Era proibido ser campeão!
Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da capital armavam esquemas fora do campo (Araken Patusca).
O fato de ter sido o primeiro time fora da capital convidado a disputar o Campeonato Paulista nunca significou que o Santos também tivesse sido convidado a vencê-lo. Ao contrário. Longe do centro geográfico das decisões políticas – principalmente naquele tempo em que o único meio de transporte entre as duas cidades era a preguiçosa Maria fumaça –, o time, se não chegava a ser sistematicamente prejudicado, sempre encontrava inúmeras barreiras, algumas insuperáveis, para chegar ao título.
“Nós éramos um time muito treinado e unido. O Santos daquela época (1926 a 31) foi, talvez, o time mais harmônico do Brasil. Era uma linha tão boa que quando se formava a Seleção Paulista, iam os cinco como titulares. Só não conseguimos chegar ao título porque os times da Capital armavam esquemas fora do campo”, disse Araken, já veterano, muitos anos depois.
A primeira vez que o Santos esteve perto de um título estadual foi em 1918. Na penúltima partida derrotou o líder, Paulistano, por 1 a 0, num jogo memorável, analisado assim pelo colunista do jornal O Estado de São Paulo: “Foi uma luta belíssima, presenciada pro uma multidão enorme e selecta, que acompanhou com intenso enthusiasmo todo o decorrer da peleja, que esteve brilhantíssima sob todos os aspectos. Foi, indiscutivelmente, um dos melhores, senão o melhor match de campeonato até esta data jogado”.
Só 15 dias depois, em 6 de outubro, o Santos enfrentou a Associação Athlética das Palmeiras, na Vila Belmiro. Vencendo, provocaria uma decisão com o paulistano. Mas perdeu por 1 a 0, com jogadores expulsos e muita confusão. Vejamos o que O Estado publicou sobre a atuação do árbitro Francisco Pellegrini: “O sr. Pellegrini, o célebre sr. Pellegrini, foi de uma infelicidade a toda prova, sendo mesmo agredido pelo povo”.
Depois de alguns anos em que colecionou mais derrotas do que vitórias no Campeonato Paulista, o Santos se aprumou em 1925 – já com o ataque que em 1927 faria 100 gols – e terminou em terceiro lugar, com sete pontos perdidos, apesar três a mais do que o campeão, a Associação Atlética São Bento (time da capital onde despontava o artilheiro Feitiço, que dois anos depois iria para a Vila Belmiro).
Em 1925 o Santos conseguiu triunfos marcantes e já poderia ter sido o campeão. Derrotou o Corinthians (1 a 0), a campeã Associação Atlética São Paulo (3 a 1) e empatou com o Paulistano (1 a 1) na Vila Belmiro. Ganhou do Ipiranga (3 a 2) e do Internacional (2 a 0) em São Paulo. Mesmo perdendo para o Palestra Itália, por 3 a 0, na Vila Belmiro, teria ficado com a taça se não perdesse para a Portuguesa, também na Vila, por 3 a 1. Na última rodada, já desmotivado, mesmo jogando em casa perdeu para o lanterninha Auto Sport (2 a 1) e perdeu ao menos a chance de garantir o vice-campeonato.
Havia, entretanto, a esperança de que o Santos, um pouco mais maduro, brigasse mais solidamente pelo título em 1926, quando o campeonato teria apenas um turno, com oito jogos para cada equipe. Na estréia, a expectativa parecia se confirmar, pois o time foi a São Paulo e bateu o Internacional por 4 a 2.
No segundo jogo, porém, erros grosseiros e suspeitos da arbitragem foram decisivos para que a equipe fosse derrotada pela Portuguesa por 2 a 1, em São Paulo. Indignado com a atuação do árbitro Cayuba Reis, o clube recorreu ao Conselho Superior da Apea através de Urbano Caldeira.
O Santos alegava que o sr. Reis validara os dois gols da Portuguesa em impedimento e anulara dois gols santistas perfeitamente normais. Provar isso sem videoteipe não deve ter sido fácil, mas o desempenho do árbitro foi tão parcial que o Conselho não só deu razão ao Santos, como excluiu Cayuba Reis do quadro de juízes da Apea. O resultado do jogo, entretanto, não foi alterado, e o Santos continuou com dois pontos perdidos.
Para se compreender a estrutura do futebol naqueles tempos de amadorismo, basta se ater ao que ocorre ainda hoje no futebol de várzea, com primeiro e segundo quadros e árbitros de cada time. Isso mesmo, cada clube tinha um ou mais juízes e podia acontecer de um deles atuar no próprio jogo de sua equipe. Porém, por mais que se aceitasse um sistema absurdo desses, não se admitia que numa decisão de campeonato o árbitro escolhido pertencesse a um dos finalistas. Mas até isso aconteceu contra o Santos…
Bem que Ascânio Bueno, conhecido goleiro em Santos, avisou aos diretores Agnello Cícero de Oliveira e Urbano Caldeira sobre conversas comprometedoras que ouvira no Café Argentina poucos dias antes da partida entre Santos e Palestra Itália, na Vila Belmiro, valida pela última rodada do Campeonato Paulista de 1927, cujo empate já daria o título ao Santos (que naquele ano chegou aos célebres 100 gols). Assim denunciou Ascânio aos dirigentes santistas:
“Um garçom, amigo meu, avisou-me que dois cidadãos, sentados à minha frente, conversavam sobre a compra de um juiz de futebol. Fingi que saía e retornei instantes depois, sentando-me numa mesa mais próxima à deles. Esperavam alguém, que logo chegou: ‘Falei com a mulher do Molinaro. Ele topa os 20 contos. Se o sorteio indicar o nome dele, o Palestra ganhará’, disse o recém-chegado”.
Os diretores do Santos acreditaram na história do goleiro, mas não quiseram levantar a lebre, como explicaria Urbano Caldeira mais tarde. Para ele, mesmo que Antonio Molinaro, árbitro do Palestra Itália, fosse o sorteado, entre três candidatos, o Santos, que jogava pelo empate, em casa, e era superior ao adversário, seria campeão (Caldeira chegava a ser ingênuo, em sua maneira virtuosa de se comportar).
De todos os jogos em que foi roubado descaradamente pela arbitragem, provavelmente este que decidiu o título paulista de 1927 foi o maior. Por isso, merece uma descrição detalhada, baseada no Álbum de Ouro publicado em 1963 pelo jornalista Adriano Neiva, o De Vaney:
A bola rola, o Santos avança, gol de Siriri aos 23 segundos. Para quem só precisava empatar, estava bom demais. A torcida enlouquece. O Palestra, acuado, consegue o primeiro contra-ataque aos 11 minutos: Lara avança e toma um carrinho de Bilu. Molina apita. Os santistas formam a barreira e os palestrinos cercam a bola para cobrar, mas o árbitro, que acompanhava o lance de longe, pela a bola e a leva até a marca do pênalti. Os santistas reclamam e Molinaro ameaça todo mundo de expulsão. Heitor finalmente bate… mas Athiè defende.
Aos 25 minutos, Bianco alivia a área com um balão que vai pegar Tedesco na banheira. Todos param, até o atacante do Palestra. Mas como o árbitro não apita nada e faz gestos insistentes com a mão para o lance continaur, Tedesco segue e empurra para as redes sem que o perplexo Athiè faça qualquer menção de defesa. É de se imaginar a reação da torcida santista após o lance. Mas, como o empate dava o título, bola pra frente…
Aos 38 minutos o Santos encurrala o adversário. Siriri e Araken entram na corrida, aproveitando uma rebatida do goleiro Perth e fazem 2 a 1. O goleiro, desconsolado, chuta a bola para o meio de campo, a Vila explode. Mas Molinaro corre até a área e pede que voltem a bola. Havia marcado impedimento.
Já no início do segundo tempo Evangelista avança e quando vai chutar é atingido por trás. O árbitro marca falta… do atacante santista. Aos 17 minutos, é a vez de Siriri receber um passe de Camarão, invadir a área e tomar uma rasteira de Miguel. À revolta do santista, Molinaro apenas sorri.
Aos 23 minutos o Palestra faz 2 a 1, desta vez um gol limpo, sem contestação. Oito minutos depois Omar é aterrado na área, mas o juiz novamente faz vistas grossas. Aí a revolta explode. Povo e polícia entram em choque. O jogo fica paralisado por 19 minutos. Quando recomeça, o Santos, aturdido, sofre o 3 a 1.
No desespero, porém, o segundo gol acontece. Tudo é possível nos últimos quatro minutos e meio… ou melhor, seria: Molinaro mal dá tempo para a saída do Palestra. Encerra a partida e corre para o vestiário, protegido pela polícia. Lá, fica uma hora e meia sitiado. Nenhum motorista quis leva-lo à estação de trem. Teve de ir a pé, escoltado pela cavalaria, escondido entre os cavalos, seguido por uma multidão.
Na Rua do Comércio, o povo avançou ameaçadoramente e os soldados tiveram de usar a violência para proteger o árbitro. Na estação, Molinaro embarcou sob uma chuva de pedras e gritos de ódio, e não viajou só. Praças da Força Pública, comandados por um tenente, escoltaram-se até Piaçaguera. Foram os 20 contos mais suados que um juiz de futebol já ganhou.
Você leu, caro leitor, que em 1926, mesmo punindo o árbitro Cayuba Reis por inverter o resultado de uma partida entre Santos e Portuguesa, a Apea não modificou o resultado da mesma, que continuou 2 a 1 para a Portuguesa. Pois bem, agora vejamos o que aconteceu em 22 de outubro de 1929, na partida com o Palestra, na Vila Belmiro (antes, um panorama do campeonato: o Santos liderava sem nenhum ponto perdido e só lhe faltavam três jogos: Palestra e Sílex, em casa, e Corinthians, em São Paulo).
Primeiro tempo: Santos 2, Palestra 2. No intervalo, o árbitro Francisco Guerra sente-se mal e não retorna para o segundo tempo. Não há árbitro oficial em disponibilidade. Então, em comum acordo os clubes convidam Urbano Caldeira para atuar – além de ser honesto de dar raiva, ele conhecia tão bem as regras que ministrava cursos de arbitragem. Jogo reiniciado, os times revezam-se no ataque, em uma grande partida que o Santos vence por 4 a 3.
Vence? Pois sim. A Apea resolve anular o segundo tempo e deixar como resultado definitivo o 2 a 2 do primeiro, o único que o árbitro designado pela entidade pôde apitar. Nem outra partida, nem prosseguimento da mesma, nada. Empate!? O que tirou o primeiro ponto do Santos no campeonato.
Texto do Blog do Odir Cunha