Baile na cidade eterna!

Published On 05/06/2017 | Jogos Históricos
Por Ronaldo Silva,
São Paulo, 05/06/2017

Devido a grande atuação contra a Juventus, bicampeã italiana, na estréia do Torneio Itália-61, o Santos se credenciou como grande favorito no encontro com a Roma cercado de muito elogios por toda imprensa italiana, que foram evitados por Lula e seus comandados. O time seria mantido para este segundo compromisso no torneio, com expectativa para o retorno do capitão Zito recuperado de lesão. Os jogadores santistas tiveram a oportunidade de ir ao Vaticano para uma audiência com o Papa XXIII, sendo reconhecidos pela multidão de peregrinos de todas as partes do mundo, causando um verdadeiro frisson.
A Roma contava com a presença de alguns craques em seu elenco com destaque para a dupla uruguaia, campões mundiais de 1950, os atacantes Schiaffino e Ghiggia. A partida era muito aguardada com empolgação em toda Itália, um acontecimento de alta classe, poucas vezes registrado ou talvez nunca no meio esportivo italiano devido a presença de Pelé e as grandes atuações de Santos na excursão pela Europa.

O JOGO
“Na Roma jogavam os uruguaios Schiaffino e Ghiggia, os dois que marcaram contra o Brasil na final de 50. No túnel, antes de entrar em campo, enquanto as equipes estavam perfiladas uma do lado da outra, o Ghiggia (ou foi o Schiaffino) nos mostrava dois dedos em uma mão e um na outra, para que a gente lembrasse dos 2 a 1 do Maracanã” relatou o goleiro santista Lala para demonstar o clima do encontro Santos e Roma.
O sonho dos cem mil romanos presentes ao Estádio Olímpico de presenciar uma vitória da equipe Giallorossi sobre o Santos, durou muito pouco. Os italianos no ínicio se lançaram ao ataque, em apenas 2 minutos, criaram quatro finalizações sendo duas de Manfredini e duas de Selmosson que foram fora. No minuto seguinte, Pelé teve grande oportunidade de colocar o Santos em vantagem e desperdiçou e falhou quando tinha tudo para marcar. Mas não tardou para o Santos sair em vantagem, Mengálvio abriu o placar aos 4 minutos, completando um lance individual preparado por Pelé. O meia fintou Giuliano, entrou na área e ao ser enfrentado pelo goleiro, desviou a bola para o canto esquerdo.
O Santos seguiu partindo ao ataque, aos 8 minutos, numa combinação magnífica Pelé, Pepe e Coutinho avançaram até a área da Roma, coube ao centroavante atirar a bola com violência contra o poste. O domínio alvinegro, às vezes, rompido por deficientes avanços do time italiano que conseguiu um tiro rasteiro de Manfredini, aos 16 minutos, para segura intervenção de Laércio.
Aos 21 minutos, veio a confirmação da superioridade santista, Coutinho ao avançar pelo setor esquerdo e ingressar na área perigosa sofreu rasteira de Fontana e foi ao chão. Penalidade máxima clara, porém o árbitro assinalou tiro livre indireto, no interior da área. Pepe, habilmente, rolou a bola curta para Pelé acertar um violento disparo com efeito à meia altura no canto direito, anotando o segundo gol santista.
O domínio era total, a Roma se mantinha no seu campo, e a goleada era iminente. Aos 26 minutos, num lançamento quase igual ao segundo gol contra a Juventus, em Turim, Pelé acionou o ponteiro Dorval que, se infiltrou entre dois zagueiros, atirou cruzado e contou com a falha do goleiro Panetti para marcar o terceiro, jogada que arrancou aplausos do público italiano. Quando a partida atingia 33 minutos, falhou Consini ao rebater um ataque alvinegro, deixou ao alcance de Coutinho na direita, que passou para Pelé, marcar o mais belo gol da partida, se livrar de Losi e atrair o goleiro, aplicar um finta espetacular e rolar a bola mansamente no canto direito.
O Santos atuou com disposição, atacou com ímpeto, realizou uma atuação poucas vezes vista por um clube brasileiro na Itália. Uma primeira etapa fabulosa, um futebol de rara beleza, passes exatos, dribles incontroláveis e finalizações potentes. Vantagem de 4 a 0 diante da equipe local.
SEGUNDO TEMPO
O mesmo cenário se fez presente na segunda etapa, o Santos perdeu várias oportunidades desde os primeiros instantes para ampliar a goleada. Somente, aos 18 minutos, Dorval cruzou para Zito que avançou alguns passos e, da entrada da área, apontou forte no ângulo superior esquerdo sem chances para o goleiro La Bella que havia entrado no intervalo.
Depois de assinalar o quinto gol, o time santista decidiu abdicar do ritmo veloz e eficiente que imprimia. Procurou mais exibição técnica, troca de passes, lances de malabarismo. O time da Roma estava desencorajado e nas poucas jogadas criadas eram anuladas por completa pela retaguarda alvinegra. A torcida romana irritada com a produção de sua equipe passou a exigir mais gols do Santos e como estes não vieram também foram apupados pelo público.
Atuação inesquecível do Santos, uma goleada que poderia ter sido mais dilatada. A lição recebida pela Roma pela “La Valanga Brasiliana” como foi chamado o Alvinegro, traduzido por “A Avalanche Brasileira”. O desempenho do time foi venerado pelo Corriere Dello Sport (por Antônio Ghirelli) “O primeiro tempo da peleja vitoriosa do Santos permanecerá por muito tempo em nossas recordações, como uma concentração admirável de arte individual, da harmonia coletiva e de esforço atlético. O futebol brasileiro chegou aos cumes da perfeição, porque assimilou os esquemas utilitários do futebol europeu, sublimando com a técnica e a dinâmica de suas tradições”. O Santos se classificou para a decisão do Torneio Itália-61 contra a Internazionale, num confronto a ser realizado em Milão.

Ficha Técnica:
21/06/1961 – Roma-ITA 0 x 5 Santos
Gols: Mengálvio aos 4min, Pelé aos 21min e 33min, Dorval aos 26min do primeiro tempo; Zito aos 18min do segundo tempo
Competição: Torneio Itália 61
Local: Estádio Olímpico, em Roma, Itália
Público: 80.000
Árbitro: Césari Jonni (ITA)
SFC: Laércio (Lalá); Mauro (Formiga) e Décio Brito; Getúlio, Dalmo e Lima; Dorval, Mengálvio (Zito), Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula
ASR: Panetti (La Bella); Fontana, Corsini e Losi; Pestrin e Giuliano; Orlando (Menichelli), Lojácono (Ghiggia), Manfredini, Schiaffino e Selmosson. Técnico: Luís Carniglia

Fontes e referências:
Almanaque do Santos FC;
Jornal “A Tribuna de Santos”;
Jornal “O Estado de São Paulo”
Jornal do Brasil;
Jornal “Corriere dello Sport” (Itália)

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