O Supercampeão do Brasil!

Published On 28/01/2016 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

Promovendo o esplendor do “Futebol Arte” e “Campeão de Tudo” que disputou na temporada passada (Paulista, Brasileiro, Libertadores e Mundial), triunfando sobre os maiores oponentes possíveis: Botafogo/RJ de Nilton Santos & Garrincha; Peñarol (URU) de Pedro Rocha & Spencer; Benfica (POR) de Coluna & Eusébio, entre outros adversários nacionais e estrangeiros. Formando um conjunto fabuloso de craques, mundialmente conhecido e prestigiado como um dos maiores clubes do planeta, o Santos F.C. tentaria repetir os grandes feitos em 1963.
Logo nos primeiros meses do ano, o clube assegurou o Bicampeonato Brasileiro (Taça Brasil, edição de 1962) e, ao mesmo tempo, o Torneio Rio-São Paulo de 1963 (3×0 no Flamengo, em pleno Maracanã), dando mostras do que viria ocorrer naquela temporada. O cronograma de excursões internacionais seguiu, assim como a rotina de títulos: foram conquistados o Bicampeonato da Libertadores, sobre o Boca Juniors/ARG, em plana La Bombonera, e o Bicampeonato do Mundial Interclubes, diante do Milan/ITÁ, no Maracanã. Nesse ínterim, faltou apenas o estadual, mas o time atingiu a invejável marca de nove campeonatos oficiais vencidos seguidamente – um recorde – entre 1961 a 1963.
A temporada de 1963 só acabaria em 1964, com a disputa do almejado Campeonato Brasileiro (Taça Brasil), competição que asseguraria ao Santos mais uma façanha no país: com o tricampeonato nacional o Alvinegro conquistaria em definitivo o troféu Taça Brasil, recebendo alcunhas de Supercampeão do Brasil. Sendo a 10º conquista em 11 competições oficiais disputadas. A quinta edição do Campeonato Brasileiro (Taça Brasil de Clubes) alcançou ainda mais representativa, contando com os estados de Goiás e Brasília, passando a ter 20 estados integrados, com os respectivos campeões estaduais, os times dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro (Guanabara), por qualificação, entraram na fase Semifinal do certame.
Como vigente Bicampeão Brasileiro o Alvinegro aprumava-se para mais uma conquista. Mas nada de subestimar adversários, a grandeza nunca subiu a cabeça dos santistas que se mantinham concentrados no embarque para o Rio Grande do Sul. O oponente na fase Semifinal era uma equipe que impunha muito respeito, o melhor time do futebol gaúcho na época: vencedor Sul-Brasileiro, o Grêmio marcou época conquistando oito campeonatos estaduais nos anos de 1960. Era o atual Bicampeão 1962-63 e conquistaria ainda o Hepta-campeonato Gaúcho consecutivo. Destacavam-se vários jogadores do Imortal Tricolor, como Aírton Pavilhão, Ortunho, Joãozinho, Milton, Vieira e Paulo Lamumba.
Na noite de 16 de janeiro de 1964, ocorreu no estádio Olímpico/RS o primeiro encontro, com uma renda recorde em Porto Alegre (Cr$ 21.327.000,00) e público de 50 mil pessoas – com apenas um anel. Mesmo com jogadas perigosas para ambos os lados, como a de Paulo Lamumba do Grêmio abrindo a conta aos 6′, foi esbanjando-se de todo seu futebol artístico, velocista e ofensivo que o Santos se impôs com classe: aos 25′, recebendo de Zito dentro da área, Coutinho salta para chutar – dando um golpe na pelota – e empata; aos 37′, Pelé corta um defensor gremista, puxa para a perna esquerda e chuta forte: 2×1, virando a peleja!
Na segunda fase mais Santos: aos 20′, em troca de passes com Pelé, Coutinho se livra da marcação e toca na saída do goleiro gremista: 3 a 1! Se não bastasse o belo resultado, Pelé e Coutinho ainda proporcionaram um lindo lance de pura técnica e plástica com uma tabelinha que não resultou em gol, mas em aplausos dos gaúchos, impressionados com tanta categoria.
A partida de volta realizado no estádio do Pacaembu/SP, foi movimentada e emocionante. O Santos teve as iniciativas e começou vencendo com 6′, em gol de falta marcado por Pepe. Mas aos 14 minutos, o Grêmio com sua tradicional raça ousou reação surpreendente (Lamumba 2x e Marino) chegando a estar vencendo por 3 a 1. Até aos 33 minutos a pressão era gremista, quando Lula resolveu tirar Joel e colocar João Carlos, mudando o panorama do jogo. Antes disso, aos 30′ Pepe fez jogada pela esquerda e foi derrubado: Pelé cobrou duas vezes – devido uma invasão – para valer uma e marcou: 2×3.
Aos poucos, retomando as ações, o Santos reagiu de maneira fulminante na segunda parte. Imparável, exceto com faltas, Pelé fez de tudo e mais um pouco. Com 13′, o Rei recebeu passe de Coutinho, driblou dois defensores e mandou o couro às redes (era o empate)! Entre tantas outras jogadas individuais, Pelé chegou a passar por três zagueiro, mas foi derrubado por Aírton dentro da área: pênalti! Pelé cobrou com perfeição para a virada, 4 a 3! Faltando 4 minutos para o encerramento, Gilmar foi expulso e quem vai pro gol? Pelé! Chegando a fazer algumas defesas fáceis. Com a vitória o Santos obteve classificação e novamente enfrentaria o Bahia/BA, reeditando as finais de 1959 e 1961.
Sábado à tarde, 25 de janeiro de 1964, aniversário da cidade de São Paulo. A primeira partida ocorreu no estádio do Pacaembu/SP, sendo uma apresentação das mais emblemáticas do Alvinegro, que encurralou o adversário desde o início, mesmo com toda disposição do Bahia. Bastaram 4′ para começar as emoções, Dorval foi derrubado dentro da área, mas o juiz assinalou falta fora. Com 7′, Pelé fintou Mario e foi derrubado. Pepe cobrou rasteiro a falta, após desvio em Henrique, o balançar das redes: 1×0! Aos 26′, Mengálvio acionou Pelé dentro da área, que avançou driblando – pelo alto – Henrique, Hélio e Ivan, mas este ultimo o derrubou por trás: pênalti! Pelé cobrou e marcou: 2 a 0! Terminando assim o primeiro tempo.
A desenvoltura técnica dos santistas era de encher os olhos. O segundo tempo foi uma chuva de gols. No minuto 20, uma triangulação. Pelé observou e cruzou à Pepe, na esquerda, que foi perseguido por Hélio mas ao chegar a linha de fundo recuou atrasando para Coutinho, este chegou arrematando de primeira com definição, enquanto Henrique e Nadinho apenas observaram o couro dormir nas redes: 3×0! Aos 26′ Lima acertou belo chute e a bola explodiu no travessão. O Bahia pressionou aos 29′ e 30′, ambos com Hamilton de frente com Gilmar, que fez duas defesas incríveis. Os baianos estavam em penúria. Ficaram mais aos 39′, troca de passes entre Pelé e Coutinho, este último amorteceu a bola no peito e deu a Mengálvio, isolado, o médio avançou e arrematou preciso: 4 a 0!
Azar pouco era bobagem. Parecia feitiçaria contra os baianos. Aos 41′, Nilsinho acertou uma pedrada na trave de Gilmar, a bola voltou justo nos pés de Dorval, com um campo inteiro pra correr iniciou contra-ataque rápido, ninguém segurou o ponta-direita, chegou a entrar na área sendo faltosamente derrubado por Ivan. A penalidade, com paradinha, de Pelé foi na perfeição: 5×0! A obra-prima ficou para os 45 minutos. Pelé carregou e lançou a ponta-esquerda. Pepe recebeu e avançou, fintou Hélio, desmoralizou Ivan e venceu Henrique, e com a perna direita chutou cruzado vazando a meta de Nadinho. O Pacaembu vibrou com o massacre (6 a 0)!
Depois da vitória do Campeão Baiano (em 1959) e do Campeão Paulista (em 1961), chegava a hora do tira-teima. Lula escalou o Santos com Gylmar; Ismael (Joel Camargo), Mauro, Haroldo e Geraldino; Lima e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Enquanto o Bahia, um dos grandes clubes do Brasil na época, formou com Nadinho; Henrique, Russo (Ivan), Hélio, Roberto, Nilsinho, Miro, Vevê, Hamilton, Mário e Biriba.
Embora tenha sofrido acachapante goleada no primeiro encontro, o Bahia apenas precisava vencer o segundo duelo, para forçar o terceiro encontro pelas finais da Taça Brasil. Ao que antecede, as esperanças baianas aumentavam, com os desfalques de Calvet, Dalmo e Zito por parte do Alvinegro. Entretanto, em 28 de janeiro de 1964, numa Fonte Nova/BA completamente abarrotada com quase 40 mil pessoas, foi o Santos FC novamente superior e com certa facilidade construiu uma grande apresentação.
Com o Tricampeonato Brasileiro conquistado, o Santos F.C. foi condecorado com alcunhas de “Supercampeão Brasileiro”, recebendo também a posse definitiva do troféu Taça Brasil de Clubes. Além de maior Campeão Brasileiro/Nacional na época, tornou-se o primeiro clube Tricampeão Nacional/Brasileiro consecutivo/1961-62-63, conquistando a competição de modo invicto, com 100% de aproveitamento.

Jornal a Gazeta Esportiva edição do dia 29/01/1964
Com dois a zero sobre o Bahia, na revanche desta noite no estádio da “Fonte Nova” (superlotado), o Santos F.C. sagrou-se tricampeão da Taça “Brasil”. Foi uma vitória merecida, sob todos os aspectos, pois o Santos, sem contar o retrospecto, foi infinitamente superior ao outro finalista nas duas partidas pela taça, ou seja, a de hoje e aquela de sábado, que terminou 6 a 0 para os praianos. Hoje, mesmo levando em conta que o Bahia esteve melhor do que em São Paulo, o Santos poderia ter obtido um placar ainda mais dilatado e sem dúvidas chegaria até uma goleada se se empenhasse nesse sentido e não jogasse com tanta tranquilidade como jogou. Foi novamente muito superior, mais ainda no segundo tempo e fez por merecer, não apenas a vitória pura e simples, mas sobretudo o honroso galardão de super-campeão do Brasil.

Fontes e Referencias:
Dossiê, Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959 (Odir Cunha e José Carlos Peres);

Jornal a Gazeta Esportiva;
CBF (Confederação Brasileira de Futebol);
Jornal Folha de SP.

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