Com a fama, um Santos mais ‘Globbetrothers’ que nunca! – (1971)

Published On 30/05/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 30/05/2017

Os novos tempos traziam à tona uma nova realidade para o Santos F.C. Acabava o deslumbramento de uma época extremamente vencedora e grandiosa. Após o período de Ouro do Futebol Brasileiro e, do próprio Alvinegro, se instalava uma crise e uma fase de incertezas para 1971.
Desde a temporada passada vários eram os descontentamentos internos. Em campo o time já não convencia, o técnico Antoninho era contestado e existiam casos de indisciplina no elenco, até mesmo o presidente Athiê Jorge Cury, há 25 anos no cargo, sofreu oposição declarada com acusações graves, embora nunca comprovadas. Mas o bastante para os objetivos serem alcançados, pois, Athiê acabou perdendo as eleições para um grupo de opositores (Clayton Bittencourt e Sérgio Oréfice eram os vices) liderados pelo agora novo presidente Vasco Faé.
As primeiras mudanças não agradam. Carlos Alberto, que vinha insatisfeito e forçava saída, é negociado com o Botafogo RJ numa troca envolvendo três atletas: Moreira (lateral direito), Rogério (Ponta-direita) e Ferretti (centroavante). Desde já, algo bastante polêmico: um atleta por três é algo para se pensar!
O início da temporada começava como nos anos anteriores: as tradicionais excursões pelas Américas (Sul, Central e Norte). O time iniciou os compromissos na Bolívia, dia 13 de janeiro, enfrentando a Seleção de Cochabamba e obteve êxito em 3 a 2. Três dias depois, venceu o Bolívar por 4 a 0 com gols de Pelé (marcou duas vezes, um dos gols numa linda bicicleta), Douglas e Edu. Após empatar no Panamá (recebeu uma Taça Comemorativa de 1,5 m de altura), o Santos consegue três triunfos: 4 x 1 na Seleção de Martinica, em Martinica; 2 x 1 na Seleção Guadalupe, em Guadalupe, e 4 x 1 no SV Transvaal, em Suriname. Empata na sequência com a Seleção da Jamaica pelo Torneio local, até ter no caminho três desafios mais relevantes.
Pela decisão do Torneio Kingston, dia 03 de fevereiro, no estádio Nacional de Kingston, na Jamaica, o técnico Antoninho escalou o time com Cejas; Turcão, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Léo Oliveira e Lima; Edu, Douglas, Pelé e Abel. Do outro lado um adversário conhecido da turnê internacional passada, o Chelsea da Inglaterra (com Bonetti, Harris, Webb, Collins entre outros ídolos históricos dos “Blues”), que tinha sido campeão da Recopa Europeia vencendo o Real Madrid-ESP, campeão da Copa da Inglesa e era um dos três melhores times da Inglaterra no período.
Se esperava um duelo equilibrado, entretanto, a dinâmica do meio campo e a velocidade ofensiva do Santos, fez prevalecer a melhor qualidade brasileira. Foram constantes as ameaças santistas na primeira etapa, principalmente através de Pelé e Edu, fazendo o goleiro Peter Bonetti praticar verdadeiros milagres. O Chelsea buscava os contra-ataques, mas parava na forte recomposição dos brasileiros. Mesmo mantendo uma pressão, que perdurou no segundo tempo, o Santos não conseguia marcar e a partida parecia caminhar para o empate. Porém, aos 43 minutos, Léo lançou Edu, este correu pela ponta direita e atrasou para Douglas entrar e chutar violentamente marcando o gol definitivo. A confusão se instaurou no gramado. A torcida eufórica pelo futebol tricampeão mundial invadiu o campo para comemorar com Douglas, outros atrás de Pelé, mas foram reprimidos violentamente pelos policiais, numa enorme pancadaria, garrafas voavam para todos os lados, causando imediato o encerramento da partida. O tumulto durou cerca de 6’, sendo encerrado somente quando Pelé e Douglas ficaram frente as arquibancadas e com acenos convenceram os torcedores devolvendo a tranquilidade. Com o resultado mínimo o Santos conquistou mais um título internacional, prevalecendo ante um forte adversário londrino.
Três dias depois, o Santos estava em Bogotá para enfrentar um dos maiores da América do Sul na época. O Millonarios-COL possuía jogadores de seleção, trazia sua fama dos anos 50, mas ainda conquistaria o campeonato colombiano pela 10º vez em 1972, era absoluto maior campeão nacional e muito respeitado no continente. Na partida, mostrando valor, os colombianos abriram o placar com 5’, após pressão na área que terminou com Marçal (SFC) fazendo contra. Os santistas não se enervaram, fazendo ataques perigosos, principalmente quando Pelé estava com a bola. Futebol confirmado aos 20’, quando o Rei (de cabeça) empatou o jogo. No segundo tempo, devido a pressão brasileira imaginou-se uma coisa e ocorreu outra: o Millonarios fez 2 x1 novamente aos 5’. Pouco mais, mudança na retaguarda alvinegra: Turcão se machuca e entra Orlando. Cinco minutos depois, o Santos consegue empate num pênalti muito reclamado pelos colombianos, causando a expulsão de Muggione. Pelé, cobra no canto oposto do goleiro, e faz 2 x 2! A disputa percorreu massiva e somente aos 40’ o lance decisivo: Pelé inicia jogada e toca para Edu, que chuta violentamente, o defensor Hernandez (Millonários) tenta rebater mas marca contra, era a virada do Santos: 3 x 2!
Na sequência (07/02), enfrentando outra força colombiana, o Atlético Nacional, em Medellín, que seria campeão colombiano em 73, o Santos vence mostrando um bonito futebol por 3 a 1, gols de Edu, Pelé e Léo Oliveira. Em Cáli a equipe de Antoninho não fez uma boa apresentação, mas conseguiu encerrar a excursão com duas vitórias: em El Salvador, fez 2 a 1 no Alianza; no Haiti, aplicou 2 a 0 na Seleção Haitiana, frente a 30 mil expectadores.
A delegação Alvinegra volta para o Brasil devido a disputa do Campeonato Paulista.
Faz alguns jogos e como as dividas estavam até o pescoço, o Santos aproveita uma folguinha e segue em nova viajem, destino: França, na capital Paris.
Seria uma única partida contra o combinado dos dois principais clubes franceses: Jogadores do Olympique Marseilla e do Saint Ettiénne. A realização do evento teve proporções incalculáveis, gerando fluxos financeiros, sociais, midiáticos, etc., sendo o Santos F.C. com seu magistral camisa 10 Pelé, foram utilizados para popularizar o futebol na França. Chegando na cidade Luz, os craques santistas foram recebidos com grande festa, os jornais estampavam que “o famoso Santos F.C.” com “seus craques tricampeões mundiais e demais atletas de Seleção Brasileira (Djalma Dias, Clodoaldo, Lima, Rogério, Pelé e Edu) ”, vinham se apresentar para “um espetáculo mundial de futebol”. Antes mesmo do jogo, Pelé e Clodoaldo chegaram inclusive a desfilar com a Taça Jules Rimet num carro de luxo em praça pública sendo venerados por um aglomerado de franceses, turistas e mídia de vários cantos do mundo. Para completar aquela atmosfera, a presença deleite de Briggitte Bardot, símbolo sexual da época (as arrecadações ainda foram doadas para ajudar na busca-teste pela cura do câncer).
31 de março foi a data do jogo. A partida foi truncada, o Santos se mostrou muito cansado, e o resultado foi o empate de 0 a 0. Após a igualdade, os jogadores foram para as cobranças de pênaltis. Os cobradores santistas seriam Pelé, Lima, Rildo e Léo Oliveira. Briggitte ainda acompanhava a partida e alguns dizem que a presença da atriz francesa desconcentrou os cobradores santistas, que perderam três penalidades. Como um verdadeiro objeto diplomático, o Santos F.C. seguiria popularizando o futebol fazendo dessa etapa, mais do que nunca, sua fase Globbetrothers.
Retornando ao Brasil, tendo pela frente um torneio na Bahia, o Santos não obtém bons resultados e Antoninho, que já vinha sendo cobrado, acaba demitido. Em seu lugar foi contratado o ex-zagueiro Mauro Ramos de Oliveira, que vinha de um bom trabalho no Coritiba/PR. Mais alguns jogos no Paulista e aproveitando outra brecha nos compromissos, o Santos vai até a Bolívia. Entre os dias 23 e 26 de maio, derrota o Oriente Petroleiro (4 x 3) e o The Strongest (2 x 0) respectivamente.
A cada parada no Campeonato Paulista, o Santos partiu mundo afora propagando-se como uma grande atração global. Todos queriam testemunhar o famoso Santos F.C. Os estádios estavam sempre lotados e o fanatismo tomava conta das pessoas pelo futebol. Mas todos aqueles compromissos deixavam a equipe exausta. Pelo Campeonato Paulista o Santos termina numa frustrante terceira colocação. Logo em seguida, com as constantes cobranças e episódios catastróficos fora de campo, rumou para a América do Norte, no Canadá, tendo pela frente três desafios contra o Bologna, da Itália, atual campeão da Copa Itália e terceiro colocado no Italiano.
Na primeira partida, na noite do dia 23 de junho, pouca intensidade entre as equipes e um público contido (cerca de 24 mil pessoas, dentre as quais estava o primeiro ministro canadense Pierre Trudeau), no estádio Varsity, em Toronto. Apesar da pouca entrega dos oponentes, o Santos foi mais coeso e ditou leve superioridade. Enquanto o Bologna tentava, mas pouco produzia. Assim, o ‘Time de Branco’ foi conduzindo, e abriu o placar com 32 minutos, através de Orlando. Na fase complementar, novamente as ações foram maiores por parte do Santos e depois de uma jogada de velocidade e técnica aos 5’ feita por Pelé, aumentou a vantagem: 2 x 0! O Bologna ainda conseguiu diminuir perto do fim, aos 39’, com Savoldi, mas em nenhum momento deu sinais de conseguir buscar empatar e a vitória santista se manteve.  A baixa atuação se manteve quatro dias depois, quando as equipes voltaram a campo e produziram um empate de 1 a 1. Uma terceira e definitiva partida ainda seria realizada (dia 30/06).
A expectativa colocada para este duelo seria finalmente retribuída. Em Montreal, público recorde para o pequeno estádio canadense (cerca de 20 mil expectadores), ocorreu o match mais proveitoso por parte das equipes em “série de três”. Mas nem tudo foi como esperado: a partida começou com 30 minutos de atraso. O motivo? Incidentes nos portões e bilheterias do estádio, vários torcedores ficaram de fora, enorme comoção e desespero dos envolvidos. Um jornal local afirmou que “a todo custo queriam ver o time mais famoso do mundo, do maior jogador de todos os tempos, mas faltou ingresso”. Em outra analise dizia: “o Santos, Pelé, os brasileiros que fazem da bola um espetáculo, segue com sua turnê deixando todos num fanatismo que chega a ser espantoso”.
Dentro de campo ocorreu uma compostura técnica que deixava todos maravilhados. Ataques e contra-ataques. O Santos imprimi mais velocidade, mais drible, mais arremates. O Bologna é aprumado na defesa, gera mais físico, ganha as divididas, tem mais perigo. Mas nada de gols. Assim, só mesmo um gênio poderia destoar: Pelé! Aos 15 minutos, o camisa 10 veio de antes do meio campo, lentamente, os defensores italianos ficaram na espreita. Pelé utiliza da velocidade e passa por três, a uma distância de 20 metros, faz que vai chutar no canto esquerdo, um novo zagueiro se apresenta, mas ele engana chutando no canto direito indefensável para o arqueiro, é o gol do jogo: 1 x 0! Golaço seguido de aplausos! Sucedeu a disputa eletrizante, correspondente estava o segundo tempo, mas o placar não mudou e o Santos venceu, encerrou a partida com mais aplausos e recebeu de uma descrita: “Ainda um grande time e podemos esperar mais (…). Carrega sua fama mundo a fora com futebol audacioso. Pelé é Rei. Nada mais, basta”.
Retornando ao Brasil, finalmente, os atletas descansam.
No dia 18 de julho, no Maracanã, Pelé se despede da Seleção Brasileira em partida de 2 x 2 com a Iugoslávia, ao qual o camisa 10 joga apenas o 1º tempo. O coro de “fica, Pelé” dos torcedores, reconhecendo o que representou Pelé, não só para a seleção, mas para a nação, levaria o camisa 10 a chorar copiosamente em campo.
Menos de uma semana depois, o Santos parte para a América Central. Joga no México (1 x 1 com o Monterrey), local de endeusamento dos brasileiros que são tratados como ídolos. Depois compromissa pelo Norte das Américas, no Canadá e nos Estados Unidos: 2 x 1 no Jalisco-MÉX (28/07), 3 x 1 no Hannover-ALE (30/07), empata 2 x 2 com o Deportivo Cali-COL (02/08) e goleia por 5 x 1 o AS Chicago-EUA (04/08). Nesse ínterim, o Alvinegro apresenta reforços: Mazinho, centroavante vindo do Paulista (em substituição a Ferretti), e Dicá, meia armador de muita habilidade, vindo da Ponte Preta.
Nas últimas apresentações internacionais da temporada, jogando na Venezuela, o Santos deixava uma bela impressão aos latinos, em jogo que repercutiu amplamente aos críticos estrangeiros lá presentes (italianos, mexicanos, franceses e argentinos). O Alvinegro de figuras mundiais como Pelé e Edu, enfrentou o então Bicampeão Argentino (1969-70), o Boca Juniors de Melendez, Marzolini, Rubén Suñe, Madurga e outros craques de seleção argentina, fomentando um poderoso esquadrão – para muitos ‘bosteros’ o melhor da história ‘Azul y Oro’.
A ocorrência foi dia 25 de agosto, no estádio Universitário de Caracas, em celebração dos 45 anos de fundação da Federação Venezuelana de Futebol. Entretanto, pouco se podia chamar de amistoso ou jogo de celebração: para ambos os lados a vitória seria autoafirmação de capacidade futebolística. A partida trazia ingredientes importantes. Alguns jornais argentinos, antes do duelo, afirmavam que “vencer o Santos é vencer uma parte da Seleção Brasileira”. Deixando claro, porém, que para eles “o Santos já não mais possui da capacidade de antes”, “já não assustava mais ninguém” e “existe uma certeza de vitória para o confronto, provando assim, o melhor time sul-americano”. Se motivados por isso ou não, os santistas foram “mordidos” para a partida e depois de pressionar bastante, sufocando o adversário na defesa, aos 14 minutos, Nenê abriu o placar completando boa jogada do driblador Edu. A resposta argentina até foi dada, Madurga e Suñe buscaram o empate em lances perigoso, mas o Santos suportou a reação e terminou a primeira fase em vantagem.
Renovados e perspicazes, os santistas voltam ainda mais relutantes no segundo tempo. O Boca Juniors se coloca completamente retraído. De tanto martelar, aos 27’, Pelé tabela com Lairton, recebe em boa condição e arremata para marcar o segundo tento! Dois minutos depois, Edu consegue driblar Marzolini na ponta invertida, lança Lairton, livre, que assinala: 3 x 0! Na decorrência, o Santos mantém as principais ações, o Boca buscava sempre um contra-ataque, seus jogadores mostravam nervosismo e apelavam com certa violência. O Alvinegro não chega a ser brilhante, todavia deixa os argentinos no olé, no passeio, retraídos e fazendo engolir as blasfêmias de antes da partida, final: SFC 3 x 0 CA Boca Juniors!
Das manchetes, inclusive da Europa, seguiram os elogios com afirmações seguintes: “o moderno futebol do Brasil impôs-se mais uma vez no arcaico jogo argentino! ”. O jornal El Universal ressalta: “o Santos e o Rei Pelé estiveram formidáveis diante de um Boca Juniors que continua jogando como há quinze anos atrás”. Já o El Nacional frisava que “o Santos ofereceu uma convincente demonstração de futebol”.  A partida foi tão proveitosa, que motivava uma proposta da nova gestão. O vice-presidente santista Clayton Bittencourt afirmava satisfeito com as apresentações santista, principalmente diante do Boca. Segundo ele, o Santos está chegando aonde a diretoria queria: “ter dois times da mesma força e condições técnicas, realizando um velho sonho do clube, de formar duas equipes, uma para disputar compromissos nacionais, e outra, para partidas no exterior”.

Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornais Folha de SP e Estado.

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