandeiras santistas e dos principais times cariocas, houve total euforia com o grande espetáculo proporcionado pelo Santos que foi saudado pelo público com lenços brancos ao som da tradicional música “Está Chegando a Hora”, para retribuir esse total apoio o Santos iniciou o olé, rolando a bola de pé em pé sem permitir que os italianos pegassem na bola.
O apito final de Juan Brozzi transformou o Maracanã num verdadeiro Carnaval fora de época, mais do que nunca estava em aberta a decisão pelo Mundial Interclubes de 1963. O clima de alegria e confiança tomou conta do vestiário santista após essa virada heróica sem Pelé, mas personificada por Almir que pelo seu espírito de luta e raça demonstrada na partida saiu do gramado como herói desta jornada inesquecível.

Ficha Técnica:
14/11/1963 – Santos 4 x 2 Milan-ITA
Gols: Mazzola aos 12min e Mora aos 17min do primeiro tempo; Pepe (f) aos 5min e aos 22min, Almir aos 9min e Lima aos 18min do segundo tempo.
Local: Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro.
Público: 132.728 pagantes (150.000 pessoas)
Renda: Cr$ 98.075.500,00
Árbitro: Juan Brozzi (Argentina)
Santos: Gilmar; Ismael, Mauro, Haroldo e Dalmo; Lima e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Almir e Pepe. Técnico: Lula
Milan: Ghezzi; Davi, Maldini e Trebi; Trapattoni e Pelagalli; Mora, Lodetti, Rivera, Mazzola e Amarildo.Técnico: Luis Carniglia

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Jornal do Brasil;
Jornal “O Estado de São Paulo”;
Revista Bola Alvinegra;

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