Américas e Europa conhecem a Máquina de Gols – (1959)

Por Kadw Gomes
Santos, 19/12/2016

A conquista brasileira da Copa do Mundo de 1958, na Suécia, abriu as portas do mercado internacional para os times brasileiros. Embora alguns clubes já tivessem excursionado no exterior antes, foi com o primeiro título mundial do Brasil que tal processo passou a ser intensificado. Nesse novo momento dos clubes brasileiros, o Santos F.C. foi o mais emblemático…

Os três campeões mundiais santistas: Zito, Pepe e Pelé.

Por contar com três campeões mundiais, Pepe, Zito e, principalmente Pelé, além de ser o atual Campeão Paulista, na época um dos maiores torneios do mundo, o Santos foi um dos clubes que mais recebeu convites para viagens pelo globo terrestre, lucrando bastante. Outros clubes como o Botafogo de Garrincha, Nílton Santos, Didi e Zagallo, foram muito requisitados também. Em 1959, nenhum clube no mundo jogou mais (99 partidas) e marcou mais gols (342) que o Santos FC, recordes mundiais indubitáveis. Naquele ano, dia 03 de janeiro, o Santos FC deu o pontapé inicial na sua história para a consagração: partiu para uma série de jogos pelas Américas do Sul, Norte, Central e um jogo no Caribe.

Time do Santos pousando na foto com o time do Dukla Praga.

Passando por Peru, Equador, Costa Rica, Guatemala e México, a campanha do Alvinegro foi exuberante: em 14 jogos, foram 13 vitórias e apenas uma derrota, quando o Torneio Pentagonal do México já estava assegurado. Foram 47 gols marcados, o Trio “PPP”, Pelé (15 gols), Pepe (14 gols) e Pagão (9), foram os grandes artilheiros. Dentre as grandes vitórias, cabe destacar êxitos ante as principais equipes do México (2-0 no Léon, 4-1 no Atlas, 5-0 no América), incluindo o campeão nacional Chivas, por 4 a 2; também diante do campeão peruano por 3 a 0, o campeão equatoriano por 3 a 1, o campeão da Venezuela (4 a 0), e ante a seleção da Costa Rica (2 a 1). O time voltou para o Brasil em fevereiro e, em março, realizou cinco amistosos, depois conquistou o Torneio Rio-São Paulo, rotina que passaria a ser comum no Alvinegro. Nem houve tempo para comemoração, poucos dias depois, na metade do mês de maio, a equipe embarcou para mais uma excursão, agora pela primeira vez em solo Europeu.
Chefiando a delegação estavam Athiê Jorge Cury e Modesto Roma; o administrador Ciro da Costa; os médicos Dr. Hermínio D’Aló Salerno e Leonardo De Bona; além do técnico Lula.

Com um futebol de excelência, jogando na base do “dia sim dia não”, e abusando de um jogo agressivo no ataque, Os Santásticos provocaram enorme impacto no velho continente. Nos primeiros compromissos, dias 23 e 24 de maio, o Santos enfrentou a Seleção B da Bulgária (que atuou com sete atletas da principal, num campo alagado pela chuva, empate por 3 a 3), e depois a Seleção principal. Com gols de Pelé e Pagão, o Alvinegro bateu por 2 a 0 a Seleção Búlgara, em pleno Estádio Nacional de Sofia. Grande atuação teve a defensiva santista – Pavão, Getúlio, Mourão, Fioti e Dalmo (Feijó) –, especialmente o goleiro Laércio. Saindo da Bulgária o Santos partiu para Liége, na Bélgica, e após vencer o Royal Standard cheio de selecionados (1 a 0), chega à Bruxelas, onde triunfou ante o Campeão da Bélgica, Anderlecht, por 4 a 2, com gols de Pelé (2), Pepe e Coutinho. Ao fim do jogo, o presidente do Anderlecht afirmou que “o Santos é o legitimo representante do futebol brasileiro”. Terminado os compromissos na Bélgica, o time prossegue pela Europa Germânica…

Elenco santista pousando para a foto antes de mais uma viagem.

A rota seguiu para a Holanda, em Groningen, diante do segundo maior campeão holandês Feyenoord, na época dono de oito títulos nacionais, uma das equipes locais mais tradicionais (haviam vencido, entre outros, o Corinthians por 5 a 1 e o Botafogo por 3 a 1). Numa bela apresentação o SFC dignificou o futebol brasileiro, triunfou com autoridade por 3 a 0, gols de Pelé, Coutinho e Pagão. Virtuosos estiveram Pelé e Pagão nesse prélio, jogadas de efeito, dribles magnos, foram chamados de gênios da bola. Onze dias depois o Santos retornaria à Holanda, para golear por 5 a 0 o SC Enschede, atual FC Twente. Dos países baixos a equipe rumou para à Itália, e sofreu revés (3×2) para a Inter, numa partida equilibradíssima em Milão.

O Canhão da Vila, o ponta-esquerda Pepe, um dos mais destacados do time santista. Em ação contra o Servette, da Suíça.

Entre 06 e 13 de junho o Santos fez trajeto pela Alemanha e Suíça. Num verdadeiro vendaval de gols e um perfeccionismo de atuações diante de equipes que já haviam aspirado campeonatos nacionais: venceu por 6 a 4 o Fortuna Düsseldorf, empatou com o Nuremberg (3 a 3); na Suíça, em Genebra, goleou na época o maior campeão suíço, base da seleção local, Servette FC, por 4 a 1; baqueou os atletas do Hamburgo, campeões da Alemanha, que formaram uma seleção para enfrentar o SFC, num match de 6 a 0, com gols de Pelé, Coutinho (3) e Dorval (2). Por fim, aplicou estrondosos 7 a 1 na seleção de Niedersachsen. Na Alemanha, país Campeão do Mundo em 1954, o Jornal germânico Kirkcer avaliou assim a passagem do Alvinegro: “(…) O Santos F.C. deixou a Alemanha como a grande sensação do fussball”.

O Santos começava a ser a nova sensação do futebol mundial.

Chegando na Espanha o espetáculo dos santistas daria continuidade. No entanto, acabou perdendo um dos jogos mais importantes, para o poderoso Real Madrid de Di Stefano, Puskas e Gento (3×5). A nota da imprensa foi que “Madrid não viu o verdadeiro Santos”. Tudo bem que ainda não era aquele Santos (1961-65) eleito o maior time de todos os tempos por europeus e sul-americanos (El Gráfico, France Football, Daily Mail…), mas depois deste jogo nunca mais o Real quis enfrentar o Alvinegro, abandonando torneios, temendo uma derrota, mesmo com todo “lobby” da imprensa mundial para o chamado “Jogo do Século”, como definiu o Jornal Le Monde, da França.
“Desde aquela vitória eles nunca mais quiseram ter um confronto direto com o Santos, para tira-teima, quem é o melhor. Tanto é verdade, que nos tivemos num Quadrangular com River, Boca, Santos e Real, em Buenos Aires. Nós ganhamos do River, do Boca, e na decisão com o Real Madrid eles não quiseram jogar. Eles deixaram o título pro Santos. Deram um presente para cada um de nós e ficou por isso mesmo”, afirmou Gilmar, goleiro do Santos nos anos 60, anos depois. Respondeu ainda sobre um possível confronto: “Acho que era barbada. Nos já tínhamos vistos eles jogarem anteriormente e sentíamos que podíamos ganhar e bem.  E acho que eles também sentiram isso, porque viram o Santos jogar os dois jogos, viram que nos vencemos fácil River e Boca e eles tiveram dificuldades. Então sentiram que poderiam tomar uma caçapada e  entregaram o título pro Santos”.
A máquina santista, contudo, teve um aproveitamento de 67% atuando em solo espanhol. Dentre as desenvolturas, ante o Botafogo, quando o Brasil inteiro discutia qual dos dois times que mais haviam contribuído para o título mundial da Seleção, em 1958, era melhor.
Na verdade, neste dia, o Santos deveria enfrentar o AC Milan, porém o clube italiano estava com alguns atletas contundidos e temendo uma derrota, desistiu do Torneio. Os organizadores para sanar a ausência dos italianos promoveram a competição em jogo único (fato raro na história do Torneio) entre Santos e Botafogo.
Foi uma das melhores apresentações e de maior prestigio do Time de Branco, ocorrente na decisão do Troféu Teresa Herrera, em La Coruña, na Espanha. Um dos troféus mais cobiçadas do mundo, arquitetura chamativa, compondo um metro de altura, 33 centímetros de circunferência e seis quilos de prata, avaliado, na época, em nove milhões de cruzeiros. No dia 21 de junho de 1959 o Santos foi a campo com Lalá; Pavão (Formiga) e Mourão; Getúlio, Ramiro e Zito; Dorval (Alfredinho), Jair (Álvaro), Afonsinho (Coutinho), Pelé e Pepe; para enfrentar a representação do Botafogo, formada por Ernani; Tomé e Aírton (Pampolini); Chicão, Borges e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Waldir e Zagallo.

Com uma grande apresentação, Pelé marcou um dos tentos da goleada.

O jogo pareceu equilibrado, com ataque para os dois lados, na primeira fase. Aos poucos, porém, o Santos passou a dominar, crescendo na partida e chegou ao primeiro gol antes do intervalo, aos 39’, com Pepe cobrando pênalti. Na segunda etapa, evoluindo seu domínio, abusando da ofensiva e da qualidade técnica dos seus atletas, o Santos tratou de aumentar aos 16’, com Pelé, numa jogada de classe, 2×1! Coutinho, aos 22 minutos, pegou o rebote na área para assinalar novo gol para o Santos, 3×1! Dois minutos depois e Zagallo fez o único tento do Botafogo. E aos 34’, Pepe encerrou o placar, 4×1, atirando forte de longe.
“Neste jogo o Lula jogou com dois atacantes: Dorval, pela direita, e Pepe, pela esquerda. Recuou o Pelé, pelo meio, encostado no Jair e no Afonsinho. Usou quase um 4-4-2. Com o Pelé chegando, virava um 4-3-3. Vê-se por aí que o Lula era um estrategista, porque tinha de fechar a defesa e sair para cima do Botafogo no contra-ataque, com Dorval e Pepe. Ganhamos de 4 a 1, no maior show que eu vi em uma partida de futebol. Faltando uns 15 minutos para terminar, toda a torcida de La Coruña, em pé, acenava lenços brancos saudando os jogadores do Santos e do Botafogo pelo espetáculo” (Lalá, goleiro do Santos).

Coutinho aproveita a sobra para marcar o terceiro tento.

O Santos FC deixava no exterior a imagem de melhor time do Brasil. A Taça Teresa Herrera foi entregue pelo Alcaide de Coruña, Sr. Sérgio Panamaria, ao capitão santista Zito, e o quadro paulista deu a volta olímpica pelo campo, sendo bastante aplaudido.

Jogadores santistas fizeram a volta olímpica com o gigante troféu em meio aos aplausos do público.

Três dias depois, ainda na Espanha, noutra apresentação magnifica de futebol o Santos partiu para a disputa do Troféu Naranja, popular Torneio de Valencia. Após empatar com os donos da casa, o Valencia, por 4 a 4 (Pelé, Coutinho, Dorval e Pepe marcaram), o Alvinegro classificou-se para a decisão contra um poderoso adversário europeu, a Internazionale, da Itália. Os Nerazzurri haviam vencido os brasileiros, em Milão, 20 dias antes, por 3 a 2, e a nova partida foi tratada como uma revanche. O Santos formou com Lalá; Getúlio, Pavão e Mourão; Ramiro e Zito (Formiga); Dorval, Jair (Álvaro), Coutinho, Pelé (Afonsinho) e Pepe. 
De forma inapelável e com uma apresentação monumental o Santos massacrou a Internazionale de Milão (ITÁ), em Mestalla, na Espanha, sendo constantemente aplaudido! Desde o início o Alvinegro buscou o gol, com os italianos suportando bem a pressão. Mas o modelo “catenaccio” acabou não resistindo, aos 17 minutos, Pelé construiu a jogada e deu passe para Coutinho, que assinalou o tento com categoria, 1×0! A partida desenrolava-se com o SFC pressionando e, aos 30’, Pepe cobrou uma penalidade para aumentou (2×0!), fechando a conta da primeira fase. No segundo tempo, o Santos não economizou e fez uma das maiores apresentações de sua história, foram cinco gols em profusão, em menos de 30 minutos. Grande destaque teve Zito, tido como promotor da brilhante exibição. O nome do jogo, contudo, foi Pelé, que até então não havia marcado, mas no complementar, não economizou, assinalando pontos aos 3’, aos 8’, aos 23’ e aos 24 minutos, sendo ovacionado pelo público. A Inter fez seu gol de honra aos 26’, com o argentino Angelillo. Cinco minutos depois, Pepe obteve mais um gol para o Santos, fechando extravagante contagem em 7 a 1! Na Itália a manchete da Gazetta Dello Sport: “La squadra fenomenale, Santos F.C., del Brasile”.
Dois dias depois e mais uma exibição de gala! Os Santásticos enfrentaram um oponente ainda mais forte, o catalão Barcelona (ESP), então Campeão Espanhol, da Copa do Rei e da Taça das Taças (Feiras); dos craques magiares Kocsis, Czibor, e do brasileiro Evaristo de Macedo. A imprensa local (El Mundo Deportivo) definiu o Santos como: “El equipo del juego hermoso. (…) habilidoso, brillante y eficaz”.
Na primeira fase, apostando num jogo de movimentação o Santos construiu vantagem de 2 a 1, com Dorval, num arremate certeiro, e Coutinho, de cabeça, após receber cruzamento de Pepe, Evaristo marcou para o Barça.
Na etapa complementar, o Santos desenvolveu jogo rápido, preciso e técnico, aumentando a conta com mais três tentos. Aos 11’, Pelé numa jogada impressionante, driblando defensores e guardando a pelota dentro da meta espanhola, sob aplausos da plateia. Aos 19’, troca de passes da ofensiva santista e a bola sobra para Dorval, que noutro chute preciso marcou. Por fim, aos 26’, Jair controlou a bola até lançar à Pelé, que chutou firme para fechar a goleada em 5 a 1. Superior taticamente e tecnicamente o Santos teve triunfo contundente, e ainda poupou maiores esforços, tendo o Barcelona escapado de sofrer um revés maior.
Sem tempo para descansar o Time de Branco seguiu viagem retornando à Itália (venceu o Genoa por 4 a 2), Áustria e depois Espanha (sem esquecer que também esteve em Portugal – 2×2 com o Sporting), encerrando assim o mais longo giro internacional de um clube brasileiro.

TÍTULOS, PRESTÍGIO, ARTE E MUITOS GOLS!

Acumulando méritos inquestionáveis, calorosos aplausos do público e elogios diversos da imprensa estrangeira, cumpriu o Santos F.C. uma das mais brilhantes trajetórias internacionais em campos das Américas e Europa, obtendo um prestigio mundial inestimável.
Representante virtuoso do “soccer” brasileiro, o Alvinegro de Vila Belmiro tornou-se propenso aos júbilos do futebol campeão mundial do qual ajudou a projetar (1958). Em verdade, segundo estudo estrangeiro do Periódico Fútbol, em 1959, como apresentou a Gazeta Esportiva, o Santos FC foi eleito o melhor time da América do Sul e um dos maiores do mundo.

Troféu Pentagonal do México no Memória das Conquistas do SFC.

Após a passagem do Santos F.C. pela Europa, o prestígio do clube vai às alturas. As incríveis goleadas, principalmente sobre o Barcelona-ESP, Internazionale-ITÁ e Botafogo-RJ são históricas, a fuga do Milan também – mais tarde, como vimos, seria o Real Madrid.
No retrospecto geral, o Santos FC realizou 36 partidas internacionais em 1959, numa média de um jogo a cada dois dias, ganhando 70% dos jogos, dos quais triunfou diante de 12 campeões nacionais e 4 seleções internacionais. O clube visitou nove países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Espanha, Holanda, Itália, Portugal e Suíça. Foram 20 cidades diferentes, disputando 22 partidas – recorde dentre clubes sul-americanos – obtendo 13 vitórias, 05 empates e apenas 4 derrotas, marcando incríveis 78 gols! Retornando banhados de prestigio e elogios da imprensa internacional.
Veja também: Fichas Técnicas das partidas, Excursões de 1959 pelas Américas e Europa.

Pelé, Coutinho e Dorval com as taças do Torneio de Valencia e o Troféu Teresa Herrera.


Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC (Guilherme Guarche);
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC )
Jornal A Tribuna;

One Response to Américas e Europa conhecem a Máquina de Gols – (1959)

  1. Foi o Santos que popularizou o futebol brasileiro e através dessas excursões ao redor do mundo. O clube preferia excursionar de que jogar a Libertadores. Ironia é ver que hoje as coisas mudaram, o Santos não faz mais nenhuma excursão e tem como meta principal a Libertadores. Se o time de 60 tivesse tido interesse nas Libertadores teríamos vencido umas 4 ou 5. Mas foi com as excursões, que a mídia parcial não fala, o Santos virou o grande embaixador do Brasil e foi o melhor time do mundo.

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