Importância Histórica (1912-1931)

Published On 16/08/2017 | Importância Histórica
Por Kadw Gomes

A cidade de Santos sempre foi um patrimônio de orgulho nos esportes. E uma década depois de Henrique Porchat de Assis, o Dick Martins, trazer a primeira bola, se tornava também uma representatividade futebolística.
Mas quando o SC Americano – time Bicampeão Paulista (1912-13), de inúmeras façanhas históricas, como ser o primeiro a excursionar no exterior – mudou sua sede para a capital, a cidade ficou sem um representante forte no Campeonato Paulista. Apontou assim a necessidade de uma nova grande força no futebol da cidade.
Na tarde de domingo do dia 04 de abril de 1912, um grupo de jovens idealistas resolvem então se reunir para formar um clube de futebol. Apesar das pretensões ousadas e visionarias daqueles rapazes, jamais podiam imaginar estar fundando um dos maiores times do mundo e o mais importante clube brasileiro na história: o Santos Futebol Clube.

Predestinado a projeção de craques lendários, aos grandes espetáculos, façanhas históricas e as grandes conquistas, o Alvinegro também constitui inúmeras contribuições ao futebol. O que torna o Santos F.C. não apenas um clube com grandeza, mas também com importância histórica. Algo irradiado desde os primeiros anos de existência.
Naquele mesmo ano em que o gigante Titanic morria nas águas, surgia um novo gigante do mar, o Santos Foot Ball Club. Nascendo já com representatividade e prestigio, formando uma geração importante logo nos primeiros anos de vida, a equipe de Urbano Caldeira e Haroldo Cross, apesar de caçula entre os times citadinos, conquistou o Campeonato Santista de 1913 de forma invicta (06 jogos e 06 vitórias). Tamanha notoriedade, sem passar por seletivas (uma segunda divisão), o clube foi aceito no Campeonato Paulista – diferente do arquirrival da capital.
O futebol surgiu elitista no Brasil. Um esporte para as classes oligarcas, que não admitiam a presença de setores populares na prática esportiva. Nesse contexto, logo nos primeiros anos de vida, mais precisamente em 1913, o Santos F.C. apesar de ter origens elitistas, buscou Combater o Racismo e Promover a Integração social. Naquela época, mesmo não sendo mais escravos de direito, com a Lei Áurea sancionada, praticamente todos os negros eram de classes sociais inferiores – sem as mesmas condições das pessoas de cores brancas. Tornando a inclusão dos negros em modalidades esportivas, como o “soccer”, conflituosa.
Mas nem todos concordavam com a ideia de exclusão. Dentre estes clubes estava o Santos, que atuou pela inclusão de raças (como no amistoso vencido por 5×0 diante do São Vicente AC, em comemoração aos 25 anos da abolição da escravatura) e integrou atletas negros – e pardos – a sua equipe principal, como Milton de Lima, Esmeraldo e Anacleto Ferramenta. Outro ocorrente significativo, em partida do Campeonato Paulista, um atleta alvinegro sofreu atitudes racistas, e o Santos mandou um oficio protestando na APEA, em repudio aos agressores. A prática de negros no esporte permitiu que atletas como Leônidas, Pelé e Garrincha, tempo depois pudessem desenvolver e popularizar o futebol.
Nas temporadas de 1914 (disputou apenas amistosos) e 1915, o Santos não participou do estadual. E para jogar o Campeonato Santista de 1915, o Alvinegro teve que usar um codinome. Naquela época, as equipes vinculadas a Liga Paulista, não podiam disputar outros campeonatos. Porém, como a Liga de São Paulo deu permissão para o Santos disputar a competição, o clube teve que usar um nome fantasia: utilizou o nome “União FC”. Novamente com uma grande campanha – 10 jogos e 10 vitórias – tornou-se Bicampeão Santista, notabilizando-se como principal clube da cidade de Santos.
Lutando por causas nobres, que causaram impacto no futebol, o Santos somou num processo evolutivo do contexto histórico. Outra atitude solidária do clube ocorreu quando jogou em benefício das crianças belgas, em 1915, prejudicadas devido aos conflitos na Europa. No mesmo ano, o Alvinegro também atuou em partida diante do Palestra Itália (vencida por 7×0), numa ocasião revertida em arrecadação de fundos para as pessoas prejudicadas devido à seca do nordeste brasileiro.
Ainda era época Amadora, o futebol seguia desenvolvendo, surgindo os primeiros grandes times e os pioneiros modelos de futebol. Através de craques como Cicero Ratto, Millon, Ary, Dominguez e a figura máxima de Arnaldo Silveira, no período 1916 a 1919, o Santos modelou sua primeira identidade futebolística, com um “Jogo de Dominância e Padrão”, tal como descreveu o jornal paulistano, após vitória de 8×2 diante do Botafogo. Mas o clube ainda fez mais, contribuindo de forma imprescindível no “soccer” integrado ao Brasil.
Sendo uma base nacional na primeira década de competições oficiais (1916-1920), o Santos foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do futebol brasileiro. Aquele era o momento mais importante em termos de evolução e estabilização, as primeiras competições oficiais resultavam numa fase de autoafirmação do futebol nacional, e o Alvinegro da Vila Belmiro foi o clube com mais convocações oficiais no período: Arnaldo Silveira (3), Adolpho Millon (2), Haroldo Dominguez (2), Constantino (1) e Castelhano (1). Além do goleiro Otto Banduck, inscrito como atleta santista.
Ajudando na estabilização de uma base de preparação, fortalecimento e padrão de jogo, consequentemente, contribuindo na transformação do futebol como principal esporte do Brasil, o Santos foi uma base fundamental para a conquista do Sul-Americano de 1919, a primeira grande conquista do futebol brasileiro. Tento o máximo de selecionados de um clube brasileiro. Pois, dentre os principais nomes da conquista, estava o do capitão titular da ponta-esquerda Arnaldo Silveira, do ponta-direita titular Adolpho Millon e do meia-esquerda Haroldo Dominguez. A atuação dos atletas santistas foi eminente de consagração.
Arnaldo era o grande capitão e ao lado de Millon, que marcou um gol na campanha, demonstraram um excelente futebol e municiaram o ataque nacional. Haroldo, era reserva, meia-esquerda de futebol vistoso, quando atuou jogou bem, assinalando um gol. Em reconhecimento os selecionados santistas receberam uma chuva de mimos e premiações.
Entre 1926 a 1931, consolidando o melhor futebol de época, com uma performática revolucionaria, o Santos F.C. ganhava destaque no Brasil e até mesmo no exterior. O jornal Mundo Esportivo escreveu o seguinte trecho: “Ao mesmo tempo que empregava a velocidade, empregava também, em idêntica dosagem, a técnica. A linha de frente agrupado por Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista, além de Hugo e Siriri, era, ao mesmo tempo, “escola” e “fabrica” de gols. Ao mesmo tempo que dava lições de como produzir um perfeccionista jogo ofensivo, realizava gols aos cachos, demonstrando, dessa maneira, a pratica do que existia quase teoricamente”, demonstrando a revolução ofensiva do Alvinegro nessa época…
A Dinastia Santista chegou ao cume esplendor. Reconhecida como a melhor equipe do Brasil (Campeão da Técnica e da Disciplina – Jornal O GLOBO) e um Esquadrão de Ouro no período 1927 a 29, produzindo recordes sul-americanos e mundiais, por número e médias de gols. No período 1929 a 31, o Santos produziu inúmeras Feitos Monumentais, sendo o primeiro clube brasileiro a conseguir vencer campeões nacionais do Uruguai e Argentina; base da Seleção Paulista Campeã Brasileira em 29 (4 santistas ajudaram o futebol paulista a derrubar a hegemonia carioca); o primeiro a golear (6×1) uma seleção que disputou a Copa do Mundo (A Seleção da França foi 3º no Mundial); obteve a maior vitória internacional de um clube no Amadorismo, quando venceu os campeões olímpicos e do mundo (A geração uruguaia: Ballestero, Mascheroni, Nasazzi; Andrade, Dorado, Castro, Borja e Iriarte).
No triunfo diante dos franceses o Jornal “A PLATERIA”, de 31/07 de 1930, redigiu: “O Santos ontem, derrotando o selecionado francês que tão bela figurava fez no torneio mundial de montevidéu, abjugou não só para as suas cores como também para as do nosso país – um triunfo altamente expressivo. A sua vitória principalmente alcançada ontem, ecoará certamente por esse mundo a fora, e o coloca entre os mais pujantes grêmios”. 
Em outra abordagem de meritocracia, quando denotou o triunfo sobre a maior geração do futebol uruguaio, Campeão do Mundo (1930) e Bicampeão Olímpico (1924/28), o Santos resgatou o orgulho nacional pleiteando a “maior vitória internacional feita por um clube no amadorismo”. Confirma o Jornal Esportivo: “[…] Santos F.C. carregando as glorias do esquadrão […], dava alento àqueles que aspiravam a reabilitação do nosso “association”, tal a exuberância com que sempre se distinguiu frente aos mais perigosos adversários estrangeiros. […] um triunfo consagrador, o maior entre os maiores daquela época, para o futebol nacional. […] O Santos elevou com soberania o futebol brasileiro, conquistando uma vitorias das mais estrondosas, contra um litigante quase invencível, tais os seus feitos propagados por todos os recantos do mundo.
Alguns jogadores santistas foram cotados para a disputa do primeiro mundial. Dentre os principais nomes estavam o de Athiê e Feitiço, mas o único paulista na competição foi Araken Patusca, apesar de ser jogador do Santos, foi inscrito como atleta do Flamengo. Nessa época existia um conflito entre as federações paulista e carioca, assim, nenhum jogador do futebol paulista foi convocado. 
Como não existiam competições internacionais, o que de maior poderia se alcançar eram triunfos contra estrangeiros. Resultados que engrandeciam o futebol brasileiro. Além dos resultados internos, jogos internacionais contra adversários possantes davam uma noção dos principais clubes do mundo. Vencendo algumas das melhores potências sul-americanas e europeias, sobretudo, demonstrando um futebol deslumbrante e revolucionário ofensivo, fosse ante estrangeiros ou rivais nacionais, com craques de enorme cartel técnico (de seleção paulista e brasileira), batendo recordes, aquele Santos de figuras como Athiê, Osvaldo, Alfredo Pires, Araken, Feitiço e outros vultos, se colocava entre os melhores clubes do mundo entre 1927 a 1931.

CRONOLOGIA DAS CONTRIBUIÇÕES DO SANTOS F.C. AO FUTEBOL NO PERÍODO:

1913. Combatendo o Racismo e Promovendo a Integração Racial.

1915. I. Jogo beneficente às crianças belgas (conflitos na Europa).
II. Arrecadando fundos para pessoas prejudicadas devido à seca do Nordeste.

1914-1916. Principal clube da cidade de Santos no Futebol Paulista. 

1919. Base da Seleção Brasileira na primeira conquista oficial do país, o Sul-Americano.
– A competição que transformou o futebol no esporte nº 1 do Brasil.

1916 a 1920. Base da Seleção Brasileira na primeira década de competições oficiais.
– Nessa fase mais importante, ajudando no desenvolvimento e estabilização, num momento de autoafirmação do futebol brasileiro.  

1927. Pioneiro na Revolução do futebol brasileiro.
– Uma performática ofensiva lendária, que obteve um recorde Sul-Americano de gols (100) e Mundial por média (6,25). Além de ser uma escola para o futebol de época.

1929-1930. I. Base da Seleção Paulista Campeã Brasileira de seleções.
II. Primeiro clube brasileiro a vencer campeões nacionais do Uruguai e Argentina.

1930. A fulminante vitória (6×1) do Santos contra a Seleção da França (3º no mundial).
– Foi considerado um dos maiores Feitos Internacionais do futebol brasileiro. Na ocasião, o Alvinegro tornou-se o primeiro clube brasileiro a golear uma Seleção estrangeira depois de disputar a Copa do Mundo. 

1931. A maior vitória internacional de um clube brasileiro no Amadorismo.
– Feito Internacional inigualável, credenciando respeito ao futebol nacional, o Santos foi o único clube brasileiro a triunfar diante da Geração Uruguaia Campeã Olímpica e Mundial.

1926 a 1931. Uma das maiores gerações da história do futebol. 
– A Dinastia Santista obteve inúmeros Feitos Internacionais e foi considerada pelos jornais (O Globo, Correio Paulistano, Almanaque Olímpicos, A Plateia, Mundo Esportivo), um dos melhores quadros do futebol mundial na época – Campeão da Técnica e da Disciplina. 

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