A Importância de Antoninho Fernandes!

Published On 22/11/2015 | Artigos
Por Kadw Gommes
Santos, 22/11/2015
Atualizado, 27/02/2017

Santistas, falamos de Santos FC, falemos de Antoninho Fernandes…
Para o clube que mais fez gols na história, é fundamental, imprescindível, indispensável ter jogadores construtores, criadores, arquitetos de lances, passes e jogadas que possibilitam aos atacantes sua consagração eterna. Dentre tantos que aqui passaram, destaco com orgulho, entusiasmo e veemência um em especial: – o injustiçado Antoninho Fernandes.
É paradoxal para mim, falar de Antoninho, um paradoxo de espaço-tempo, e lhes digo o porquê: sou jovem, não vi o Antoninho jogar, e mesmo assim sinto extrema nostalgia, em pensar ou falar desse ídolo histórico lá dos longínquos anos 40, uma época sem títulos. É louco, talvez eu o tenha visto em outras vidas – não sei. O que sei, é por pesquisas em livros, jornais ou relatos da época, historias… mas tento aqui resgatar um pouco de sua importância:
A Vila Belmiro inteira se levanta, torcedores fixam os olhos de esperança na sua maior expressão de valor futebolístico em campo nos tristes anos de 1940, calmo, sereno, lá vai Antoninho Fernandes com a bola, esbanjar sua técnica, vestindo o imaculado manto branco a demonstrar sua elegância, seu refinamento no campeão da técnica e disciplina, com passes milimétricos e precisos servindo Pinhegas, Nicácio e principalmente Odair Titica.
Especialista em passes precisos deixando seus companheiros na cara do gol, Antoninho era um típico talento clássico, diferenciado, jogador de técnica apurada, por vezes incansável, jogava por amor à camisa, a uma camisa, a do Santos FC. Foram 13 anos (1941/1954) com ela em seu corpo, suava, dava o sangue, e chegava a chorar quando ousavam pedir para não mais a vestir. Tinha incrível dedicação coletiva, entrega total a equipe. O arquiteto da bola, era um craque excepcional, sabia tudo sobre futebol como jogador – e como técnico posteriormente. Era um artilheiro na sua posição de meia direita, tinha facilidade em marcar gols e era um líder também, um dos maiores, comandava o time com respeito dos seus companheiros e adversários.
“É o único jogador da minha posição que respeito”. Esse era o comentário que Zizinho, ídolo de Pelé, dirigia a respeito do arquiteto da bola.
Antoninho, foi quem começou e difundiu um futebol solidário em Vila Belmiro, dizem que na época, os jogadores tinham ego grande, cariocas que chegavam ao clube. Cabia ao Antoninho, apaziguar situações. Ele com seu futebol formidável, imenso, voluntarioso, servia o tempo todo aos companheiros, visava o trabalho técnico da equipe, na sua distribuição em campo, dava moral ao time. Era um jogador que se doava ao time, pulmão da equipe, buscando a melhora da performance do grupo. Antoninho se caracterizou como um jogador tranquilo, muito aplicado, mais enxiasse de garra quanto o time estava perdendo.
Destaco um lance, um caso curioso que li numa crônica da revista placar, que ocorreu com o Odair Titica. Ele, o Odair, era um centroavante nato, daqueles que só sabia fazer gols, digamos um Serginho Chulapa. Porém, não andava marcando gols, sua maior virtude andava por contraria-lo e a torcida andava pegando no seu pé. Pois bem, numa partida do Campeonato Paulista, a torcida o xingava, vaiava e sobrava até para a mãe dele: irritado, Odair já estava até a pedir para sair de campo. Mas o Antoninho sabia que ele era um jogador útil, importante e buscou ajudá-lo. Como? Recuperou a bola no meio-campo, driblou toda a “zagueirada” um a um, e entregou com sua categoria de bandeja a Odair Titica: GOL! A partir dali, consta que ele voltou a marcar seus gols e alegrar a Baixada.
Em outro lance, esse merece grande destaque, ocorreu no Campeonato Paulista de 1950, num empate por 1×1 entre Santos e Palmeiras. Antoninho, O Arquiteto da Bola, que também era um artilheiro, marcava um dos gols mais bonitos no Estádio Urbano Caldeira. Para ele, esse foi o gol mais bonito de sua carreira:
“Odair cobrou o chute de quina. Dessa vez a bola veio rápida, muito mais chute que centro, e eu, então que estava vigiado por Waldemar Fiúme e Manuelito, corri entre ambos, descrevendo como que um “S” saltei para a bola meti a testa e joguei-a no ângulo mais fechado da meta do grande guardião palmeirense que se esticou todo, mas sem lograr deter a trajetória da pelota. Estava aberta a contagem. E na volta ao centro do campo, abraçado pelos meus companheiros, chegou-se a mim o juiz, o inglês mr. Bradley. Fiquei espantado, teria ele anulado o gol? Não, não anulara nada. O que ele queria era cumprimentar-me e apertou-me a mão. No segundo período Jair empatou e o prélio terminou em 1×1. Com a perda desse ponto, o Palmeiras, cedeu ao São Paulo a sua posição de líder. Mas poucos dias depois, o Santos ganhando do São Paulo por 2 a 1 (Odair, Friaça e Odair) no Pacaembu, dava o título de campeão ao Palmeiras, ficando o Santos com o vice-campeonato”.
Era típico, comum eu diria, segundo descrições, jogadas as quais Antoninho com sua elegância, atravessava o campo de cabeça erguida, driblando zagueiros e com passes precisos buscando algum atacante melhor colocado, deixando-o em condição de finalizar. Essa era sua dinâmica em campo. Segundo o historiador De Vaney “ele era um verdadeiro bailarino”. Perdoe-me se cometo pecado, mais afirmo pelas evidencias, que ele não tinha jogadores a sua altura na equipe, foi um jogador muito superior à sua geração na década de 40.
Santistas, Antoninho foi um injustiçado, uma dessas vítimas da história que o futebol costuma fazer. Me apazigua essa injustiça, quando penso que pelo menos como técnico foi bem-sucedido, digo por ser campeão diversas vezes entre 1967 a 1969. Porem entristece, que as pessoas esqueçam disso. Foi ele que assumiu o clube quando Lula, encerrou sua participação na Vila, Antoninho era seu auxiliar. O ex-jogador, assumiu o time numa situação que vale ser lembrada: a mídia esportiva, torcedores rivais e até do próprio clube, apontavam que o Santos estava em decadência. Sim, com as perdas de 66 (Paulista e Brasileiro) e o fim da carreira de grandes jogadores, o clube teria acabado sua fase áurea. Mas Antoninho mostrou o contrário: subiu jogadores da base, postulou sua forma de trabalho e o clube voltou a dominar o futebol nacional e internacional novamente. Chegou também a treinar a Seleção Olímpica do Brasil.
Quando eu lhes falo, que ele foi um injustiçado, é porque foi mesmo. Como pode um jogador dessa magnitude não ser chamado pela Seleção Brasileira? Apontam, que era despeito dos cariocas que tinham o comanda da CBD e o bairrismo ocorria, numa época que tambem não foram disputadas Copas do Mundo. Para amenizar, pelo menos, Antoninho pode esboçar e praticar seu grande futebol na Seleção Paulista, sendo figura carimbada em diversas formações.
Os que aqui lerem, prestem bem atenção: se outros ídolos, como Araken Patusca, Robinho e Neymar, por exemplo, fizeram pouco caso no clube, por dinheiro e qualquer outra coisa, Antoninho contrariou até o presidente do clube para ficar no Santos. Poucos jogadores na nossa história se dedicaram e amaram tanto nosso alvinegro, quanto ele. Eu lhes dou exemplos:
Ressalto, que o Palmeiras, assim como tantos outros, quis contar com o futebol do Arquiteto, impressionante com sua técnica, depois que o teve emprestado a disputa do Rio-SP. Tanto, que o alviverde quis contratá-lo, num negócio proveitoso que interessava e muito a diretoria santista. Pasmem! Em uma entrevista de rádio, pressionado pelo presidente para dizer que deixaria o clube, Antoninho começou a ficar nervoso, a chorar e disse que nunca tinha passado por sua cabeça deixar o time que amava. Sua vontade prevaleceu, e seguiu na Vila Belmiro.

Sua despedida com a camisa do Peixe foi no dia 24 de novembro de 1954, em um amistoso na Vila Belmiro. A coisa é tão de um jeito, que Antoninho faleceu vitimado por um infarto no dia 16 de dezembro de 1973, a caminho São Paulo, para acompanhar um jogo do seu amado Santos, diante do São Paulo, no Morumbi em 1973.

O fato, esse irrefutável, incontestável, mais pouco exercido, é que Antônio Fernandes, o arquiteto da bola, é uma bandeira do clube, uma lenda, uma parte da história, o símbolo de uma época triste é verdade, mas que existiu e não pode ser apagada, afinal faz parte da evolução. Foi sem sombra de dúvidas, o que de melhor aconteceu ao Santos durante a década de 1940. Com ele, o time ainda alcançou dois Vice-Campeonato (1948 e 1950), se despediu justamente quando um grande esquadrão começava a se formar, parece que ele foi destinado a ser esse símbolo de época.
Antoninho foi mais uma joia que se profissionalizou na Vila Belmiro, chegou ao clube aos 19 anos de idade, lutou muito pela conquista de um Campeonato Paulista, no entanto, só pôde comemorar títulos de menor expressão: Taça das Taças de 1948, Taça Cidade de Santos de 1948 e 1952, Taça Cidade de São Paulo de 1949, Torneio Quadrangular de Belo Horizonte de 1951 e o Torneio Início de 1952. Do mesmo jeito, que artilharias são valorizadas no clube do DNA Ofensivo, o mesmo deve se aplicar a jogadores com tanta expressão técnica, como Antoninho. Afinal, no campeão da técnica e disciplina, o arquiteto da bola foi o símbolo maior da classe por mais de uma década com a camisa santista.
Se imaginem, vocês que aqui leem na década de 40, assim possam ter noção de tudo que falei. Seja como jogador, técnico ou torcedor, Antoninho dedicou sua vida ao clube, tem números até hoje formidáveis, mesmo sendo um meia direita de origem. Abaixo, alguns destaques:
  • Antoninho, entrou no time de todos os tempos do SFC em 1982, numa eleição promovida pela revista placar.
  • 12º maior artilheiro da história do SFC, com 145 gols (5º maior artilheiro antes da era Pelé),
  • 7º maior artilheiro da Vila Belmiro, com 91 gols (3º maior antes da era Pelé),
  • 10º maior artilheiro do SFC em Campeonatos Paulistas, com 73 gols (5º maior antes da era Pelé).
  • Em termos de gols, seu melhor ano foi 1944, marcando 12 tentos, onde foi o artilheiro do clube no ano.
  • Há se pudéssemos ter estatísticas de assistências…
Cabe a nós torcedores não deixar a importância desse ídolo se apagar, é com pesar que digo que eu nunca vi uma bandeira na nossa torcida com o rosto, nome, referência ou qualquer forma que expresse Antoninho Fernandes. Porque?

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