A Maior Atração do Futebol Mundial – (1972)

Published On 06/06/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 30/05/2017

Propagando-se ainda mais pelo mundo como o grande “Embaixador do Futebol”, sendo uma atração de impacto aonde quer que fosse, o Santos F.C. seguia sendo um fenômeno, colhendo e notabilizando o seu enorme prestigio planetário. Tanta fama, foi adquirida com a Dinastia Santásticos, dominantes do futebol mundial nos anos 50 e 60. E com os atletas santistas que formaram a base da Seleção Brasileira (Joel Camargo, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Edu e Pelé) no Tricampeonato da Copa do Mundo, no México, os primeiros anos da década de 1970 foram frenéticos.
As perspectivas eram de buscar uma recuperação do bom futebol e competitividade nas competições. Porém, não era um trabalho dos mais fáceis. Seria algo gradativo e, demonstrando tamanha instabilidade, nos primeiros jogos do ano, o Santos decepciona sofrendo inapeláveis derrotas no Brasil.
A única novidade no elenco é o lateral Zé Carlos, vistoso pela sua cabeleira “black-power”, foi contratado do America RJ, sendo fundamental nessa recomposição técnica/tática do time.
Finalmente, no final do mês de janeiro, o Santos F.C. se reorganiza para a primeira parte de sua tradicional turnê mundial: numa nova excursão pela América. Se a equipe em campo não mostrava mais a mesma força e qualidade incomparável de anos atrás, a fama do Alvinegro de Vila Belmiro tomava proporções incalculáveis, sua condição era de um fenômeno mundial.
Pelas Américas Central e Sul, os resultados não foram proveitosos. O Santos começou, dia 30 de janeiro, vencendo (3 a 1) o Deportivo España, em Honduras. Depois ocorre quatro empates, entre estes ante o Atlético Nacional (2 x 2) em Medellín, na Colômbia, até conseguir outra vitória quando enfrenta o CD Saprissa (na Costa Rica) por 5 a 3, com estreia de Alcindo, autor de um dos gols, centroavante que fez dupla com Pelé na Copa de 66. Com o novo contratado renascia as esperanças dos torcedores santistas por melhores apresentações.
Realmente as coisas melhorariam, principalmente, quando na metade do mês de fevereiro, o Santos parte em viagem para o velho continente. Desde de 1969 o Alvinegro não mais excursionava pela Europa. Com o futebol brasileiro no apogeu, conquistando a terceira Copa do Mundo em 1970, sob apresentações magistrais de Pelé e sendo o Santos base do país e o clube mais conhecido e respeitado do futebol Sul-Americano, todos queriam ter a oportunidade de presenciar os Globbetrothers do Futebol.
Pela Europa o Santos F.C. transitava como uma grande atração do futebol mundial.
Vários fatores se acoplavam para uma fama tão grandiosa. Como o fato do futebol brasileiro viver seu ápice, o momento mais glorioso, sendo o Santos o principal protagonista. O quadro santista era formado por craques consagrados e históricos, vários astros conhecidos internacionalmente. Todos queriam, sobretudo, ter a oportunidade de testemunhar, tocar e ver a figura de um Rei (Pelé), que caminhava para sua despedida no futebol. A cada apresentação dos santistas o que se noticiava e presenciava-se eram estádios completamente lotados, fanatismo extremo, delírios aos olhos de expectadores, recordes de públicos, gritarias e correrias, acontecimentos dignos de comparações a um fenômeno mundial, idolatria eufóricas por onde passava, o alvinegro viveu tempos de beatlemania! Nunca na história observou-se tamanho alvoroço de multidões fanáticas para ver atletas de um time de futebol.
Muitos foram os fatos curiosos e extraordinários ocorridos nas apresentações internacionais do Santos em 1972. A começar pela primeira partida na Europa, ocorrente em Birmingham, Inglaterra, sob frio e neve intensa do dia 21 de fevereiro, diante do Aston Villa-ING. A ordem era: “FAÇA-SE A LUZ PARA O SANTOS JOGAR”! Isto porque devido a greve dos mineiros ingleses, não havia carvão para gerar eletricidade no estádio Villa Park, com isso, os organizadores tomam providencias para conseguir geradores próprios (provisórios), de forma a iluminar o campo, mais não tiveram o êxito desejado e o jogo decorreu com baixa luminosidade. Embora com a problemática, o público compareceu em peso, quebrando o recorde de arrecadação numa partida de futebol! Do noticiado, aquelas pessoas não se importavam com a pouca iluminação, pois, queriam de toda forma testemunhar, embora rarefeito, o imaculado time de branco. O Santos como sempre audacioso e sem medo de se expor, joga mesmo sem as condições necessárias, Pelé reivindica que não havia capacidade de continuar a partida, com toda sua grandeza parando o jogo em alguns momentos, mas a realização segue até o fim e o Santos sofre revés (1 x 2).
Os santistas eram idolatrados e apreciados em cada país onde se apresentavam. O Rei Pelé era visto como um deus vivo, com o fanatismo inconsequente do público europeu. Foi assim que, depois de vencer (2 a 0) o Sheffield Wednesday-ING, na época o quarto maior campeão da Inglaterra, num clima extremamente frio e campo escorregadio e molhado, o Santos chega a Dublin, capital Irlandesa para enfrentar o Combinado Bohemians/Drumcondra-IRL. Pela primeira vez o Alvinegro visitava Eire, e uma multidão superlota o estádio local, que tem a presença ilustre do primeiro ministro Jack Lynch. No jogo viu-se uma partida equilibrada, o Santos abriu o placar e chegou a sofrer uma virada, porém, conseguiu vencer por 3 a 2. A comoção do povo tomou conta no 3º gol santista feito por Alcindo, e a torcida tomou o gramado para comemorar o gol do Santos! Pelé observando a multidão entrando em campo corre para o vestiário, a partida é encerrada com muito tumulto.
Dia 1º de março, a partida é na Bélgica, e novamente ocorre o mesmo: a loucura das pessoas, completamente eufóricos, multidão que não conseguia entrar no estádio usa de força e derruba os portões, muros e invadem o estádio, no jogo (Santos 0x0 Anderlecht) os torcedores sentavam ao redor do campo, não havia espaço suficiente nas arquibancadas, algo sufocante restringindo a segurança da partida.
Antes de chegar na Itália, o Santos pede o passe do barbudo, cabeludo e polemico meio-campista Afonsinho. E chega em Roma, para enfrentar a AS Roma no estádio Olímpico. Os organizadores do estádio, não estavam preparados para tamanho fanatismo daquele dia, ocasionando uma tragédia! Longas filas foram formadas, cerca de 42 mil pessoas conseguem pagar seus bilhetes (tem garantias nas arquibancadas). No entanto, ainda havia uma multidão acoplada tentando entrar, e não teria a garantia de comportar a todos, a paciência dos italianos se esgota e acabam invadindo o estádio, um verdadeiro estardalhaço, muitos são os feridos nessa partida como fato lamentável, cerca de 25 mil pessoas entram a força, superlotam para acompanhar o Santos vencer por 2 a 0 (gols de Oberdan e Edu), a tradicionalíssima AS Roma. Depois o Santos parte para Nápoles, e consegue com gols de Pelé (2) e Nenê, vitória por 3 a 2 frente ao Napoli (terceiro melhor time italiano) formado de Zoff, Juliano, Sormani, Altafini e outros cobras. Em 29 de abril, novo encontro e outra vitória santista, agora por 1 a 0, gol de Alcindo já com comando de Jair Rosa Pinto.
A troca de treinador ocorre entre as partidas contra o Napoli.
As coisas não caminhavam bem no Brasil. A tática adotada por Mauro Ramos de Oliveira, valorizando mais o aspecto defensivo – dentre mais, afastando Pelé da área e colocando-o como um meia fixo – não agradava, e com mais alguns resultados controversos, ele acabou demitido em 26 de março. Em seu lugar foi contratado Jair Rosa Pinto, que vinha de um bom trabalho no futebol carioca. Com Jair, volta o modelo ofensivo, mas sem muita organização. Em atitude polemica, o novo contratado pediu a saída do preparado físico Júlio Mazzei, há sete anos no clube, trazendo Geraldo Cunha para o cargo. Em sua segunda partida na Europa, Jair tinha pela frente um dos melhores esquadrões da história.
Nenhuma partida foi mais importante e consagradora que a do dia primeiro de maio. Parecia reviver um pouco de Brasil x Itália na última final de Copa do Mundo. Atuando em casa, a squadra do Cagliari (campeão italiano de 1970), era a base da Seleção Italiana e no grande confronto diante do Santos (Cejas; Orlando Lelé, Ramos Delgado, Oberdan e Zé Carlos; Afonsinho e Clodoaldo; Antenor, Alcindo, Pelé e Edu) utilizou o que tinha de melhor, dos quais cinco atletas eram da Azurra: Albertosi, Cera, Nicolai, Domenghini e Riva.
Mostrando sua força, refinamento e consistência técnica, a squadra italiano intensificou imposição e buscou a vitória: logo aos 7 minutos, o lendário Luigi Riva inaugurou o placar. Modificando sua postura, atacando com mais afinco, o Santos dita mais o jogo. Até que, aos 21′, Clodoaldo lança Pelé, este domina e arremata empatando a peleja. Porém, sem se intimidar, novamente o centroavante Riva coloca o Gagliari na vantagem e o primeiro tempo se encerra. Com 9 minutos do segundo tempo, os brasileiros aceleram o ritmo, quando Edu faz a jogada, avança e chute forte. Poletti tenta rebater, mas o coro entra na meta do arqueiro: 2 x 2! As jogadas se equivalem, o Santos tenta com Edu e Pelé mas não consegue furar o bloqueio, a resposta do Cagliaria é dada, porém, também não compromete o placar. Somente aos 26 minutos, Pelé avança driblando um, dois, três defensores e atira com precisão fazendo balançar as redes, virando o placar que não mais mudaria, dando a vitória ao Santos sobre a base da seleção italiana.
No meio do Paulista de 1972, o SFC faz mais 4 jogos pela Europa e Ásia.
Nessas apresentações, inúmeras são as presenças ilustres, como de Reis, ministros e pessoas importantes apreciando e reverenciaram os Globetrotters Santistas. E as notícias são de mais multidões enlouquecidas a cada partida…
Com vários dias de antecedência já tinham sido vendidos os 40 mil ingressos disponíveis para a luta internacional entre o Fenerbahçe-TUR (campeão turco em 1970 e atual vice-campeão) e o famoso Santos, no dia 03 de maio, no estádio Mithapasa, em Istambul. Quando a bola rolou, os primeiros 30 minutos foram bem disputados, com equilíbrio de finalizações e na posse de bola das equipes. Depois, porém, o Santos soube ser mais efetivo: marcou aos 32’ com Alcindo e aos 35’ com Pelé, encerrando no primeiro tempo em vantagem de 2 a 0. O deslancho veio no complementar, com cinco minutos, Edu já fazia 3 a 0, e antes dos 20’, Clodoaldo vazou novamente as redes turcas. Apesar de Canan diminuir para o Fenerbahçe, Alcindo aos 30 minutos e Ferreira, cinco minutos depois, fecharam a dilatada contagem de 6 a 1 para o Santos, recebendo aplausos e elogios!
Dois dias depois, em Teerã (Azadi Stadium), no Irã, o Santos aplicou outra goleada: 5 × 1 no Taj Sports! Algo curioso, anos depois, após a Revolução Islâmica de 78, este adversário mudaria seu nome para (o atual) Esteghal Tehran. O Xá Rezha Phalevi, ou imperador iraniano, assistiu essa partida e seu filho desceu ao gramado para cumprimentar Pelé.
Em uma nova parada no final do 1º turno do Camp. Paulista-72, o Santos parte para mais uma turnê mundial, está será bem extensiva em termos territoriais, uma das maiores feitas pelo clube, o Peixe faz apresentações em países da Ásia, Oceania e América do Norte. Ao fim dos compromissos globais, o Santos recebe uma premiação honorifica, a relevante Fita Azul Internacional. O clube tornou-se o primeiro clube Brasileiro a jogar em todos os Continentes possíveis: América (Sul, Central e Norte), Europa, Ásia, África e Oceania.
Com essa sequência de 17 partidas internacionais invictas, o SFC recebeu o título honorífico da “Fita Azul”, a Taça Independência.
Encerrando o Paulistão, começaria o Nacional. Antes, porém, uma passadinha em Trinidad Tobago (06/09). Em mais uma loucura de fanatismo para verem o Santos de Pelé, mais de 20 mil pessoas invadem o pequeno estádio que apenas comportava 30 mil espectadores. Assim, cinquenta mil pessoas ficaram apertadas e ao redor do campo, pessoas chegaram a passar mal, tudo para acompanhar a vitória do Santos por 1 a 0.

Fontes/Referências:
Almanaque do Santos FC;
Jornal A Tribuna de Santos;
Jornal O Estado de São Paulo;
ASSOPHIS;

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