Fase de consolidação entre os maiores do planeta – (1960)

Published On 22/01/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 22/01/2017

Em 1959 o Santos FC já era considerado um dos melhores times do mundo. O clube atendia a três aspectos preponderantes do regime de época nesse quesito: (1) elenco forte e craques selecionáveis, (2) grandes títulos conquistados e (3) triunfos internacionais sobre equipes badaladas. Esses fatores faziam o clube ser visto como o melhor time da América do Sul, como mostrou o estudo internacional do periódico Fútbol, retratado na Gazeta Esportiva.
Contudo, foi com as exibições internacionais de 1960, que parte da imprensa mundial, principalmente a francesa, passou a projetar simbolicamente o Santos FC de Melhor do Planeta.

Em 1959 o Santos acabou perdendo a final do primeiro Campeonato Brasileiro (Taça Brasil) para o Bahia. Com isso, não pôde disputar a Libertadores do ano seguinte.

Apenas simbolicamente. Porque em 1960 seria criado o Mundial Interclubes, no propósito de tira-teima racional que numera os fatos, enaltecendo sobre a questão do melhor time do mundo. Teria como primeiro vencedor o Real Madrid, da Espanha. Além disso, a Copa Libertadores da América vencida pelo Peñarol nas duas primeiras edições, e a Copa dos Campeões da Europa de posse do Real e a revelação Benfica, reunia a nata do futebol. E o Santos deixou escapar suas participações na Libertadores e Mundial, quando no ano de 1959, mesmo tendo um elenco melhor que o Bahia, sofreu revés de forma limpa e justa.
Cada etapa foi acontecendo gradativamente, ano a ano na vida do Alvinegro – 1959 foi a abertura, 1960-61 a consolidação e, 1962 em diante, o melhor do mundo. Chegar perto da perfeição exigia ajustes e amadurecimento para não repetir erros, como os que haviam tirado o SFC das primeiras competições internacionais. O clube ainda teria de provar sua fama global para ser o melhor do mundo, apesar do merecido glamour, qual veremos, adquirido pelos anos de 1960 e 1961.
Após longas férias, aproveitando uma brecha no calendário antes do Torneio Rio-São Paulo, entre 16 de fevereiro e 20 de março, o Santos FC faz uma série de dez jogos pela América do Sul: passa por Peru, Colômbia e Equador. Enfrentando as melhores equipes destes países, atuando nas cidades de Lima, Medelín, Cali, Bogotá e Quito, o time obteve triunfos notórios: 2 a 1 ante o Alianza Lima, na época o maior campeão peruano, na estreia do quarto-zagueiro Calvet; 1 a 0 sobre as equipes de Independiente Medelín e América de Cali (2x), times que compunha a Seleção da Colômbia na Copa de 1962 (5 atletas do América e 3 do Medelín); e nas goleadas ante o Deportivo Cali (4×0) e SD Aucas (6×2), voltando com um total de seis vitórias, dois empates e duas derrotas. Dorval, com 7 gols, e Pepe, com 6, foram os artilheiros. Na volta ao Brasil, para disputar o torneio de cariocas e paulistas, o Santos faz uma apática campanha.

A equipe do Santos postada, antes da vitória de 6 a 0, diante do Anderlecht na Bélgica.

Em maio, o clube parte para outra excursão, desta vez o destino seria a Europa, com estreia marcada para o dia 20, na Bélgica. E o Santos inicia com vitória sobre o futuro campeão belga Standard, em Liége, por 4 a 3.
Nos retornos ao país, dias 28 e 31, derrotou o então campeão nacional Anderlecht, em Bruxelas, por 6 a 0, e o Royal Beerschot, por 10 a 1 (partida a qual ocorreu a maior goleada, e o ator Anselmo Duarte atuou pelo Santos, entrando no lugar de Mengálvio, marcou um gol, para não ter problemas com a CBD foi divulgado que o atacante Ney é quem teria entrado), encerrando em junho, com vitórias sobre a La Gantoise por 5 a 2 e Seleção de Antuérpia por 3 a 1.

Entrada em campo, partida noturna, Santos enfrentou a Seleção da Polônia.

A segunda excursão do Santos na Europa seria uma das mais bem-sucedidas da história do futebol brasileiro. Da Bélgica o time rumou para a Polônia, e na sua segunda partida venceu a Seleção Polonesa por 5 a 2, com gols de Coutinho (2), Pelé (2) e Sormani, perante um público de 85 mil pessoas segundo borderô oficial (mas testemunhas garantem que 100 mil pessoas compareceram ao estádio Slaski, em Katowicz). Coutinho chegou a marcar 3 gols, mas por ser parecido com Pelé, a impressa da época divulgou 2 gols para cada. Com imagens da TV, ficou esclarecido que Coutinho marcou 3 e Pelé apenas 1, porém, a súmula da época foi mantida, e para registro histórico é a que vale. O Diário Zycie Warszawa, de Varsóvia, abriu a manchete “Uma grande lição de futebol”, considerando Coutinho, Pelé e Pepe “jogadores perfeitos”.
 Dois dias depois e o Santos já estava na Alemanha, em Munique, enfrentando o TSV Munique 1860, a quem goleou por 9 a 1, com gols de Pelé (marcou 3, dois golaços: num deles penetrou na área, driblando os zagueiros e chutou no canto; noutro, através de belo arremate de fora da área), Pepe (fez 3: (1º) após passe de Zito, Pepe tabelou com Pelé, para receber e chutar forte; (2º) nova tabela, muita categoria, Pepe com Pelé, e o ponta-esquerda pegou de primeira estufando as redes; (3º) roubando a bola, girando em cima do zagueiro, Pepe bateu cruzado e marcou novamente), Coutinho (aparecendo livre foi quem abriu o placar), Zito (deixou o dele com chute fulminante de longa distancia, foi aplaudido constantemente) e Sormani (Após tabelar com Coutinho foi preciso para marcar em diagonal). Nessa época, cabe dizer, ‘Os Leões 1860’ era a principal equipe local, seria campeã da Copa e do Campeonato Alemão, além de vice da Recopa Europeia – o rival Bayern tinha apenas um título Alemão vencido lá em 1932. A imprensa de München concordou que o Santos tinha sido o melhor time a jogar na cidade. Ao longo da partida a torcida estrangeira ficava rente ao gramado, gritando pelos atletas do Santos. Ao fim dela, a multidão enlouquecida invadiu o campo para abraçar os santistas.

O Santos massacrou o München 1860 por 9×1 e os jornalistas e torcedores alemães ficaram eufóricos.

Depois da Alemanha o clube rumou à Itália, para enfrentar a AS Roma de Losi e Ghiggia, no estádio Olímpico, valendo pelo II Troféu Giallorosso. Um público de 89 mil pessoas assistiu o Santos vencer por 3 a 2, com gols de Dorval (2) e Pelé, depois de estar perdendo por 2 a 0 no final do primeiro tempo e, assim, levando a Taça dos italianos.

A mídia mais importante da Europa na época, idealizadora da Copa dos Campeões da Europa, em 1955-56, e do Mundial Interclubes (Conmebol x UEFA), a ser realizado naquele ano, estava concentrada na França. E passado uma semana da vitória contra a Roma, o Santos chegou ao país dos grandes editoriais, para disputar o afamado Torneio de Paris, no qual grandes equipes estrangeiras eram convidadas a disputar a taça com as principais equipes francesas. Em 07 de junho, no Parc de Princes, na cidade Luz, o Santos formou com Laércio; Calvet, Mauro, Zé Carlos; Formiga e Zito; Dorval, Mengálvio (Ney), Coutinho, Pelé e Pepe (Tite). Técnico: Lula. E enfrentou uma das maiores potencias da Europa na época, o possante Stade de Reims, maior Campeão Francês e atual campeão nacional, campeão da Copa Latina e havia sido duas vezes finalista da Liga dos Campeões da Europa. Base da seleção francesa, terceira colocada na Copa de 1958 e semifinalista da EURO-60, o Reims mantinha um grupo afamado, com Colonnam, Rodzik, Siatka, Muller, Kopa, Piantoni, Vincent e outras lendas. Essa era a primeira grande geração da França.
A expectativa foi grande pelo confronto, e fazendo valer o entusiasmo extra-campo as equipes proporcionaram um espetáculo no gramado. Em 10 minutos já ocorrera quatro gols: Coutinho no 1’ e aos 10’, Pelé aos 5’, assinalaram pró Santos, com Piantoni marcando a favor do Reims aos 8’. Pelé e Zito foram sensacionais. Tabelando desde fora da área, venceram a defensiva de Reims, Pelé então foi entrando mas a defesa impediu seu arremate, a bola sobrou com Coutinho que chutou e marcou, 1×0! Outro bonito lance, Pelé driblou um, dois, três zagueiros, e empurrou a bola devagar vencendo o goleiro Colloma. No finalzinho da primeira etapa Piantoni voltaria a marcar e, aos 5’ do segundo tempo, empata partida em 3 a 3.  Mas Coutinho, aos 19 minutos, usou a cabeça para desempatar, e Pepe, num arremate bonito, aos 28’, deu números finais ao grande jogo: Santos-BRA 5, Stade de Reims-FRA 3.

A equipe do Santos na França, partida contra o poderoso Stade de Reims.

Depois de vencer o campeão nacional e principal time francês, um dos mais possantes da Europa, o Santos enfrentou o campeão da Copa da França, Racing Paris, que terminaria o nacional daquele ano na terceira colocação. O Racing de jogadores de seleção; Tailander, Marche, Marcel e Heutte, era a principal equipe de Paris – o PSG seria criado apenas em 1970. Perfeito na execução do jogo ofensivo e produzindo um futebol velocista, o Santos amassou o adversário numa goleada por 4 a 1, com Pelé e Coutinho infernais, tabelaram em três gols santistas; no outro a bola foi passada para Pepe, que encheu o pé. O Racing só marcou o seu quando já estava 3×0. Os próprios torcedores franceses, incrédulos, riam das jogadas e dos gols santistas. A atuação levou intensos aplausos e o Santos adquiriu o belíssimo troféu do Torneio de Paris. O time campeão foi formado por Laércio; Calvet (Getúlio), Mauro e Zé Carlos; Formiga e Zito; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe (Tite). Técnico: Lula. Ganhar o Torneio de Paris repercutiu bastante na Europa, abrindo postas para excursões futuras e deixando o Santos extremamente prestigiado, pois como afirmou a Gazeta Esportiva, o Alvinegro “tomou Paris de assalto” pela primeira vez.
Entre 14 e 16 de junho, o Santos voltou a Alemanha para enfrentar o grande time germânico da época, atual Campeão Alemão e primeiro time do país a chegar numa final de Copa dos Campeões da Europa, em 1960, sendo derrotado pelo Real. Trata-se do Eintracht Frankfurt dos craques Krees, Stein, Pfaff e Meyer.
No Frankfurt Stadium, com público de 60 mil pessoas, o Santos imprimiu futebol expoente e superou os alemães em 4 a 2, com tentos de Pelé (3), Coutinho e Zito. Percebe-se que o Santos venceu as mesmas equipes as quais o Real teve êxito em seus títulos europeus no período 55-60. Na sequência, Borussia e Berlim fizeram um combinado para enfrentar o Alvinegro, no estádio Olímpico de Berlim, e o Santos virando um 2×0 repetiu êxito com 4 a 2 no placar, gols de Urubatão, Pelé, Coutinho e Sormani.
Inconformados com as derrotas, os franceses quiseram revanche e, fazendo escala também em Marrocos, o Santos voltou a jogar na França nos dias 17 e 23 de junho. No Velódromo de Marseille, o poderoso Stade de Reims foi mais uma vez sobrepujado, o Santos venceu com gols de Pelé, Dorval e Zito, eles fizeram um com Koppa. Depois foi a vez do Toulouse ser derrotado por 3 a 0, Pelé (2) e Coutinho marcaram. O tour mundial do SFC terminou na Espanha, ao qual se destacou a vitória de 1 a 0, gol de Dorval, sobre o Valencia, dos sul-americanos Joel (campeão do mundo em 58) e Hector Nunes, além da geração españa bicampeã da Taça das Taças (Feiras) nos anos seguintes. Já no fim da excursão, a CBD exigia a volta do Santos, para que houvesse a participação de Zito, Pelé, Pepe e Coutinho na Seleção Brasileira. A entidade ameaçou, pretendendo denunciar o time santista para a FIFA. E como o Barcelona já havia vendidos milhares de ingressos para a partida, também ameaçava o clube de Vila Belmiro, com um processo, caso desmarcasse o jogo. No fim, nada aconteceu, houve o jogo e logo após o Santos retornou, e seus jogadores foram para a Seleção Brasileira
O Santos Futebol Clube cumpriu uma rotina estafante de uma partida a cada dois dias, o time ganhou 15 dos 18 jogos que fez, teve um aproveitamento de mais de 88%, em duelo com as principais equipes da Bélgica, Alemanha, Itália, França e Espanha pelo Velho Continente.

Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC )
Jornal A Tribuna;

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