Arrecadando fundos para a participação do Brasil nas Olimpíadas – (1932)

Published On 19/07/2017 | Memória Santista
Por Kadw Gomes
Santos, 19/07/2017

Eclodiam importantes mudanças no mundo em 1932. Fator que também impactava nos esportes.
Nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt seria eleito presidente (reeleito em 1936, 1940 e 1944); Salazar tornou-se o primeiro ministro de Portugal; Adolf Hitler foi derrotado nas eleições presidenciais alemães por Paul Von Hinderburg e ocorre a guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai.
No Brasil, é realizada a Revolução Constitucionalista, movimento das oligarquias paulistas, sendo derrotadas pelo governo de Getúlio Vargas (conseguindo a realização constituinte em 34). É criado a jornada de oito horas de trabalho; o sufrágio eleitoral feminino e a proibição do trabalho de gravidas. Ainda nesse ano, uma grande perda: a morte de Santos-Dumont, inventor do avião.
Enquanto isso, nos esportes, ocorrem acontecimentos importantes. O futebol brasileiro chegava ao último ano no regime amadorismo. Com intenso conflito entre jogadores, clubes e entidades, o profissionalismo era uma realidade inadiável. E o Santos foi um dos que sentiram essa mudança, perdendo o craque Feitiço. Partindo para um âmbito global, a concentração entorno da realização dos jogos Olímpicos de Verão foi notável. O Brasil, porém, vivia situação conflituosa internamente, sofrendo problemas financeiros e políticos, necessitando de uma forma de logística para enviar atletas às olimpíadas.
Passados quase três décadas na Europa, entre 30 de julho e 14 de agosto seria oficialmente realizados os Jogos da X Olímpiada, em Los Angeles, no ensolarado estado da Califórnia, Estados Unidos – a única região do país que tinha sobrevivido economicamente à queda na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Contaria com a presença de 1332 atletas, sendo 126 mulheres representantes de 37 países, em 16 modalidades esportivas. A distância foi uma problematica e o número de participantes foi menor que os anteriores. Uma baixa, foi a não realização de um torneio na modalidade futebol.
Retornando a situação do Brasil, com a Guerra Civil da Revolução Constitucionalista, o país sofreu problemas relevantes que prejudicaram uma mobilização entorno dos jogos. O conflito retirava a atenção do país durante os meses de julho, agosto e setembro, como é evidente atletas de São Paulo (principal estado de revolta) não participaram da delegação Brasileira, o que prejudicaria a qualidade de desempenho. Sem ajuda do Comitê Olímpico Nacional – que apenas bancou a viagem de diversos dirigentes e seus familiares – chegou-se até a cogitar uma não participação brasileira, contudo, foram feitos inúmeros esforços. Inclusive vindos do futebol.
Naquele ano o Santos “esteve mau das pernas”. Sentiu muito a perda de Feitiço (seduzido pelo profissionalismo uruguaio, tranferido ao Peñarol) e acabou tendo resultados inesperados no estadual – sendo sua melhor partida a goleada por 7 a 1 sobre o Corinthians. Não foram realizados amistosos internacionais, apenas contra equipes de São Paulo, e contra um Combinado Carioca que merece maiores considerações. Em meio a aliança dos paulistas que boicotavam o governo federal, o Santos atuou contrário ao seu estado por uma única causa: o esporte nacional. Pois, ao ser o único a se apresentar diante dos cariocas, nos dias 06 e 08 de março, deu sua cota de contribuição com a renda sendo “destinada a caixa olímpica da CBD” .
No primeiro encontro o Santos perdeu por 4 a 2 para a forte equipe (pró-olímpica) montada com atletas do Rio de Janeiro. Um combinado formado com inúmeros craques, tais como Domingos da Guia e Leônidas, que brilharam na Copa de 1938. Além da presença de Aymoré (defendeu um pênalti cobrado por Pinheiro, da equipe santista), Zezé Moreira, Hermógenes e Carvalho Leite – vultos do futebol carioca. A segunda partida terminou empatada em 1×1. Pouco importou o resultado, o encontro tinha um único proposito: levantar fundos para a participação do Brasil nas Olimpíadas de Los Angeles.
Assim, a mobilização e contribuições por parte de alguns, conseguiu levar atletas brasileiros aos Jogos em Los Angeles. Como Maria Lenk, primeira mulher brasileira a participar de uma Olimpíada. Com 17 anos na época, Maria disputou as competições de natação. Embora, os resultados gerais, foram humilhantes para o esporte brasileiro. A equipe de pólo aquático foi eliminada da competição após atletas agredirem o árbitro quando derrotados pela Alemanha. Sendo que nos Jogos de 1932, o Brasil levou 82 atletas, que sem recursos pessoais, tiveram de viajar no navio Itaquicê, junto de quase 50.000 sacas de café, até Los Angeles. Eles eram obrigados a vender o produto durante as paradas, a fim de pagar seus custos. Os que não conseguissem eram proibido de participar dos jogos. Como cada atleta que deixasse o navio tinha que pagar um dólar, acabaram desembarcando só 67, os que tinham mais chances de ganhar medalhas.
O navio estava camuflado de barco de guerra para não pagar pedágio no Canal do Panamá. A esperteza não adiantou: ao aportar, inspetores subiram a bordo, verificaram que os canhões eram mera decoração e a delegação teve que arcar com o tributo. Os porões do Itaquicê transportavam as sacas de café e os atletas tinham o compromisso de vendê-las nos portos durante as paradas do percurso.

Em 1932, em performances nos Jogos Olímpicos, o Brasil acabou não ganhando nenhuma medalha. Enquanto ao Santos, passaria por temporadas turbulentas, até conquistar seu primeiro Campeonato Paulista em 1935.


Fichas Técnicas:
06/03/1932 – Santos 2 x 4 Combinado Carioca
Gols: Feitiço e Victor Gonçalves – Almeida (2), Leônidas e Alfredo (contra)
Local: Estádio Vila Belmiro, em Santos.
Competição: Amistoso
Árbitro: Alarico Maciel
SFC: Athiê; Sylvio e Pinheiro; Agostinho, Roberto e Alfredo; Vitor Gonçalves, Camarão, Feitiço, Mario Seixas e Logu.
FMF: Aimoré; Domingos e Benedito; Hermógenes, Zezé e Ariel; Alvaro, Almeida, Carvalho Leite (Carola), Leônidas e Jarbas.
08/03/1932 – Santos 1 x 1 Combinado Carioca
Gols: Mario Seixas – Carvalho Leite
Local: Estádio Vila Belmiro, em Santos.
Competição: Amistoso
Árbitro: Não informado
SFC: Athiê; Sylvio e Pinheiro; Agostinho, Roberto e Alfredo; Vitor Gonçalves, Camarão, Feitiço, Mario Seixas e Logu.
FMF: Aimoré; Domingos e Benedito; Hermógenes, Zezé e Ariel; Alvaro, Almeida, Carvalho Leite, Carola e Jarbas.

Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC;
Jornal A Tribuna;
Colaboração de Walmir Gonçalves, grande historiador da história antiga do Santos.

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