“Ensinando” futebol aos professores!

Published On 09/02/2017 | Feitos Históricos, Jogos Históricos
Por Kadw Gomes
Santos, em 09/02/2017

A primeira partida internacional realizada pelo Santos F.C. após o regime amador, ocorreu no ano de 1936. Então campeão do futebol paulista e possuidor de um dos melhores conjuntos do Brasil, pretendo firmar uma equipe coesa para o bicampeonato estadual, o Alvinegro de Vila Belmiro teve pela frente um adversário respeitado, repercutido e reconhecido como um dos melhores times da história do futebol portenho, eram Los Professores da Argentina.
A dita cátedra do Estudiantes de La Plata, da Argentina, já era famosa de temporadas passadas, refletia sobretudo um bonito estilo de futebol, muito refinado, de toques rápidos, e elevada força num ataque avassalador, conhecido por inúmeras goleadas no período (somente na temporada 35, pelo campeonato argentino: 9×1 no Lanús, 4×1 no Huracán, 5×1 no Tigres, 5×1 no Talleres, 5×0 no Ferril Carril, 4×0 no Quilmes, 5×2 no Racing, além de êxito ante o Independiente e River, ambos em 2×0). Da equipe de La Plata, base da Argentina na Copa América de 35 e de selecionados no Mundial de 34, se destacavam o ferrenho defensor Rodriguez, o centromédio de muita técnica Roberto Sbarra, seu irmão Raul Sbarra que era médio campista, o expoente lendário e capitão Manuel Ferreira – um dos maiores ídolos do clube –, o ponta direita velocista de cruzamentos precisos Lauri e o centroavante artilheiro Fuertes, todos estes vestiram a camisola da seleção Argentina. A equipe do Estudiantes, firmada desde o começo dos anos 30 ao qual obteve seu auge, inclusive com grandes resultados até na Europa, seria um exemplo constante de desenvolvimento, de um futebol bem jogado para inúmeras gerações do país.
Mas, sejamos justos e claros, não menos poderoso era o quadro santista, aquele mesmo que terminou o ano anterior como o Campeão Paulistabatendo na campanha rivais como o Palmeiras de Romeu (1 a 0), e o Corinthians de Brandão (2 a 0) no duelo decisivo, em pleno parque São Jorge. Aliás, as equipes se assemelhavam pelo ingrediente técnico, a perfeita harmônio no conjunto – todavia, tinha o esquadrão argentino melhores individualidades. Muita segurança e solides passava o Trio Final santista CyroNevesAgostinho. A Linha Média FerreiraMartelettiJango era elogiável tanto pela técnica como na capacidade de recomposição. Do Ataque Santista formado por Sacy, Mario Pereira, Araken, Raul e Junqueirinha, podia se esperar movimentação, boas trocas de passes e muitos gols. Naquela temporada, por exemplo, a linha avante alvinegra acabou fazendo mais de 100 gols!
Ocorrente de muita polemica, antecedendo a peleja, foram os rumores de que o atacante Waldemar de Brito iria atuar na partida e como jogador santista – algo que de fato não ocorreu. Certamente tudo não passou de boato para levar mais público ao estádio. Na época, Waldemar passava férias em São Paulo e era jogador do San Lorenzo, sendo pego de surpresa com as notícias. Mas o que se sabe, é que a diretoria do Santos nega veementemente ter usado de má fé ou propago tal notícia na contramão dos fatos. Teve a pugna, porém, um enorme interesse social.
Todo o público esportivo citadino, a imprensa santista e a interessada mídia paulistana, estavam acesos de entusiasmo para este confronto internacional. Várias conjecturas antes do prélio, todas eram louváveis. Era um match de alto gabarito, o campeão paulista iria enfrentar um afamado adversário da América Platina. Auspicioso era o momento, pois o Santos tinha tradição e era conhecido por armar-se perfeitamente, liquidando grandes oponentes estrangeiros, agora mais uma vez teria de provar sua força, afinal o Estudiantes de La Plata angariava os mais altos elogios na América do Sul. Seus jogadores eram figuras do selecionado Argentino e o seu futebol era ao mesmo tempo perigoso e perfeccionista. Dizia a liminar que “a turma argentina vem precedida de grande fama. O Estudiantes representa um dos grandes da Plata. Obtiveram colocações deveras destacadas em todos os campeonatos argentinos, figurando entre os grêmios classificados nos primeiros postos do certame portenho.
Com duas equipes poderosas ofensivamente, era esperado uma peleja de muitos tentos…
Na noite do dia 30 de janeiro, um grande público compareceu a Vila Belmiro para o confronto superlativo e “apreensivo” entre os belíssimos quadros, numa luta de pura técnica entre brasileiros e argentinos. O Santos do técnico Bilú, formou com Cyro, Neves (Meira) e Agostinho; Ferreira, Marteletti e Jango; Sacy, Mario Pereira (Biruta), Raul, Araken e Junqueira (Victor Gonçalves). Enquanto o Estudiantes com seis elementos da seleção Argentina, dispunha de Fazioli; Comasi e Rodriguez; Buchitti, Roberto Sbarra e Raul Sbarra; Lauri, Savio, Ferreira, Fuertes (Zorangae) e De la Vila.

O zagueiro Neves foi quem abriu o placar para o Santos.

A partida traduziu rivalidade e ao ser iniciada mostrou ser conduzida pelos toques rápidos das duas equipes, fazendo um espetáculo agradável. Atuante, disposto e provendo de seus domínios, a equipe Alvinegra buscou a vantagem, conduziu bonitas jogadas e uma pressão constante, Araken e Mario Pereira, por vezes Raul ou Junqueira, fazendo o trio final argentino – Fazioli, Comasi e Rodriguez – trabalhar. Na base da tentativa, do comprometimento, conseguindo fazer o adversário errar, cometer infração, abrindo a contagem num pênalti cobrado com categoria pelo defensor Neves. Com mais tempo jogados, o SFC ratifica ainda mais suas lides de maior domínio, nutria o campeão de SP um futebol virtuoso, fazendo o segundo tento num arremate forte de Raul. Porém, o placar favorável rapidamente construído foi que fez o time tirar o pé, relaxando na vantagem.
Esqueceu que do outro lado tinham os rivais argentinos, que se tratava de uma equipe aprimorada. Assim, Los professores reagiram, Lauri, Ferreira e Fuertes (autor dos três gols), “endemoninhados” na troca veloz de passes e entradas ofensivas, em reação surpreendente, viraram para 3 a 2. “Perfeitos no controle de bola, sabendo como para-la, executando chutes de admirável precisão. Os avantes primam pelo oportunismo com que chutam a meta, sendo estes tiros dados de maneira magistral. Possuem de facto, um ‘onze’ bastante forte, cujo rendimento em conjunto é o melhor possível. Existe perfeita harmonia na turma. Boa ligação entre a defesa e o ataque, dando a retaguarda o devido apoio à linha atacante. É uma ofensiva terrível, capaz de tontear a mais solida defesa, tal o entendimento que há entre os integrantes” era a nota esportiva.

O centroavante Raul Cabral foi o nome do jogo. Assinalou dois tentos que levaram o Santos ao feito máximo.

Se reconduzindo, fazendo um jogo mais pensado e sério, foi a vez do Santos reagir. O campeão paulista foi para cima do rival e com Raul empatou, após jogada trabalhada. Pouco tempo depois, em sobra ofensiva Sacy fez o 4º gol, terminando assim o 1º tempo. No complementar o Alvinegro não mais largou sua vantagem, ficou um jogo trabalhado no meio campo até o fim da partida. “Espetáculo de futebol” descrevia os jornais.
Feito Internacional (30/01/1936).
Santos 4 x 3 Estudiantes-ARG

Gols: Neves, Raul [2] e Sacy – Fuertes [3]
Local: Estádio Vila Belmiro, em Santos
Competição: Amistoso
Árbitro: Heitor Marcelino Domingues
SFC: Cyro; Neves (Meira) e Agostinho; Ferreira, Marteletti e Jango; Sacy, Mário Pereira (Biruta), Raul, Araken e Junqueira (Victor Gonçalves). Técnico: Bilu
CELP: Fazioli; Comasi e Rodriguez; Buchitti, Roberto Sbarra e Raul Sbarra; Lauri, Savio, Ferreira, Fuertes (Zorangae) e De La Vila

One Response to “Ensinando” futebol aos professores!

  1. Web Hosting says:

    O recorde de um jogador que fez mais gols contra uma mesma equipe no Brasil pertence a Pele, quando jogava no Santos.

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