A primeira conquista estadual – 1935

Published On 18/01/2015 | A História das conquistas, Histórias
Por Kadw Gommes
Santos, 18/01/2015

Eram tempos em que o futebol se apresentava em meio à confusão de entidades e clubes, com o advento do profissionalismo (1933) em contínua agitação. Pelas elevadas performances nos paulistas de 1927, 1928 e 1929, ao qual terminou como vice-campeão, sendo ainda terceiro em 1931, o Santos FC mostrava ser uma das principais forças do futebol paulista e dava prenúncios que a primeira conquista estadual não tardaria a ocorrer. Em 1935, buscando um melhor entrosamento para as disputas do certame regional, a equipe trilhou uma excursão proveitosa ao Rio Grande do Sul, marcada pela presença ilustre de Arthur Friedenreich em seu quadro de jogadores. Naquele ano, foram disputados dois campeonatos, um pela Liga Paulista – competição mais forte tecnicamente – com sete equipes em disputa (Santos, Corinthians, Palestra, Hespanha, Port. Santista, Paulista e Juventus), e o da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), que teve oito participantes, tendo como campeã a Portuguesa de Desportos.
Foram passados três dias após rota ao Sul, dia 02 de fevereiro, e o Santos FC faz sua estreia na Liga Paulista de futebol (LPF), tendo como primeiro adversário um desafio: o atual tricampeão Palestra Itália, na Vila Belmiro. O Alviverde aquele ano buscava igualar o feito do Paulistano, o único a ser tetracampeão paulista consecutivo 1916/17/18/19. Mas, encontrou o time santista bem montado e numa partida complicada e difícil, o alvinegro mostrou consistência e garra, conseguindo triunfar por 1 a 0, com gol marcado por Raul. Com isso, se era necessário algum teste para dimensionar a qualidade do time, ela comprava-se nesse jogo, numa “união tática e determinada da equipe” como definem os jornais.
Pelas rodadas seguintes, o Santos FC venceu o Hespanha (atual Jabaquara) por 2 a 0, no campo do macuco completamente lotado, com gols de Saci e Sandro. Depois, goleou o Paulista por 5 a 1 (com três gols de Sandro, um de Logú e um de Zé Carlos) no estádio Parque Antártica, chegando a terceira vitória consecutiva. Até que acabou conhecendo o primeiro revés, numa partida bastante polemica, diante do Corinthians por 2 a 1, na Vila Belmiro. Está por sinal a única derrota em todo o campeonato. Nesse jogo, segundo os jornais da época, o árbitro (Atílio Grimaldi) não deu dois pênaltis para o Santos, provocando a invasão do gramado pelos torcedores. Tendo a Polícia revidado com cavalaria mediante enorme confusão.
Na rodada seguinte, ocorre pela primeira vez o clássico praiano em Campeonatos Paulistas. É digno de nota, que as equipes santistas tiveram destaque nesta edição estadual. O grande público santista com entusiasmo lotou Vila Belmiro para o cortejo, assim como presença notável lusitana. Em campo, numa atuação contundente a equipe correspondeu diante da Portuguesa Santista e retomou o caminho das vitorias, aplicando um 3 a 1 categórico, com gols de Junqueirinha, Logú e Mario Pereira. Pelo último compromisso do primeiro turno, o SFC bateu o Juventus da Moóca na Capital, pela contagem de 4 a 1, com dois gols de Delso, um de Araken Patusca – que retornava ao clube – e outro de Saci.
Promovendo uma campanha quase perfeita com cinco vitórias e apenas dois pontos perdidos, o SFC fez um formidável primeiro turno, estando atrás apenas do Corinthians que venceu seus 6 jogos. Treinador pelo ex-jogador Bilú, o quadro alvinegro formava um time experiente e compacto, e com o retorno do ídolo Araken Patusca, a equipe ganhou na parte técnica. Mais além dele, nomes como Cyro, Neves, Marteletti, Ferreira, Sacy, Junqueirinha e Raul (que cumpriu punição por indisciplina e retornou), mesclando com a juventude de Mario Pereira, deram a consistência necessária para o Santos FC praticar um futebol de méritos incontestáveis.
Pelo início do segundo turno no Parque Antártica, sob destaca atuação do goleiro Cyro, que defendeu pênalti cobrado por Luisinho e promoveu outras defesas importantes, o Santos acabou empatando em 0 a 0, com o Palestra Itália. Emplacando na sequencia duas goleadas na Vila Belmiro, primeiro contra o Hespanha, na vitória por 4 a 1 com dois gols de Junqueirinha, um de Delso e um de Mario Pereira. Depois na dilatada contagem de 5 a 2 no Paulista, com uma grande atuação de Mario Pereira que assinalou dois gols, Araken, Delso e Junqueirinha completaram o resultado. O Santos FC ganhou destaque nos jornais da imprensa paulistas, bem como a liderança isolado do torneio. Assim, o alvinegro caminhava com excelente campanha na competição possibilitando a grande família santista sonhar com o título àquela altura.
Em jogo de qualidade técnica notável no estádio Ulrico Mursa, bom público compareceu para ver Portuguesa Santista e Santos empatarem em 3 a 3. Os gols do peixe foram marcados por Araken, Junqueirinha e Mario Pereira. Em seguida ocorre importante triunfo santista na Vila Belmiro, por 2×1 contra o Juventus, gols de Junqueirinha e Sacy. Nessa partida ocorre a estreia do zagueiro Agostinho no qual notou-se estabilidade na zaga. Com os resultados até aquele momento, a decisão seria contra o Corinthians, o único time que conseguiu vencer o Peixe no certame, a partida era prevista para o dia 17 de novembro, no Parque São Jorge/SP. Assim, como havia perdido apenas 4 pontos, para o Santos FC bastava vencer ou empatar para conquistar o certame. Já o Corinthians, que havia perdido apenas um ponto a mais que o Peixe, interessava somente a vitória, pois assim, se vencesse o Palestra Itália no último jogo ficaria com a taça. Uma derrota santista, ainda deixaria o Palestra com chances de conquista, para isso, precisava vencer o último compromisso, contra o SCCP, e assim provocar uma super-decisão contra o SFC.
O grande prélio decisivo do Paulista de 1935, entre os alvinegros, no Parque São Jorge, acabou sendo bastante tumultuado. Antes mesmo do duelo, a imprensa paulista dizia que o Corinthians ganharia com eminencia aquele cortejo, pois “não se deixaria bater em seus domínios”. Pelo lado santista, além da euforia e ansiedade dos torcedores e jogadores, ficou notável a preocupação do técnico Bilú, que quando jogador assim como o experiente Araken Patusca, tinham sido prejudicados na final de 1927. Experiente, o treinador tentou acalmar e focar a equipe, pedindo-lhes para que “Não se deixem levar pela guerra de nervos”.
Era o momento de surpreender e fazer história, se colocando definitivamente entre os grandes. E assim, muitos torcedores vieram prestigiar a partida, os trens estavam tomados pela entusiasmada torcida do Alvinegro Praiano que se mostrava bastante confiante, aquele dia. Um grupo de estivadores levou escondidas diversas garrafas com gasolinas que seriam utilizadas para atirar fogo em Parque São Jorge, em caso de o Santos ser novamente prejudicado e garfado em um jogo decisivo do Campeonato. Mário Pereira em depoimento ao historiador Guilherme Guarche, afirma que “botariam fogo no estádio, se fosse preciso”.
Ainda em relato do pesquisador Guilherme Nascimento: “Vale a pena lembrar que a única derrota ocorrera na Vila Belmiro contra o mesmo Corinthians… porém em condições muito especiais…na ocasião o árbitro não assinalara dois pênaltis para o SFC, fato esse que provocou a invasão do gramado pela torcida santista… não é necessário dizer que a confusão foi gigante, com a cavalaria da Força Pública avançando sobre os torcedores. Assim, torna-se possível entender o ânimo dos torcedores a caminho do Parque São Jorge” afirma. Antes da bola rolar, nem as vaias de toda a fazendinha na entrada do time em campo, amedrontava os craques da baixada.
Era chegado o grande momento, o jogo começa no estádio parque São Jorge/SP. No primeiro tempo percebeu-se um Corinthians empurrado por sua torcida, mostrando estado elétrico, com seus jogadores se movimentando bastante e procurando brechas para penetrar na defesa santista, mais sem qualquer sucesso. Apesar da empolgação do time da casa, foi o Santos que abriu o placar, num contragolpe fatal aos 36 min, depois de bela jogada individual de Raul que marcou um lindo gol, abrindo vantagem santista e calando a torcida corinthiana. Depois do placar sair do zero, embora outras oportunidades tenham surgido, para ambos os times, terminava assim a primeira etapa, deixando a família santista esperançosa.
Quando o segundo tempo começou, novamente foi o Corinthians quem tomou as atitudes iniciais e esboçou uma reação imediata, refutada pela defensiva santista. Foram precisos apenas 17 min no complementar, para o grande nome santista dar números finais a partida. Em um contra-ataque fulminante, Araken Patusca passa por dois zagueiros corinthianos, e assinala o segundo tento com extrema categoria e classe. A empolgação era enorme no estádio, lotado com público estimado em 18 mil pagante, faixa estendidas na arquibancada diziam “Salve Santos F C, glorioso campeão paulista de 1935”! Com o segundo gol, o alvinegro praiano passou a tocar a bola de pé em pé, colocando o adversário na roda e esperando o fim da partida, que então é cessada, para a festa se estender pela cidade de Santos. Segundo registros (conforme a escrita do jornal “A Tribuna”), a cidade parou para receber os heróis santistas. Vagões e mais vagões da SP Railway serviram de transporte para os santistas que se aventuraram a ir ao longínquo Parque São Jorge.

Curiosidades sobre o título de 1935:
A festa começou depois do jogo, prosseguiu nos trens que desceram a serra, no bar da estação de Santos e tomou a cidade. Até quem não acompanhava o futebol saiu às ruas para comemorar e saudar os heróis. Cinco bandas foram vistas tocando pela cidade.
Dias depois, na disputa pelo estadual dos segundos quadros, o Santos bateu o Palestra Itália por 4 a 0 em São Paulo, 2 a 1 em Santos, e fez barba e cabelo no futebol paulista em 1935.
Delso, o atacante que fez gols importantes para o Santos, desfalcou o time na decisão, pois teve de ir ao Interior acompanhar o enterro de sua mãe. Mário Pereira, muito caçado pelos zagueiros, devido à sua agilidade e velocidade, sofreria grave contusão nos joelhos, em uma daquelas chamadas “entradas criminosas” e abandonaria o futebol pouco depois, aos 22 anos. Com cinco gols, Mário Pereira foi o segundo artilheiro do Santos na campanha do título, um a menos do que Junqueirinha. Mário, que nasceu em Santos 4 de abril de 1914, apenas dois anos depois da fundação do clube, marcou 24 gols nos 41 jogos que fez pelo Santos, média de 0,58 por jogo. Só nos resta agradece-lo pelo amor, pela vida dedicada ao Glorioso Alvinegro Praiano. (Conta o historiador Odir Cunha)
SAIBA MAIS >
O time que fez do Santos FC um Campeão;
Jogos e Fichas Técnicas do Paulista de 1935;

Fontes e Referencias:
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Jornal a Gazeta Esportiva;
Jornal A TRIBUNA;

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