Fase de “mito”, do Campeão dos Campeões – (1968)

Published On 28/04/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 28/04/2017

Com um elenco reformulado, o título paulista e as grandes vitorias internacionais, o Santos F.C. se recolocava novamente entre as principais equipes do mundo ainda no ano anterior. Para 1968 as metas eram ainda maiores e, em meio a extrema agitação mundial, o Santos F.C. conduziria uma temporada perfeita ao qual conquistaria todos os títulos que disputou, sejam oficiais ou oficiosos. Como parte do calendário impecável, começou pelas excursões ao redor do mundo a legitimar o melhor futebol.
Começou os compromissos no Chile, em disputa do Torneio Octogonal – antes era um hexagonal. Dia 13 de janeiro, perante aproximadamente 70 mil pessoas, no estádio Nacional de Santiago, o Santos conseguiu uma estreia perfeita triunfando com autoridade ante a forte seleção da Tchecoslováquia, com goleada de 4 a 1, gols de Toninho (2), Negreiros e Taborski (contra). Passados seis dias, esse placar se repetiu na segunda partida que fez no torneio; Carlos Alberto (aos 10’ e aos 27’ do 2º), Toninho (aos 44’) e Negreiros (com 22’ do 2º) foram os autores dos gols santistas diante do vice-campeão chileno, a Universidade Católica de Founiloux.
Pela terceira rodada, dia 23 de janeiro, um grande desafio ao time do Santos estava pela frente, como noticiou o jornal local com a liminar “Vasas ameaça Santos invicto”. O esquadrão do Vasas SC Budapeste, era o principal time húngaro na Liga dos Campeões da Europa, esquadrão conhecido como “Majores de Vermelho e Azul”, obteve no período 4 Campeonatos Húngaros e 3 Copas Mitropa. Aquela máxima dos anos anteriores, porém, se mantinha: quanto maior fosse a fama do adversário, mais o “Time de Branco” costumava crescer e desempenhar futebol de excelência. A partida entre húngaros e brasileiros era aguardada como a melhor do torneio.
Toda aquela expectativa se mostrou válida. Mas a devoção do público foi apenas para um time, o Santos F.C., que como sempre teve Pelé endiabrado. E ele só atuou até os 9 minutos do segundo tempo, sendo poupado – entrou Douglas –, quando o Alvinegro já vencia por 3 a 0. No primeiro gol, ocorrido aos 10’, Pelé fintou Marcral excepcionalmente e quatro adversários derrubaram-no, Edu cobrou a falta e fez 1 a 0! Seis minutos depois, Carlos Alberto avançou para auxiliar o ataque e centrou a pelota à Pelé. O camisa 10 ameaçou chutar em demasia, desorganizando a defesa rival, quando inesperadamente arrematou de pé esquerdo, fez espetacular gol! Contendo os ataques húngaro quase sempre pela direita, o Santos mantinha uma pressão inteligente. Assim, aos 31 minutos, Pelé dá passe para Toninho, que engana dois zagueiros no drible de corpo e marca o terceiro gol. Molnar e Puskas (acertou uma na trave) eram quem mais levava perigo nos ataques do Vasas, mas o goleiro Claudio fazia defesas perfeitas. No período final, o Santos fez um futebol conjunto, de toques maçantes, decretou porque o adversário não poderia decodificar a sorte do jogo e ainda fez outro gol, com Edu novamente cobrando falta.
Adversário do dia 27/01, a Univeridad de Chile foi a única equipe que conseguiria vencer o Santos no Octogonal, num placar apertado (2 x 1). Um feito enorme para eles, como consta em página oficial, mas aquela derrota pouco significou para os santistas. Quatro dias depois, Antoninho formou o time com Claudio; Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel e Geraldino; Lima e Negreiros (Clodoaldo); Orlandinho (Wilson), Douglas (Oberdan), Toninho e Edu. O oponente era ninguém menos que o Racing Club, da Argentina, de Cejas; Vilanoba, Chabal, Diaz e Ruli; Basile e Maschio; Craldu (Cardoso), Wolf, Cardenas e Salomone. Atual Campeão da Libertadores e primeiro argentino campeão Mundial, no período ainda foi campeão argentino.
Quando a bola rola, argentinos e brasileiros iniciam uma peleja bastante tumultuada. Pior para o Santos, que além de jogar sem Pelé, teve de segurar o resultado quando Joel foi expulso após agredir Salomone. O clima de tensão foi constante, o Racing queria o êxito a qualquer custo, vencer o Santos (que preferia não disputar a Libertadores) era para qualquer time uma prova inequívoca de ser o melhor. Para conter o ataque santista, os defensores portenhos, principalmente Rulli e Basile, abusaram do jogo violento e todo resto da provocação. Por algum tempo o jogo violento dos argentinos teve efeito, depois o Santos passou a dominar o meio-campo, Orlandinho aproveitou passe de Toninho e abriu vantagem aos 23 minutos. Com 35’ Douglas teve chance clara de ampliar, porém, somente na segunda etapa o placar mudou, Cárdenas empatou para o Racing. O Santos precisou de alguns minutos para reequilibrar o jogo e passar novamente a prevalecer. Aos 40 minutos, o genial Edu entrou na área, passou por dois defensores, chutou para o gol e Cejas rebateu, na sobra Toninho completou, 2 x 1! Mais uma grande vitória internacional.
Antes da partida do dia 02 de fevereiro, o dirigente santista Nicolau Moran veio a falecer, abalando bastante o emocional do elenco Alvinegro. Apesar do ocorrido, porém, o Santos encarou o principal clube do Chile, o Colo Colo. Toninho abriu o placar aos 7 minutos, Capot empatou aos 25’, mas aos 37 Clariá acabou fazendo contra e o Santos encerrou na vantagem inicial. Na etapa complementar, Douglas aos 12’ e Edu aos 33’, fecharam com goleada de 4 a 1! O resultado acabou sendo uma grande homenagem ao dirigente!
Outra belíssima homenagem foi dos organizadores que alteraram o nome da taça para “Taça Nicolau Moran”. Para a última pugna do Torneio Octogonal, dia 05 de fevereiro, no estádio Nacional de Santiago com aproximadamente 70 mil pessoas, o Santos do técnico Antoninho formou com Cláudio; Carlos Alberto Torres (Negreiros), Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Clodoaldo e Lima; Wilson, Toninho Guerreiro, Douglas e Edu. O enfrentamento se deu perante a forte seleção da Alemanha Oriental de Welgang; Urbanczyck, Wruck, Bransch, Kormer e Frassdorf; Hoge e Noldner (Kreige); Frenczel, Irmscher e Vogel.
Antes do início do jogo, houve dificuldades sobre os uniformes das equipes. Depois de muita discussão (ao qual envolveu o dirigente santista Clayton Bittencourt), o Santos resolveu usar o uniforme listrado, pela primeira vez no torneio. Os alemães entraram com camisas e meias brancas e calções azuis. Com a partida em curso, o Santos construiu a vitória na primeira etapa, inaugurou o marcador aos 6 minutos, com Toninho, tendo Negreiros fechado a conta com mais dois gols, aos 20’ e aos 32’. Vogel fez o gol de honra da Alemanha. Os chilenos, fanáticos por futebol e pelo Alvinegro, se comoveram em aplausos de pé observando a volta olímpica do Santos. O vestiário foi invadido, com todos festejando mais uma conquista internacional. Se não houve a tradicional batucada que sempre encerra todas as festas peixeiras, era dia de homenagear a memória de Nicolau Moran.
Em seguida a delegação santista voltou para o Brasil, para a disputa do Campeonato Paulista. Mais uma vez o time sobrou na competição, deferindo diversas goleadas e foi campeão com várias rodadas de antecedência – fato que motivou o fim dos pontos corridos. Após a conquista, ocorreu um amistoso na Vila Belmiro, contra o Boca. Uma partida que foi um marco pioneiro: a partir dessa data o SFC passou a usar 2 estrelas sobre o escudo em comemoração ao Bicampeonato Mundial de futebol em 1962/63, inspirando outras atribuições parecidas.
Com o fim do estadual ainda no primeiro semestre, o Santos aproveitou para mais uma rota de excursões até setembro, passando por Europa, Estados Unidos e América Latina. Na Itália, o Santos venceu o Cagliari (quinto colocado no Italiano, com Cera, Boninsegna, Nenê e outros, base do esquadrão de 70) por 2 a 1, dois gols de Toninho, e o Alexandria por 2 a 0 (gols de Pelé e Toninho), antes de uma série de três partidas contra o popular SSC Napoli. A squadra de Nápoles formou uma geração histórica (Ferrara, Bianchi, Juliano, Altafini, Barison, entre outros), além de ter sido um dos quatro melhores clubes italianos numa época competitiva entre Milan, Inter e Juventus, e campeão da Taça dos Alpes, em 68 terminaria como vice-campeão italiano e ainda conquistaria a Copa da Itália nesta década. Na primeira peleja o Santos venceu por 4 a 2, tendo Toninho (3) e Pelé marcando os gols. A presença de Juscelino Kubitschek (exilado) nas tribunas desse jogo foi enfatizada na imprensa, a censura já estava presente no Brasil e JK não era bem visto pelos militares.
Na segunda partida em New York, Estados Unidos, dia 26 de junho, no Downing Stadium, o Napoli veio querendo a revanche e foi ao ataque, fazendo o primeiro gol do jogo aos 5 minutos com Cané. Mas, dois minutos depois, de uma distância de 40 metros, Pepe soltou uma bomba com o pé esquerdo, a bola ainda bateu no travessão antes de entrar (1 x 1). Com 20 minutos, Pelé também acertou um arremate distante, após passe de Toninho e virou o jogo para o Santos. Cinco minutos depois, Pelé fez o cruzamento para a área, onde Toninho só teve o trabalho de mandar a bola para o fundo das redes. Toninho ainda fez o quarto gol, aproveitando outro passe de Pelé. Ainda na primeira fase, Toninho perdeu um pênalti que ele mesmo sofreu. No segundo tempo, Barison diminuiu para o Napoli, mas dois minutos depois Pelé ampliou para 5 a 2. A contagem foi encerrada aos 29’, quando Pepe chutou com violência e sem possibilidade para Battara defender. Pepe e Pelé saíram muito aplaudidos e como os melhores em campo.
Por parte dos italianos eclodia um inconformista tremendo com relação ao Santos. Rivalidade criada e acentuada nos próximos anos. Nesse período os italianos eram os atuais campeões da Europa, feito de alguns dias atrás, e propagavam condição de melhores da Europa, com seu clubes e campeonato nacional competitivos. Fase a qual o “Catenaccio” italiano estava forte e famoso. Na década, os clubes italianos formaram verdadeiros esquadrões (Juventus, Milan, Inter, Roma, Napoli, Cagliari, Fiorentina…), ganharam 4 Liga dos Campeões da Europa, Recopas Europeias e três Mundiais de Clubes, entre outros. Depois do país ser defasada pela Guerra, além dos clubes a Seleção Italiana voltava a ser um centro da Europa pelo modelo de jogo robusto e pelo título da Eurocopa, ainda ocorreria o vice mundial em 70. Diante de tudo isso, o Santos acabou sendo um grande desafeto.
Era preeminente a condução do “Futebol Arte”, praticado pelo Santos, numa espécie de provocação ao modelo de jogo italiano. Desde o início da década o Alvinegro vinha construído grandes vitorias na Itália, abatendo Internazionale, Juventus, Roma e a vitória no Mundial diante do Milan. Como um dos principais clubes daquele período também, com jogadores selecionados na conquista europeia, o Napoli foi para mais um duelo com o Alvinegro querendo de toda forma honrar o seu país.
Ainda nesta temporada o Santos venceria a Internazionale de Milão – a mais idealizadora do modelo “catenaccio” – dentro do Giuzeppe Meazza, conquistaria a Recopa Mundial e obtendo alcunhas de “Campeão dos Campeões Mundiais”. Mas, voltemos ao Napoli…
Dia 28 de junho ocorreu a partida mais emblemática dos santistas contra Nápoles. Com grande interesse da imprensa italiana, a peleja foi muito tensa e nervosa. Ao termino do primeiro tempo, o Santos já vencia por 3 a 1. Mal foi reiniciado o embate, quando Pelé preparava arremate, foi ferozmente barrado dentro da área por Zullini. Toninho cobrou a penalidade e aumentou. Depois Altafini diminuiu e dá novo ânimo ao Napoli. Pelé, entretanto, marcou aos 40’ o quinto gol santista. Os italianos vieram durante todo tempo abusavam de atitudes ríspidas, o jogo ficou pegado, com faltas violentas e tumulto! Foram expulsos Lima e Bianchi, houve paralisação de 10 minutos, intervenção da polícia com o arbitro Harry Sadler saindo de campo escoltado, e o público com os nervos a favor da pele. Assim, usando um misto de raça e técnica, o Alvinegro derrubou mais um europeu.
Depois seguiu para os Estados Unidos, e mesmo jogando dia sim, dia não, o Time de Branco obteve seis vitorias em oito jogos, com algumas goleadas (as maiores foram o 7 a 1 no Boston e os 6 a 2 no Atlanta). Na sequência, já na América do Sul, bateu a seleção Olímpica da Colômbia por 4 a 2, numa partida a qual Pelé foi expulso e a torcida expulsou o arbitro, exigindo retorno do Rei.
No retorno ao Brasil descansa 15 dias e segue para outra excursão pelo norte/nordeste do País. Do Amazonas o Alvinegro segue para a Argentina, em disputa a Taça Cidade de Buenos Aires ou “Pentagonal de Buenos Aires”. Cinco esquadrões duelam pela conquista: Boca e River (Argentina), Santos (Brasil), Benfica (Portugal) e o Nacional (Uruguai).
Na noite do dia 15 de agosto, estádio La Bombonera, fazendo sua estreia o Santos foi a campo com Cláudio; Carlos Alberto, Ramos Delgado, Oberdan e Rildo; Joel Camargo e Lima (Negreiros); Amauri, Toninho, Pelé e Pepe (Almiro). Em jogo bastante agitado, o primeiro tempo não foi proveitoso aos brasileiros. Aproveitando um contra-ataque, o uruguaio Cubillas abriu o placar para o River, aos 18’ do jogo, em posição irregular. Aos 17’, ocorre um desentendimento entre Pelé e Reccio, ambos acabam expulsos. No minuto 25, Toninho sofreu um pênalti que não foi acusado pelo juiz. As coisas mudaram somente na etapa complementar, logo aos 4 minutos, Toninho reestabelece o empate depois de uma jogada que participaram Pepe e Lima. Sabendo conter o River e prosseguir numa pressão elevada, o Santos consegue o desempate aos 23 minutos, quando Lima trocou passes com Joel e entregou a Toninho para marcar, 2 a 1.

Três dias depois, contra o Benfica vice-campeão da Europa, sem mostrar muito esforço o Santos deferiu 4 a 2! Atuou com o futebol agressivo de sempre, encurralando os portugueses na defesa. O campo bastante alagado não impediu o bom espetáculo. Com 7 minutos Pelé levou toda a defesa do Benfica e deixou Toninho livre à frente do goleiro José Henrique, para fazer 1 a 0. Ramos Delgado e Oberdãn neutralizaram o grande Eusébio, enquanto Coutinho, apesar da idade, destacava-se entre os portugueses. O gigante centroavante Torres, 2 metros de estatura, preocupava, pois, o Benfica exagerava na tentativa de bolas aéreas. Mas como a ofensiva vermelha não intensificava, Lima e Joel aproveitaram para ir à frente, apoiar o ataque, dando preocupação aos portugueses. Assim, Pelé fica solto do meio para a frente, faz grande jogada e lança Toninho, que aproveita e conclui o segundo gol. O panorama do jogo não mudou muito na segunda etapa, tanto que com 3 minutos, Toninho fez mais um (3 a 0)! Um minuto depois, aproveitando o comodismo do Santos, que passou a subestimar o adversário, Tony (substituindo José Augusto), diminuiu para o Benfica. A resposta santista veio aos 20 minutos, outra vez Toninho assinala após passe de Pelé. Até o fim o Alvinegro controlou a partida, apesar de mais um gol português. Jornais argentinos (La Nacion e Clarín) circularam a vitória do Santos como “fácil e cômoda”, considerando o quadro brasileiro “quase imbatível e completo”.
Nas rodadas seguintes o Santos enfrentou dois adversários tradicionais para buscar mais uma taça. No dia 20 de agosto, enfrenta “La Academia de José” formado pelo Racing, atual campeão continental e mundial, empatando por 2 a 2, com gols de Carlos Alberto e Pelé. Até aquele momento o Boca tinha 4 pts, Nacional e River 3 pts e o Benfica 2 pts. Possuidor de 5 pontos, o Santos teve diante do Boca uma decisão e para levar a taça bastava um empate. E foi o que ocorreu, um novo empate (1 a 1), cinco dias depois, diante do Boca Juniors em La Bombonera, e o Santos F.C. assegurou mais uma conquista dentro da Argentina, o Pentagonal de Buenos Aires.
Embora exausto de bola, quatro dias depois, os “Globbetrothers Santásticos” regressaram para os Estados Unidos. Mais três jogos, passando por Atlanta, Califórnia e Nova York o Santos é uma grande atração motivacional para a pratica do “soccer”. Nessas partidas, obtém duas vitórias e um empate. Em setembro começa o Campeonato Brasileiro, outra competição vencida pelo Santos. As conquistas da Supercopa Sul-Americana (em partida no El Cilindro, 3 a 2 no Racing-ARG) e a Recopa Mundial (impondo 1 a 0 na Internazionale-ITÁ, base da Itália campeã europeia, dentro do Giuzeppe Meazza) fechariam a temporada de Ouro do Alvinegro, assumindo a alcunha da Quadrupla Coroa (Paulista, Brasileiro, Supercopa Sul-Americana e Mundial).

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

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