Consolidação entre os maiores do mundo – (1961)

Published On 27/01/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 27/01/2017

O Santos FC é o clube mais genuinamente brasileiro. Em 1961, isto passou à tornasse inquestionável. As sublimações das maiores virtudes do futebol brasileiro foram caracterizadas no Alvinegro de Vila Belmiro, o mais autêntico Futebol Arte, a mais perfeita estética, um estágio inigualável…
Definitivamente arte e futebol tornaram-se um só. Em berços artísticos do século XX (Itália, França, Alemanha, Grécia, etc.) o Alvinegro personificou obras monumentais em campos de futebol, refletidas na camisa imaculadamente branca, que estampa o símbolo daquele que seria o maior time da terra, Santos Futebol Clube.
O mundo se rendia ao futebol ofensivo e artístico, para a maior parte da imprensa mundial o Santos FC já era o melhor time do mundo mesmo antes de conquistar o Mundial Interclubes, algo que ocorreria um ano depois.

Pelé e Athiê Jorge Cury, nas comemorações no México, a frente o troféu do Pentagonal.

A trajetória surpreendente de 1961 começou nas Américas (Sul, Central e Norte, nesta ordem), estreando dia 14 de janeiro, quando o Santos foi ao Chile, em Santiago, enfrentar o atual e maior Campeão Chileno, o Colo Colo, e construiu placar de 3 a 1, com gols de Pelé (2) e Dorval. Quatro dias depois o time santista partiu para a Colômbia, para enfrentar a Seleção Colombiana, em Cali, e com gols de Pelé obteve seu segundo triunfo, por 2 a 1 – a equipe venceria ainda outras duas seleções, de Guatemala (4 a 1) e Israel (3 a 1).
Entre 22 e 25 de janeiro, o Alvinegro conquistou o Triangular da Costa Rica, com vitórias sobre o Herediano em 3 a 1, e diante do campeão nacional Saprissa, num dilatado 7 a 3.  Quando venceu o Pentagonal de Guadalajara, num roteiro de 19 a 26 de fevereiro, o Santos superou o tricampeão mexicano Chivas, em 6 a 2, o América do México, também num 6 a 2, o Atlas por 2 a 0, empatando com o América-RJ, campeão carioca, por 3 a 3, para assegurar a conquista, disputada em pontos somados.
Das Américas o Santos seguia trajeto para a Europa, onde ocorreriam os resultados de maior expressão, dos quais a crítica internacional foi seduzida a condicionar o Santos FC como o “Melhor Time do Mundo”. Como primeiro adversário, dia 16 de maio, o Bayern München, na Alemanha, num estádio de Munique com 50 mil pessoas. As pessoas desta cidade já tinham conhecimento dos santistas, pois contra o outro time local o SFC foi declarado a melhor equipe a passar neste lugar. O Bayern não era o gigante que conhecemos hoje, mas a geração que enfrentou o Santos, formada por Kupferschimidt, Borutta, Werner e Grosser, além do zagueiro Giesemann, que jogou a Copa de 62, e o atacante Milutinovic, um dos mais talentosos da Iugoslávia, era forte e foi responsável por alavancar os Bávaros aos títulos nacionais no final da década. A equipe terminaria o ano na terceira colocação do Alemão. E a partida foi complicada, com o Santos triunfando apertado por 3 a 2 sobre o Bayern, com gols de Pepe, Coutinho e Sormani.
Quando esteve na Bélgica, dois dias após deixar a Alemanha, o Santos fez uma peleja de muitos gols com um dos semifinalistas da Copa de Campeões da Europa: 4 a 4 com o Standard Liége, em Liége. Depois chegou a Suíça, abatendo impiedosamente o Basel por 8 a 2! Coutinho fez cinco gols e Pelé três, ambos foram descritos em superlativos. E o Santos seguia passeando com goleadas: 6 a 3 no Wolfsburg-ALE, 6 a 1 no Racing-FRA, 6 a 2 no Lyon-FRA, entre outras. Antecedendo a disputa da competição em Paris, iniciada em 13 de maio.
Já na França, após vencer o Racing, vice-campeão francês, por 5 a 4, o Santos classificou-se para a decisão do prestigiado Torneio de Paris. Entre outras coisas, os franceses ficaram abismados com a força do chute do ponta-esquerda Pepe, um dos destaques do evento. Diante do Racing, Pepe fez dois gols, num deles acertou de falta a longa distância um arremate poderoso deixando boquiaberto o público. Depois disso, sempre que havia um tiro direto contra a meta francesa, a torcida pedia, em coro: ‘Pepê! Pepê! Além dele, Pelé, Dorval e Coutinho também marcaram.
A finalíssima do Torneio de Paris de 1961, ocorreu dia 15 de junho, num confronto entre o campeão da Copa dos Campeões da Europa, e o time que, mesmo sem a coroa, era apontado por muitos críticos como o melhor da América do Sul. O jornal L’Equipe, da França, idealizador da Liga dos Campeões, definiu o jogo como uma “decisão extra-oficial do Mundial de Clubes”. O Santos FC formou com Laércio; Mauro e Décio Brito; Getúlio, Brandão e Lima; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. O Benfica, treinado por Bella Guttmann, veio a campo com seus principais craques: Barroca; João, Angelo (Mendes) e Germano; Neto e Cruz; José Augusto, Santana (Eusébio), Águas, Coluna e Cavem.
 A belíssima Paris, de France, reuniu toda a atenção da imprensa mundial, comoveu ainda um vasto público neutro e entusiasmado para uma grande festa do futebol. Além de ser um dos torneios mais prestigiados da Europa, a partida não era um mero amistoso no Parc de Princes, tratava-se de um duelo para medir quem era o melhor time do mundo.
Sob estupefato da plateia estrangeira, na primeira etapa o Santos foi arrasador e fez 4 a 0! Com 16 minutos, recebendo passe rápido de Coutinho, Lima atirou coeso para abrir o placar. Aos 24’, um escanteio cobrado por Dorval para Pelé numa cabeçada perfeita ampliar, 2×0! Num ataque armado por Pelé, bola alçada na área, Coutinho aparece entre os zagueiros e de cabeça faz 3×0, aos 28’. Distância aproximada de 30 metros, aos 35 minutos, a torcida gritou por quem? “Pepê! Pepê! Pepe, o canhão da Vila, atendeu, e arrematou com impressionante violência quase do meio campo, o goleiro Barroca nada pode fazer, a bola estufou as redes portuguesas, 4×0! Nos primeiros instantes da segunda etapa, Pelé lançou Pepe para novamente arrematar potente e assinalar, 5×0! Até ali podia se observar como uma equipe deixava outro na lona, sem qualquer reação.
O panorama do jogo só mudou quando o técnico Bella Guttmam resolveu colocar Eusébio. Foi quando o Benfica passou a dominar as ações do duelo. O jovem e desconhecido Eusébio, era uma joia moçambicana lapidada que se tornaria o maior jogador da história de Portugal. A pantera negra, como ficaria conhecido, anotou em três oportunidades num período de dezesseis minutos. A reação do campeão europeu fez a assistência presente no estádio se impressionar com o nível da partida realizada e ter a certeza que estavam diante de um espetáculo memorável. Todavia, o Santos conseguiu reconduzir o controle do jogo, e com uma bela trama de Pelé, que fintou dois marcadores portugueses, finalizando com precisão no canto, aos 43 minutos, decretou a vitória Alvinegra por 6 a 3! Na Europa todos tinham a certeza que um espetáculo incomensurável havia ocorrido. E o Santos confirmava: Era mesmo!
LA MEILLEURE ÉQUIPO DU MONDE”! (L’Equipe).
O reconhecido jornal esportivo francês L’Equipe, descreveu: “A impressão dominante foi a implacável superioridade brasileira. O público compreendeu, ontem, ao assistir essa final extraoficial entre a melhor equipe sul-americana e o Campeão da Europa, qual o título de campeão mundial de clubes conquistado há um ano pelo Real Madrid será difícil de conservar”.
Nem deu tempo para comemorar a façanha diante do SL Benfica-POR, três dias depois os santistas já estavam iniciando a disputa do lustroso Torneio Itália, que reunia as mais poderosas equipes daquele país e o River Plate da Argentina. É notório que a Itália sempre foi uma potência no futebol por contar com alguns dos maiores times do mundo. Corrobore, para um time ser julgado de melhor do mundo, é imprescindível encantar num país como este, tão tradicional no “calcio”.
No dia 18 de junho, em pleno estádio Comunalle de Turim, abarrotado por mais de 60 mil espectadores italianos, o Santos iniciou compromissos enfrentando logo a principal equipe do país e uma das maiores equipes da Europa. Atual Campeã da Copa da Itália (1960), Bicampeã do Campeonato Italiano (1960-1961) e maior campeã historicamente (naquele momento dona de 12 italianos), a poderosa Juventus, de Turim, era um dos maiores esquadrões do planeta.  A Vecchia Signora esnobava sua formação campeã com craques históricos, como John Charles e, sobretudo, Omar Sívori (artilheiro do calcio e bollon d’oro de 61). Além de Vavassori; Cervatto e Sarti; Leonini, Emoli e Colombo; Móra, Nicolé e Stacchini. Com arbitragem do italiano Companatti.
 Sob pressão e cantos frenéticos da torcida da Juventus, uma das mais fanáticas da Europa, a partida foi iniciada. A equipe santista (Laércio; Mauro e Décio Brito; Getúlio, Lima, e Dalmo; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.), contudo, sabia se expor e jogar contra adversidades. Adversário forte, estádio desconhecido e torcida fanática contra, era justamente a combinação propicia: o Santos demonstrou quebrando diversas hierarquias na Europa.
E nesta partida o entusiasmo inicial italiano foi se degradando a medida ao qual o Santos desenvolvia seus adjetivos mais nobres. A primeira etapa até acabou sem gols apesar de um ritmo acelerado. Na etapa complementar, porém, depois de algumas tentativas, aos 25 minutos, Pelé arrematou com classe de fora da área e o goleiro Vavassori não alcançou, a bola entrou rente ao travessão, um golaço balançando as redes italianas, 1×0! Naquele momento os “bianconeros” cessaram. Na recomposição e na armação frontal, as equipes tinham um conjunto técnico, a partida foi bem jogada com muitos lances de perigo, principalmente do Time de Branco, que dominou o Bicampeão Italiano. A Juventus desdobrou-se na defesa para não sofrer uma goleada. E para vencer o jogo, o Santos teve de se valer da individualidade, e era incrível como o time tinha cartas na maga, conduzindo fosse qualquer partida da forma que desejava. Foi assim que, aos 42 minutos, Dorval atravessou o campo em velocidade vencendo a zaga italiana pelo lado direito e na entrada da área, chutou forte, cruzado, no canto contrário do goleiro, estabelecendo o 2 a 0 definitivo.
Na sequência foi a vez dos santistas enfrentarem a AS Roma, dotada de craques, dos quais dois famosos uruguaios, num duelo que empolgo toda a Itália (segundo nota da Gazeta Esportiva). Lala, goleiro santista, que entrou no segundo tempo dessa partida substituindo Laércio, recorda bem do clima pesado que antecedeu o jogo: “Na Roma jogavam os uruguaios Schiaffino e Ghiggia, os dois que marcaram contra o Brasil na final de 50. No túnel, antes de entrar em campo, enquanto as equipes estavam perfiladas uma do lado da outra, o Ghiggia (ou foi Schiaffino) nos mostrava dois dedos em uma mão e um na outra, para que a gente lembrasse dos 2 a 1 do Maracanã. Mas o Santos fez uma partida maravilhosa e decidimos o jogo no primeiro tempo. No segundo, a gente ia até a área deles e voltava sem perder a bola”.
A resposta dos brasileiros aos uruguaios da esquadra Gialloross foi realmente dada em campo. Cem mil romanos viram o Santos golear e bailar! Bastaram 4 minutos, para Mengálvio, em jogada individual, deferir 1×0! Com 21’, Pelé ampliou, recebendo passe de Pepe. Cinco minutos depois, Dorval driblando quatro jogadores e batendo da entrada da área assinalou bonito, 3×0! Antes de encerrar a primeira fase, Pelé passou pelo marcador e chutou firme na saída do goleiro Panetti, marcando o quarto gol. Com 17 minutos da segunda etapa, o médio-centro Zito, que entrou no lugar de Mengálvio, fez jogada pessoal para aumentar a goleada, 5 a 0! Pela Roma, tanto Schiaffino quanto Gighia nada puderam fazer, o Santos foi uma locomotiva imparável.
Aquele desempenho fantástico do time foi noticiado com autentica veneração. No Correio Dello Sport (por Antonio Ghirelli): “o primeiro tempo da peleja vitoriosa do Santos permanecera por muito tempo em nossas recordações, como uma concentração admirável da arte individual, de harmonia coletiva e de esforço atlético. O futebol brasileiro chegou aos cumes da perfeição, porque assimilou os esquemas utilitários do futebol europeu, sublimando com a técnica e a dinâmica de suas tradições”. Com a concordância do Giornale d’Itália (Maurizio Brarendson): “estamos no limite do melhor futebol mundial, do que mais eficazmente sintetiza e põe novamente em pratica inúmeras experiências teóricas do jogo. (…) a característica principal do futebol brasileiro é a mudança de velocidade, característica individual, de talento e de tradição (…)”.
Na decisão diante da Internazionale (composta de Da Pozzo ou Bandoni; Guarnieri e Masiero; Picchi, Bolchi e Balleri; Bicicli, Lindskog, Hitchens, Suarez e Corso), um público de 110 mil pessoas superlotou o estádio San Siro, em Milão. O Santos foi a campo com Laércio; Mauro e Décio Brito; Getúlio, Lima e Dalmo; Dorval, Mengálvio (Zito), Coutinho, Pelé e Pepe. Foram apenas 8 minutos de bola rolando para Pepe balançar as redes e colocar o Santos em vantagem, acertando o seu tradicional canhão na cobrança de falta. Bolchi empatou para a Inter aos 25 minutos, mas Coutinho desempatou dez minutos depois, aproveitando passe de Pelé. Na etapa complementar, outra vez o canhão da perna esquerda de Pepe, de falta, ampliou para 3 a 1, aos 18 minutos. Para completar, Pelé marcou o quarto, aos 42 minutos, depois de driblar dois zagueiros. Foi uma apresentação perfeita, ditou-se a catedral do futebol, a exibição dos santistas seduziu por completo a imprensa italiana.
A Gazzetta Dello Sport deu a seguinte manchete: “O Santos de hoje é como o Real Madrid de dois anos atrás e, naturalmente, Pelé está indicado como o número um dos brasileiros – um ‘primus inter pares’, pois seus companheiros são todos autênticos campeões”. Já o Correio Dello Sport, sob o título ‘O Grande Espetáculo, de Marca Mundial’, afirmava: “O Santos desta vez superou a si mesmo, pois já tínhamos conhecimento de suas possibilidades ofensivas, ontem à noite, conhecemos também a sua retaguarda, a qual podemos denominar ‘o mais perfeito ferrolho do mundo’, insuperável.” Tudo isso, antes do Mundial, conquistado no ano seguinte.
Após os sucessos na Itália e na França, o time do Santos FC tomou fama por todo o planeta de forma exacerbada, passando a ser alcunhados de “Reis do Futebol”.
Ainda pelo Velho Mundo, após vencer mais um time germânico num extravagante 8 a 6 na Alemanha, o Time de Branco, embora esgotado pelo cansaço, ainda fez rota na Grécia – berço da cultura ocidental –, vencendo o campeão grego Panathinaikos (time de todos os atenienses) por 3 a 2; e o AEK (clube histórico que vai além do futebol, representa valores humanos e uma cultura) num 3 a 0. Acabou, porém, perdendo para o Olympiakos, feito tão grandioso para eles que significou colocar tal vitória no hino do clube. Superar o Santos num duelo assim, era mesmo um feito histórico para qualquer clube. Após jornada épica na Grécia, o Santos retorna ao Brasil para ser Bicampeão Paulista/60-61 e Campeão Brasileiro (Taça Brasil).
Em meio as disputas das competições no Brasil, após deixar a Europa com Taças Insignes e um prestigio que o levou as alturas, além do financeiro pesado na bagagem, os santistas tiveram disposição para retornar a América do Sul e fazer quatro jogos, onde persistiu obtendo vitórias de expressão global. Primeiro, dia 28 de agosto, na Argentina, para enfrentar o Racing, campeão nacional, e logrou sensacional triunfo de virada (4 a 2) com gols de Pelé (2), Bé e Dorval. Empatou com outro time argentino e encerrou a brilhante campanha com mais duas vitórias diante do maior time do Chile, o Colo Colo, em matches de 3 a 1 e 3 a 2.
Dos 38 jogos internacionais que disputou em 1961, todos em campo adversário, o Santos venceu 26, empatou sete e perdeu apenas cinco. Obtendo um aproveitamento de 77, 63% com média de 3, 61 gols por jogo.

Fontes/Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC;
Jornal “A Gazeta Esportiva”;

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