Era proibido ser campeão!

Published On 27/11/2014 | Histórias, Memória Santista
Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da capital armavam esquemas fora do campo (Araken Patusca).
O fato de ter sido o primeiro time fora da capital convidado a disputar o Campeonato Paulista nunca significou que o Santos também tivesse sido convidado a vencê-lo. Ao contrário. Longe do centro geográfico das decisões políticas – principalmente naquele tempo em que o único meio de transporte entre as duas cidades era a preguiçosa Maria fumaça –, o time, se não chegava a ser sistematicamente prejudicado, sempre encontrava inúmeras barreiras, algumas insuperáveis, para chegar ao título.
“Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da Capital armavam esquemas fora do campo”, disse Araken, já veterano, muitos anos depois.
1918 (2)A primeira vez que o Santos esteve perto de um título estadual foi em 1918. Na penúltima partida derrotou o líder, Paulistano, por 1 a 0, num jogo memorável, analisado assim pelo colunista do jornal O Estado de São Paulo: “Foi uma luta belíssima, presenciada pro uma multidão enorme e selecta, que acompanhou com intenso enthusiasmo todo o decorrer da peleja, que esteve brilhantíssima sob todos os aspectos. Foi, indiscutivelmente, um dos melhores, senão o melhor match de campeonato até esta data jogado”.
Só 15 dias depois, em 6 de outubro, o Santos enfrentou a Associação Athlética das Palmeiras, na Vila Belmiro. Vencendo, provocaria uma decisão com o paulistano. Mas perdeu por 1 a 0, com jogadores expulsos e muita confusão. Vejamos o que O Estado publicou sobre a atuação do árbitro Francisco Pellegrini: “O sr. Pellegrini, o célebre sr. Pellegrini, foi de uma infelicidade a toda prova, sendo mesmo agredido pelo povo”.
Depois de alguns anos em que colecionou mais derrotas do que vitórias no Campeonato Paulista, o Santos se aprumou em 1925 – já com o ataque que em 1927 faria 100 gols – e terminou em terceiro lugar, com sete pontos perdidos, apesar três a mais do que o campeão, a Associação Atlética São Bento (time da capital onde despontava o artilheiro Feitiço, que dois anos depois iria para a Vila Belmiro).
Em 1925 o Santos conseguiu triunfos marcantes e já poderia ter sido o campeão. Derrotou o Corinthians (1 a 0), a campeã Associação Atlética São Paulo (3 a 1) e empatou com o Paulistano (1 a 1) na Vila Belmiro. Ganhou do Ipiranga (3 a 2) e do Internacional (2 a 0) em São Paulo. Mesmo perdendo para o Palestra Itália, por 3 a 0, na Vila Belmiro, teria ficado com a taça se não perdesse para a Portuguesa, também na Vila, por 3 a 1. Na última rodada, já desmotivado, mesmo jogando em casa perdeu para o lanterninha Auto Sport (2 a 1) e perdeu ao menos a chance de garantir o vice-campeonato.
Havia, entretanto, a esperança de que o Santos, um pouco mais maduro, brigasse mais solidamente pelo título em 1926, quando o campeonato teria apenas um turno, com oito jogos para cada equipe. Na estréia, a expectativa parecia se confirmar, pois o time foi a São Paulo e bateu o Internacional por 4 a 2.
No segundo jogo, porém, erros grosseiros e suspeitos da arbitragem foram decisivos para que a equipe fosse derrotada pela Portuguesa por 2 a 1, em São Paulo. Indignado com a atuação do árbitro Cayuba Reis, o clube recorreu ao Conselho Superior da Apea através de Urbano Caldeira.
O Santos alegava que o sr. Reis validara os dois gols da Portuguesa em impedimento e anulara dois gols santistas perfeitamente normais. Provar isso sem videoteipe não deve ter sido fácil, mas o desempenho do árbitro foi tão parcial que o Conselho não só deu razão ao Santos, como excluiu Cayuba Reis do quadro de juízes da Apea. O resultado do jogo, entretanto, não foi alterado, e o Santos continuou com dois pontos perdidos.
Para se compreender a estrutura do futebol naqueles tempos de amadorismo, basta se ater ao que ocorre ainda hoje no futebol de várzea, com primeiro e segundo quadros e árbitros de cada time. Isso mesmo, cada clube tinha um ou mais juízes e podia acontecer de um deles atuar no próprio jogo de sua equipe. Porém, por mais que se aceitasse um sistema absurdo desses, não se admitia que numa decisão de campeonato o árbitro escolhido pertencesse a um dos finalistas. Mas até isso aconteceu contra o Santos…
Bem que Ascânio Bueno, conhecido goleiro em Santos, avisou aos diretores Agnello Cícero de Oliveira e Urbano Caldeira sobre conversas comprometedoras que ouvira no Café Argentina poucos dias antes da partida entre Santos e Palestra Itália, na Vila Belmiro, valida pela última rodada do Campeonato Paulista de 1927, cujo empate já daria o título ao Santos (que naquele ano chegou aos célebres 100 gols). Assim denunciou Ascânio aos dirigentes santistas:
“Um garçom, amigo meu, avisou-me que dois cidadãos, sentados à minha frente, conversavam sobre a compra de um juiz de futebol. Fingi que saía e retornei instantes depois, sentando-me numa mesa mais próxima à deles. Esperavam alguém, que logo chegou: ‘Falei com a mulher do Molinaro. Ele topa os 20 contos. Se o sorteio indicar o nome dele, o Palestra ganhará’, disse o recém-chegado”.
Os diretores do Santos acreditaram na história do goleiro, mas não quiseram levantar a lebre, como explicaria Urbano Caldeira mais tarde. Para ele, mesmo que Antonio Molinaro, árbitro do Palestra Itália, fosse o sorteado, entre três candidatos, o Santos, que jogava pelo empate, em casa, e era superior ao adversário, seria campeão (Caldeira chegava a ser ingênuo, em sua maneira virtuosa de se comportar).
1927 - Camarão, Araken, Siriri, Ballio, Feitiço, Alfredo, Hugo, Osmar e Bilu - Renato, David, Marba, Evangelista e Tufy (02 Jogadores não identificadosDe todos os jogos em que foi roubado descaradamente pela arbitragem, provavelmente este que decidiu o título paulista de 1927 foi o maior. Por isso, merece uma descrição detalhada, baseada no Álbum de Ouro publicado em 1963 pelo jornalista Adriano Neiva, o De Vaney:
A bola rola, o Santos avança, gol de Siriri aos 23 segundos. Para quem só precisava empatar, estava bom demais. A torcida enlouquece. O Palestra, acuado, consegue o primeiro contra-ataque aos 11 minutos: Lara avança e toma um carrinho de Bilu. Molina apita. Os santistas formam a barreira e os palestrinos cercam a bola para cobrar, mas o árbitro, que acompanhava o lance de longe, pela a bola e a leva até a marca do pênalti. Os santistas reclamam e Molinaro ameaça todo mundo de expulsão. Heitor finalmente bate… mas Athiè defende.
Aos 25 minutos, Bianco alivia a área com um balão que vai pegar Tedesco na banheira. Todos param, até o atacante do Palestra. Mas como o árbitro não apita nada e faz gestos insistentes com a mão para o lance continaur, Tedesco segue e empurra para as redes sem que o perplexo Athiè faça qualquer menção de defesa. É de se imaginar a reação da torcida santista após o lance. Mas, como o empate dava o título, bola pra frente…
Aos 38 minutos o Santos encurrala o adversário. Siriri e Araken entram na corrida, aproveitando uma rebatida do goleiro Perth e fazem 2 a 1. O goleiro, desconsolado, chuta a bola para o meio de campo, a Vila explode. Mas Molinaro corre até a área e pede que voltem a bola. Havia marcado impedimento.
Já no início do segundo tempo Evangelista avança e quando vai chutar é atingido por trás. O árbitro marca falta… do atacante santista. Aos 17 minutos, é a vez de Siriri receber um passe de Camarão, invadir a área e tomar uma rasteira de Miguel. À revolta do santista, Molinaro apenas sorri.
Aos 23 minutos o Palestra faz 2 a 1, desta vez um gol limpo, sem contestação. Oito minutos depois Omar é aterrado na área, mas o juiz novamente faz vistas grossas. Aí a revolta explode. Povo e polícia entram em choque. O jogo fica paralisado por 19 minutos. Quando recomeça, o Santos, aturdido, sofre o 3 a 1.
No desespero, porém, o segundo gol acontece. Tudo é possível nos últimos quatro minutos e meio… ou melhor, seria: Molinaro mal dá tempo para a saída do Palestra. Encerra a partida e corre para o vestiário, protegido pela polícia. Lá, fica uma hora e meia sitiado. Nenhum motorista quis leva-lo à estação de trem. Teve de ir a pé, escoltado pela cavalaria, escondido entre os cavalos, seguido por uma multidão.
Na Rua do Comércio, o povo avançou ameaçadoramente e os soldados tiveram de usar a violência para proteger o árbitro. Na estação, Molinaro embarcou sob uma chuva de pedras e gritos de ódio, e não viajou só. Praças da Força Pública, comandados por um tenente, escoltaram-se até Piaçaguera. Foram os 20 contos mais suados que um juiz de futebol já ganhou.
Você leu, caro leitor, que em 1926, mesmo punindo o árbitro Cayuba Reis por inverter o resultado de uma partida entre Santos e Portuguesa, a Apea não modificou o resultado da mesma, que continuou 2 a 1 para a Portuguesa. Pois bem, agora vejamos o que aconteceu em 22 de outubro de 1929, na partida com o Palestra, na Vila Belmiro (antes, um panorama do campeonato: o Santos liderava sem nenhum ponto perdido e só lhe faltavam três jogos: Palestra e Sílex, em casa, e Corinthians, em São Paulo).
Primeiro tempo: Santos 2, Palestra 2. No intervalo, o árbitro Francisco Guerra sente-se mal e não retorna para o segundo tempo. Não há árbitro oficial em disponibilidade. Então, em comum acordo os clubes convidam Urbano Caldeira para atuar – além de ser honesto de dar raiva, ele conhecia tão bem as regras que ministrava cursos de arbitragem. Jogo reiniciado, os times revezam-se no ataque, em uma grande partida que o Santos vence por 4 a 3.
Vence? Pois sim. A Apea resolve anular o segundo tempo e deixar como resultado definitivo o 2 a 2 do primeiro, o único que o árbitro designado pela entidade pôde apitar. Nem outra partida, nem prosseguimento da mesma, nada. Empate!? O que tirou o primeiro ponto do Santos no campeonato.
Texto do Blog do Odir Cunha

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