A Sétima Década (1972-1982)

Published On 27/05/2016 | Décadas
Por Kadw Gommes
Santos, 27/05/2016

SANTOS GLOBETROTTERS
A EXPLOSÃO DA TORCIDA
OS MENINOS DA VILA
Foram épocas de constante agitação e registrou-se uma das décadas mais marcantes e representativas para a identidade do clube (1972-1982). Nessa etapa, três períodos importantes têm grande relevância: 1. Santos FC Embaixador do Futebol. 2. O epilogo do Rei Pelé e a instabilidade financeira, técnica e política do clube sem ele. 3. A redenção com os Meninos da Vila e a força da torcida.
Entre 1972 a 1974, ainda mantendo uma excepcional equipe, fixada entre as melhores do continente, o Santos FC esbanjava um esquadrão com grandes craques a encantar o mundo: Cejas, Carlos Alberto Torres, Marinho Peres, Clodoaldo, Afonsinho, Jair da Costa, Alcindo, Edu e a máxima expressão futebolística Pelé. Mais consagrado que nunca, o Rei do futebol caminhava para o fim da carreira e seria o principal gerador de fanatismos eloquentes pelos gramados mundo a fora. Tanto que, na primeira metade da década, se noticiou as maiores excursões já feitas por um clube de futebol na história. O Alvinegro produziu marcas mundiais e contabilizou 47 recordes de renda e 33 de público, em apresentações pelo globo terrestre.
O maior impacto global futebolístico estabelecido por um time na história aconteceu nesse período (1971-1974), sendo provocado pelo Santos FC com o apogeu e desfecho de Pelé no futebol. Eram tempos de um Santos-Globetrotters, uma grande atração nos gramados estrangeiros, em que todos queriam testemunhar a base da Seleção Brasileira de 1970 e o maior jogador de todos os tempos.
É uma fase do Santos FC como grande embaixador do futebol, iniciada em países como a França, ao qual foi utilizado para popularizar o futebol local e jogou para arrecadar fundos na busca pela cura de doenças. Pelé ainda fez desfile em carro aberto com a Taça Jules Rimet, junto de Clodoaldo, “parando às ruas de Paris”. Em 1972, além de condecorado com a Fita Azul, o Alvinegro promoveu ato de repudio e bravura, enfrentamento a Ditadura Pinochet, vencendo por 5 a 0 a seleção Chilena que disputaria a Copa de 1974, em pleno o sanguinário estádio Nacional, perante o ditador. Em junho daquele ano, tornou-se o primeiro clube a jogar em todos os continentes possíveis do globo terrestre. Além de alguns países europeus, na Ásia, na América do Norte e Austrália, o futebol se notabiliza com a presença do SFC.
Pelos gramados da Europa, Américas, Ásia, África e Oceania, os registros a cada apresentação do Time de Branco eram de estádios completamente lotados, fanatismo extremo e delírios dos expectadores. Recordes de públicos, gritarias e correrias, acontecimentos dignos de comparações a um fenômeno mundial, idolatrias eufóricas por onde passava, o Santos FC viveu tempos de Beatlemania! Para o respaldado canal argentino DiFilm e a italiana Guerin Sportivo, o SFC notabilizou-se como o mais famoso clube do planeta e Pelé em absoluto Rei do Futebol. No final do século XX, o camisa 10 seria reconhecido como Atleta do Século. A extravagante fama internacional, assim como os bons números da temporada, não deixava nítida a situação técnica do SFC que, em comparação a década anterior, começava a decair – afinal, manter o padrão de um time que foi considerado o maior da história, não era algo fácil.
Nos compromissos nacionais, o Santos FC postula sua equipe temida e competitiva (1973-74), embora tenha demostrado momentos instáveis (1971-72). No quadro, uma composição de craques consagrados, jogadores de Seleção e nomes rentáveis. A defensiva denota recorde em mundiais: o SFC é o único na história com quatro capitães de Copas do Mundo (Mauro, Orlando, Carlos Alberto e *Marinho em 74). No meio campo técnica-classe apurada, numa composição da frente que durante dois anos foi a melhor do Brasil. Fomentando o SFC como o melhor ataque por edições do Campeonato Brasileiro (61, 64, 68, 73 e 74). Embora a equipe santista tenha deixado escapar jogando como mandante e favorita, o título Brasileiro de 1974, obteve – com a Portuguesa – o título do Campeonato Paulista de 1973. A última conquista santista com Pelé. Pouco a pouco… o Santos FC e o futebol perderiam seu maior expoente. A despedida do Rei ocorreu no gramado de Vila Belmiro, em outubro de 74.
Num segundo momento da década (1975 a 77), o clube enfrenta uma enorme crise sob todos os aspectos (financeiro, político e técnico.). Desde fins da década de 1960, o Santos vinha se debilitando com a compra do Parque Balneário e os diversos transtornos e prejuízos, causados pelo alto custo do imóvel, provocando a problemática. Outro agravante foi a honestidade de alguns dirigentes, acusados de escândalos. Quanto contava com Pelé e toda sua grandeza “camuflava-se a tormenta”, mas após a despedida do Rei, ficou perceptível que o Santos estava em declínio e entrava numa crise existencial. Embora passando por problemas decorrentes, a torcida santista abraçou o time incondicionalmente e tem enorme destaque no período, lotando praticamente todos os estádios paulistas.
Na partida do dia 11/12/77, Palmeiras 1×1 Santos, é batido o recorde de público do estádio do Pacaembu/SP, total de 68.327 pagantes. O SFC que chegou a ter a maior torcida do país, entre 1968-69, segundo IBGE, tinha nessa época a segunda maior do estado e uma das quatro maiores do Brasil.
Diante dos problemas econômicos, rapidamente os grandes jogadores foram sendo negociados, as excursões internacionais que sempre serviram para manter o possante elenco, ficaram inviáveis devido ao alto custo de passagens, hospedagem e lanches. Num passado não tão distante, mesmo quando excursionava sem Pelé, o SFC arrecadava 50% a mais que os rivais, numa apresentação feita no exterior. Com a presença do Rei evidentemente os valores exorbitavam. Por muitas vezes o clube foi financiado com regalias sem gastar nada para excursionar, no entanto, a nova realidade não tinha Pelé e outras estrelas, ou mesmo um time competitivo, e os convites também cessaram.
É uma etapa que culmina-se uma crise terrível: sem Pelé, sem grandes jogadores regulares, sem dinheiro – e sem perspectivas! Nem mesmo as estrelas Carlos Alberto, Clodoaldo e Edu supriram o bom nível técnico esperado. O capitão do TRI/70 foi negociado com o Fluminense/RJ, já Coró enfrentou inúmeros problemas físicos, assim como o ponta-esquerda prodígio Edu, apontado como substituto de Pelé, passou também a sofrer com excesso de peso. Somente dois anos depois, em 1977, o clube tornou a encantar solos estrangeiros, com as conquistas do Torneio Hexagonal de Chile (recorde) e o Torneio Triangular do México. Em maior valor, pelo Hexagonal, deferiu 2×0 ante o campeão da Libertadores, River Plate-ARG, na Argentina. A manchete foi:“el brillo del fútbol brasileño!”
Foi em meio a um período tenebroso com a impossibilidade de grandes contratações que a capacidade de reinvenção e de superar dificuldades do Santos FC entrou em cena: ressurgem os Meninos da Vila. Geração brilhante de jogadores vindos das categorias de base, que se tornam protagonista do fim da década de 1970. O mentor foi o técnico Chico Formiga, que visionou seu sucesso nas canteiras santistas, ao qual surgem Pita, Juary, Rubens Feijão, Claudinho, Toninho Vieira, Zé Carlos, Joãozinho, Nilton Batata, João Paulo, aliando-os aos experientes Clodoaldo e Aílton Lira. Os garotos ganharam personalidade e conjunto, jogavam de igual para igual frente ao poderoso Corinthians de Sócrates, Zé Maria, Wladimir e Cia., atropelavam o São Paulo de Waldir Peres, Serginho e Zé Sérgio, e superavam os fortíssimos times de Campinas (Guarani e Ponte Preta), comandados por Careca, Zenon, Renato, Dicá, Lúcio, Carlos, Oscar, entre outros. Os meninos fizeram a renascença pós-Pelé e conquistaram o Campeonato Paulista de 1978, após triunfo nas decisões diante do SPFC (campeão do brasil em março de 78), em pleno Morumbi/SP, fazendo encher de orgulho e renovando as esperanças alvinegras.
A importância da torcida nessa década foi indispensável. Mesmo obtendo grandes arrecadações, o clube se viu obrigado a vender seus principais atletas e a geração de garotos que encantou multidões acabou se desfazendo em fins de 1980. O último bom momento do time ocorre no Paulista/80, num vice-campeonato. Por uma necessidade, Rubens Quincas havia aproveitado a base, conseguindo resultados satisfatórias, porém, o mesmo não seguiu na política dos futuros presidentes. Começava uma era de veteranos no Santos, ao qual o clube mais comprava que revelava atletas, e o interesse maior dos mandatários foi de garantir as financias com a venda dos jovens bons valores.
Os próximos anos (1981 e 82), alguns resultados relevantes, como nos prélios internacionais diante da seleção do Paraguai (aumentando o recorde de vitorias contra seleções), Milan-ITÁ e Feynoord-HOL, e nacionais como na goleada frente ao Palmeiras por 6 a 1, mas o período demonstrou a necessitava de reformulações para aspirar triunfos maiores.

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Centro de Memória e Estatísticas do Santos FC (Guilherme Guarche);
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
ASSOPHIS;
Jornal A TRIBUNA de Santos;

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