Santos pelo Tri do Brasil, Santos pelo Mundo – (1970)

Published On 15/05/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 15/05/2017

Dessa temporada resultaria o último grande momento da Dinastia Santásticos.
Foi um período dedicado a Seleção Brasileira, fomentada pela base de jogadores santistas, terminaria Tricampeã Mundial no México – conquistando definitivamente a taça Jules Rimet. A Era de Ouro do futebol nacional chega ao apogeu e o Santos foi o protagonista do melhor futebol de todos os tempos.
Os primeiros meses do ano foram proveitosos, a temporada internacional começou na América do Sul (Argentina, Chile e Peru) e o Santos obteve excelentes resultados. A estreia foi dia 16 de janeiro, diante do campeão argentino Boca Juniors, movimentando o interesse dos portenhos. A partida em Mar Del Plata serviu para o Alvinegro pagar o passe de Orlando Peçanha, ídolo do Boca. Em jogo equilibrado, o show ficou por conta da reestreia de Coutinho, que através de tabelinhas com Pelé, igualaram os termos numéricos.
O Boca abriu o placar aos 31’ da primeira fase, mas seis minutos depois Pelé cruzou à meia altura e antes que a bola tocasse no chão, Coutinho emendou forte: 1 x 1! Golaço e aplausos! Somente com cinco minutos do reinicio complementar ocorreu outro gol, a virada do Santos! Abel passou rasteiro para Coutinho, este ameaça mas deixa a bola passar, Pelé aproveitou e pegou forte de pé direito, vazando a meta do goleiro Roma (CAB). Até aquele momento o jogo já valia o ingresso, o Santos desempenhava jogadas de efeito. Mas para não fazer feio atuando em seu país, o campeão argentino buscou o empate aos 26’, final: 2 x 2. Dois dias depois, veio a primeira vitória, em Córdoba, ante o CA Talleres (da 1º divisão argentina) por 2 a 0, gols de Abel e Manoel Maria.
Da Argentina o Alvinegro viaja para o Chile, em disputa do Torneio Hexagonal. Não começa bem, é derrotado pelo Colo-Colo depois de estar vencendo por 1 x 0, 2 x 1 e 3 x 2, numa virada por 4 a 3. Três dias depois, o Santos vai até Lima, no Peru, lá enfrenta o campeão nacional Universitário e consegue golear por 4 a 1, Pelé marca duas vezes, Douglas uma e Bernardes (contra). Retorna ao Chile (28/01) pelo Hexagonal, empatando com o campeão da Taça das Feiras, Dínamo Zagrebe, por 2 a 2. Com o empate ante os croatas, enervem uma enxurrada de críticas ao Santos, ao qual um jornal indagou se “Esta é a equipe de astros que cobra milhões de dólares por partida”? Em outra matéria, afirmavam: “aquele brilho e intensidade de jogo magistral a qual todos estavam acostumados a ver, ficou no passado, hoje é uma equipe de velhos gordos, que entram no gramado por obrigação, com a única intenção de ganhar dinheiro antes de pendurar a chuteira”. “Pelé foi o maior, hoje joga apenas com o nome”!
Como se percebe nas críticas não eram apenas meros “amistosos”. A necessidade de mostrar valor, coragem e força para superar os desafios internacionais da época era algo importante para a imagem de um clube. Por isso, tanto dinheiro envolvido e críticas pesadas foram feitas quando o clube diminuiu seu futebol de alto nível. Tais jogos eram o conceito de valor da época que, hoje, a compreensão de “jornalistas” e “entendedores” se dar por vícios de anacronismos. Quando os resultados dos grandes clubes em partidas assim não eram satisfatórios, a imagem ficava na berlinda. E assim estava a do Santos que precisava reagir.
Somente dia 30 de janeiro o Santos conseguiu sua primeira vitória no Chile. Como em todas as partidas do torneio, a realização ocorreu no estádio Nacional, abastecido por 40 mil pessoas. Mesmo enfrentando um grande adversário (a equipe da Universidad de Chile), os brasileiros tiveram um domínio completo que foi elogiado pela crítica local. Após rondar bastante a área do adversário, o Santos é eficiente aos 16’. Cruzamento de Abel pela esquerda, Pelé aproveita e arremata com violência para estufar as redes do goleiro Urzua (LA U). Após o tento seguia a pressão absoluta dos brasileiros. A presença de Douglas no lugar de Coutinho dava rapidez e mobilidade ao ataque, como aos 33’, ao qual todo o estádio aplaudiu a troca de passes rápidos e bonitos do ataque santista. Coincidentemente, novamente aos 16 minutos, jogada de Abel na esquerda, cruzamento para dentro da área, a bola encontra Pelé, que chuta forte para assinalar 2 a 0. Após receber duras críticas pelas apresentações muito abaixo do esperado o Alvinegro voltava a ser aplaudido, mas ainda não convencia.
Na sequência (04/02) o Santos enfrenta o América, equipe campeã mexicana em 1970-71. Antes de iniciar a partida Pelé é homenageado recebendo uma coroação e aplaudido por todos os presentes. Um agradecimento emocionado do camisa 10 santista, seguido de alegres músicas brasileiras fechando a cerimonia. Quando iniciada a peleja houve um equilíbrio das partes e as jogadas mapeadas no centro de campo. A história começou a mudar apenas aos 14’, quando Rildo penetrou como um ponta e serviu Pelé, que da entrada da área acertou um belo chute, fora do alcance do goleiro Pinera (1 x 0). O Santos passa a desencadear sua pressão e eficiência ofensiva. Com 23’ novamente Rildo foi apoiar o ataque, chutou e a defesa mexicana rebateu, Pelé apanhou o rebote e assinalou. Aos 39 minutos Pelé novamente: recebeu na entrada da área, fez um balanço de corpo e arrematou a meia altura violentamente: 3 x 0!
A segunda fase continuou como a primeira, o Santos voltou a marcar num belo chute de Coutinho aos 26’. Quatro minutos depois, Carlos Alberto serviu Nenê, sem trabalho para empurrar às redes. Mais cinco minutos, Lima faz boa combinação com Rildo, o lateral esquerdo recebe e avança, atira com firmeza e marca o sexto gol santista! Faltando três minutos para o fim, Pelé chamou a defesa mexicana e enfiou um passe preciso entre dois zagueiros para Manoel Maria, tranquilamente, fechar a contagem em 7 a 0! Agora o Santos vencia e convencia diante de uma das principais equipes das Américas.
Para trazer o título de Campeão do Torneio Hexagonal do Chile e 520 mil cruzeiros novos (970.834 escudos chilenos) de lucro, no dia 07 de fevereiro, o Santos foi a campo (Joel Mendes; Haroldo, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Lima e Nenê; Manoel Maria, Coutinho, Pelé e Abel) enfrentar a Universidade Católica, semifinalista da Libertadores em 1970. As quase 70 mil pessoas no estádio Nacional observaram um início de jogo cauteloso. Mas isso durou apenas 18’, quando mais insistente no ataque, o Santos abriu o placar com Coutinho, após escorar bem de cabeça um escanteio cobrado por Abel. Cinco minutos depois, Manoel Maria mandou a bola à Coutinho, este driblou dois zagueiros e atraiu a atenção de um terceiro passando para Pelé dominar e marcar, 2 x 0! Aos 26 minutos, a Católica diminuiu o placar com um gol ilegal de Sarnari, o que provocou a irritação de Joel que, ao chutar a bola no arbitro, foi expulso. Antoninho teve que substituir o ponta Abel pelo zagueiro Djalma Dias.
Apesar de esta com um a menos, logo no início do segundo tempo, Pelé percebeu o goleiro Trepiane desprevenido, arrematou forte de longa distância e marcou o terceiro do Santos. A partida se desenhava violenta, com jogadas ríspidas de ambos os times. Aos 35’, Ramos Delgado e Petkovic trocaram pontapés e foram expulsos. Enfraquece mais o ataque santista: Coutinho sai, entra Marçal. Sarnari aproveitou o recuo brasileiro e faz o segundo para os chilenos. Contudo, o Santos suportou a pressão, trocou passes até poder comemorar mais um título internacional!
O time retorna ao Brasil. Começa A Saga da Seleção Brasileira pelo Tricampeonato Mundial. Nos jogos preparativos para a Copa, o técnico Zagallo chamou cinco santistas: Carlos Alberto, Joel Camargo, Clodoaldo, Pelé e Edu. Naquela época os atletas ficavam completamente confinados sem poderem atuar pelos seus clubes, ou seja, dos amistosos iniciados em 4 de março, passando pelos jogos da Copa do Mundo, coerente a final contra a Itália em 21 de junho, o Santos fica desfalcado de alguns dos principais craques.
Na verdade, há muitos anos o Santos F.C. vinha se sacrificando pela seleção brasileira e obtendo resultados internacionais que envergam ou recuperavam o prestigio do futebol nacional. Depois da frustrante participação brasileira na Copa da Inglaterra em 66, ocorre uma verdadeira “reconstrução do prestigio” que passa diretamente pelos feitos internacionais do Santos F.C., o clube mais famoso e símbolo do futebol brasileiro. Um processo restaurador, que pode ser dividido por cinco momentos importantes. (1) As vitórias contra portugueses (considerado a vingança) e italianos do valorizado modelo defensivo, duas grandes escolas europeias, ocorrências em Nova York no ano de 66. (2) O êxito contra os campeões alemães do München, os germânicos eram atuais vice-campeões mundiais, no ano de 67. (3) A conquista da Recopa Mundial (68), um valoroso torneio mundial, diante da Internazionale do tático “Catenaccio” e base da Itália campeã da Euro. (4) O triunfo brasileiro com oito santistas diante da Inglaterra (atual campeã do mundo) e as eliminatórias com as “feras do Santos” no ano de 69. (5) Finalmente, chegando ao Mundial de 1970, com o clube sendo a base principal.
Quando a Copa do Mundo estava em curso o Santos não parou. Venceu a Taça cidade de São Paulo com um time de garotos e em maio voltou a excursionar pelas Américas. Fazendo valer seu prestigio, mesmo sem Pelé e os outros quatro craques santistas na Seleção, o Alvinegro obteve cotas melhores do que qualquer outro grande clube brasileiro em partidas no exterior.
Na Venezuela, a estreia dia 07 de maio não foi das melhores: derrota de 3 a 1 para portugueses e uma incrível manifestação de estudantes contra a participação de soldados americanos na Guerra do Vietnã. Quatro dias depois, ainda em Caracas, foi momento de mensurar a capacidade da equipe santista contra um forte adversário londrino.
Longe de ser uma grande potência como atualmente, a primeira grande geração do Chelsea/ING, ocorreu entre 1969 a 71. Hughes, Harris, Webb, Hollins, Cooke e Tambling eram algumas “legends Blues”. Pela primeira vez o Chelsea aparecia no cenário internacional, com o título da Recopa Europeia superando o Real Madrid, além de terceiro colocado no Inglês e vencedor da Copa da Inglaterra. Mas apesar da potência do time inglês, com soberania e melhor controle, rapidamente o Santos impôs vantagem na peleja. Léo Oliveira abriu o placar aos 5 minutos e Douglas ampliou dois minutos depois fechando o primeiro tempo em 2 x 0 para o SFC. Quando a bola voltou a rolar, novamente o Alvinegro foi ao ataque e Davi marcou aos 17 minutos. Mesmo com gol de Weller aos 27’, fazendo acordar o Chelsea, o Santos foi quem ampliou com Pítico, elevando a goleada para 4 a 1, recebendo ao final do prélio o aplauso dos presentes no estádio.
Somente dia 17 de maio o time jogou na América Central. E atuando na Guatemala, o Santos aplicou duas goleadas e conquistou o Triangular da Guatemala. Em 17/05, um 6 a 1 no Comunicaciones campeão guatemalteco de 69 e, dia 20/05, um 3 a 0 no Deportivo Municipal campeão guatemalteco de 70. Léo Oliveira com 3 gols, Douglas e Picolé com 2, foram destaques da campanha. Seguiu para El Salvador e venceu (2 × 1) o Alianza FC, numa partida que durou apenas 1 hora devido às fortes chuvas.
Chegando nos Estados Unidos, dia 06 de junho, novamente o Santos não teve a estreia desejada. Sofreu revés (0 x 1) para a Internazionale/ITÁ, numa partida que a torcida invadiu o campo e acabou encerrada aos 80’. Seguiu para o Canadá, em Toronto, para uma revanche em novo encontro entre brasileiros e italianos dia 06 de junho. Depois de um início favorável ao Santos, a equipe italiana forçou o ataque e conseguiu vantagem, com jogada de Corso e gol de Jair da Costa. Até o final do período inicial a Internazionale dominou o jogo, mas não teve êxitos nos ataques. Na etapa complementar, o Santos passou ao ataque, mas diversas oportunidades foram desperdiçadas. Somente quando, aos 17 minutos, Douglas arriscou um chute de fora da área veio o empate Alvinegro. Depois de algumas jogadas sem sucesso, aos 29’ Djalma Dias colocou o Santos em vantagem (2 x 1), também com um tiro de 20 metros. Com a execução de troca de passes e infiltrações rápidas, os brasileiros venceram o balança defensivo da Internazionale. Picolé, aos 35 minutos, conseguiu o terceiro ponto brasileiro com uma bola alta, que entrou no ângulo esquerdo da meta italiana.
Na sequencia, mas um duelo contra uma equipe italiana.
E na primeira vez que Santos e Milan-ITÁ se enfrentaram no ano, dia 09 de junho, no Canadá, ocorreu um empate sonolento sem gols.
Entretanto, passados oito dias, em Boston, Estados Unidos, o “Desafio Internacional” contra o Campeão da Europa foi uma demonstração da categoria do elenco do Santos. Sem poder contar com os craques selecionados para a Copa do Mundo (Joel, Carlos Alberto, Clodoaldo, Pelé e Edu), mas tendo Ramos Delgado, Djalma Dias, Rildo, Léo Oliveira, Lima e Abel a equipe venceu o afamado Milan. Os italianos também tinham três desfalques devido ao Mundial (Rossato, Rivera e Pratti), porém, abastecidos de Cudicini, Trapatoni, Maldera, Folgi, Sormani, Combín fomentando o melhor time da Europa. Em pugna internacional empolgante, o Santos amassou o esquadrão italiano e só não dilatou as contas devido a muralha milanista. A defesa rossonera buscou a todo momento impedir os ataques santistas, o goleiro Cudicini (ACM) praticou seguidas defesas difíceis. Quando o Milan buscou qualquer reação os santistas impediam as ameaças logo no meio campo, assim foram pouquíssimas as chances claras de gol do Milan. E neste jogo de estratégias ofensivas contra defensivas, muita movimentação prendendo a atenção dos envolvidos, apesar de ter tido um único gol, feito pelo Santos através de Ibrahim (substituindo Abel), após uma triangulação com Rildo e Lima.
Ainda pelo território norte-americano o Santos aplicou seguidas goleadas naquele mês de junho: 8 x 0 e 7 x 3 no Boston, 10 x 0 no Houston, 7 x 4 no Washington. Também fez apresentações na América Central: 4 x 3 no Maraton (Honduras) e no Alajuela (campeão da Costa Rica), 4 x 1 no Montagua (campeão de Honduras). Contra o Chivas, campeão mexicano, o Santos não teve facilidade. Todavia, na individualidade soube buscar a vitória com gols de Pelé e Lima.
No México, após superar Checoslováquia (4 x 1), Inglaterra (1 x 0), Romênia (3 x 2), Peru (4 x 2), Uruguai (3 x 1) e na final (21/06) a Itália (4 x 1), o Brasil conquistava o Tricampeonato Mundial! Pelé, Clodoaldo, Carlos Alberto, Edu e Joel Camargo eram os santistas campeões do mundo!
Em setembro, o Santos faz mais uma excursão. Na Venezuela, o Alvinegro goleia o bicampeão venezuelano Deportivo Galicia por 5 a 1. Enfrenta o West Ham de Bobby Moore, nos Estados Unidos, empatando em 2 a 2. Na Colômbia, em Bogotá, vence o Independiente Santa Fé por 2 a 1. Pouco tempo depois, antes de iniciar o Brasileiro, o Santos contrata mais um artista como dizia a imprensa: o extraordinário goleiro argentino Cejas.
Precisando de dinheiro, o Santos faz mais giros no exterior. Chegava dezembro, e o Alvinegro parte para o Extremo Oriente, viajando até Hong-Kong para enfrentar o selecionado local em quatro apresentações (e embolsar mais alguns milhares de dólares): 4 x 1, 4 x 0, 5 x 2 e 4 x 0 diante da Seleção de Hong Kong.
Nesse ano (1970) apoteótico para o futebol brasileiro, o Santos F.C. jogou pela seleção canarinho no Tricampeonato no México (cinco santistas), e também pelo mundo com as excursões internacionais: fazendo 34 jogos, com 26 triunfos, 04 empates e 04 derrotas. Obteve aproveitamento de 76, 47%, marcando 123 gols (3, 61 gols/por jogo). Em maior valor, números feitos batendo dois Campeões da Europa (Milan/ITÁ e Chelsea/ING) e diversos campeões nacionais das Américas.

Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornal Estado de S. Paulo.

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