Campeão na casa alheia

Published On 03/03/2017 | Clássicos e Rivalidades, Jogos Históricos
Por Gabriel Santana
Santos, 03/03/2017

Após ser vice-campeão paulista em 4 oportunidades (1918-1927-1928-1929), a torcida santista esperava ansiosamente pela primeira conquista estadual.
Com o grande reforço de Araken, o Alvinegro realizou uma ótima campanha durante o certame, e sofreu apenas um revés.
Ultima rodada do Campeonato Paulista de 1935. Bastava uma vitória para o Santos conquistar o título.
O grande dia havia chegado. E melhor ainda, dentro da casa de um de nossos rivais.

O JOGO
O Corinthians iniciou dominando as ações da partida, porém, devido a afobação de seus atacantes, e a forte marcação santista, com Neves e Agostinho, o time da casa não levou perigo ao gol de Cyro.

Os capitães Jaú e Neves, ao lado do Árbitro (Foto/Jornal A Tribuna)

Aos 15 minutos, o centroavante Raul assinala o primeiro tento da partida, sendo anulado logo na sequência. O árbitro marcou falta do atacante santista diante de Jaú, alegando que o mesmo teria aplicado uma cotovelada no zagueiro corintiano. Lance duvidoso.
O time da casa novamente tomou as ações da partida, e quando parecia que finalmente marcaria o primeiro gol, a habilidade do ataque santista surpreendeu.
O capitão Neves desarmou o ataque corintiano, e a bola sobrou nos pés de Araken. Sem pensar muito, vendo a defesa adversária desguarnecida, o craque lançou Raul, que rapidamente avançou para dentro da área, e vendo os defensores Jaú e Carlos se aproximando, chutou calculadamente no canto do goleiro José, que nada pode fazer. Santos 1×0 Corinthians.
O time da casa se abateu com o gol sofrido, e o Santos cadenciou o primeiro tempo até o seu término, dando tranquilidade a torcida santista.
No início da segunda etapa, foi a vez do Santos tomar conta das ações. Tocava a bola e fazia o tempo passar, sempre aguardando uma brecha na zaga adversária.
Dos 10 minutos em diante, o Corinthians equilibrou a partida, e deu alguns sinais de reação.
Aos 17 minutos, um balde de água fria para os corintianos. Mário Pereira rouba a bola de Brandão, e prontamente passa para Sacy. O rápido ponteiro vem com a bola até o ataque, passa para Raul, que com um leve desvio, deixa Araken muito bem colocado para estufar as redes com um violente chute. Santos 2×0 Corinthians.

Mário Pereira foi um dos grandes nomes do jogo (Foto/Jornal A Tribuna)

Depois do segundo gol santista, o Corinthians chegou poucas vezes ao ataque, e já quando o ponteiro marcava 30 minutos, não fazia mais questão de atacar.
Vendo a possibilidade de vencer a partida praticamente nula, alguns atletas corintianos perderam a cabeça, e agrediram os santistas. Primeiro o atacante De Maria, propositalmente, atingiu Cyro com um “pontapé”, quando o goleiro havia realizado mais uma de suas belas defesas na partida. Já Brito, atingiu Jango também com um “pontapé”, após perder o lance para o excelente meio-campista. Nenhum dos dois foram expulsos, e com enorme sabedoria, Cyro e Jango não revidaram.
O trio defensivo do Alvinegro de Vila Belmiro, Cyro, Neves e Agostinho, realizaram uma estupenda partida, não dando chance alguma para o ataque adversário.
Com o jogo ganho, foi só aguardar o apito final, para finalmente, o Santos sagrar-se Campeão Paulista!

FESTA NA CIDADE
Logo após o anuncio da vitória do Santos, as ruas na cidade de Santos ficaram tomadas. Não era um grande feito somente do Santos, e sim, um grande feito para a cidade de Santos. O Campeonato Paulista até então, era dominado pelos clubes da capital, até mesmo pela situação financeira. Muitos afirmavam que quando os grandes da capital não podiam ganhar no campo, ganhavam “fora dele”, com subornos e compras de resultados.
Mesmo confiantes com a vitória, os torcedores santistas temiam ser novamente prejudicados pela arbitragem no Parque São Jorge, e prepararam um grande alvoroço caso isso acontecesse. Segundo entrevista de Mário Pereira, o então presidente do Santos, Carlos de Barros, havia dado ordens aos torcedores santistas, que viajaram em um dos vários vagões do trem da São Paulo Railway, levando um galão de gasolina. Se a arbitragem atrapalhasse novamente, como em 1927, 1928 e 1929, os torcedores iriam atear fogo nas arquibancadas. Como o Santos venceu, nada aconteceu.
Trecho retirado de “A Tribuna”, em 18/11/1935:
“Logo que os radios annunciaram a victoria final, as ruas começaram a movimentar-se, como se qualquer coisa de anormal e estranho houvesse acontecido. Em pouco tempo, a praça Ruy Barbosa, em frente ao “Café Paulista”, estava repleta de pessoas, e à medida que se aproximava a hora da chegada da delegação, o publico ia aumentando. Tomaram-se preparativos para que a recepção fosse condigna. Duas bandas de musica esperavam os campeões. Estenderam-se cartazes na rua do Commercio, por onde deveriam passar os jogadores. De tudo se cuidou com carinho. Todos se interessavam pelo brilhantismo da chegada do alvi-negro. Não havia clubismo. Elementos de todos os grêmios se faziam representar na estação da inglesa. Era uma victoria do Santos e da cidade de Santos.”
O dia 17 de novembro de 1935 marcou a redenção, e enfim, uma grande conquista para o time da Vila Belmiro.

Ficha Técnica:
17/11/1935 – Corinthians 0 x 2 Santos
Gols: Raul aos 36min do primeiro tempo; Araken aos 17min do segundo tempo.
Local: Estádio Parque São Jorge, em São Paulo.
Árbitro: Heitor Marcelino
Corinthians: José; Jaú e Carlos; Brito, Brandão e Munhoz; Teixeira, Carlito, Teleco, Alberto e De Maria.
Santos: Cyro; Neves e Agostinho; Ferreira, Marteletti e Jango; Sacy, Mario Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha. Técnico: Bilú

Fontes e Referências:
Jornal “A Tribuna”;
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

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