Gesto de Fidalguia – 1918

Published On 31/07/2017 | Memória Santista
Por Kadw Gomes
Santos, 31/07/2017

Não havia dúvidas, pelos quadros compostos de craques em 1918, tanto Santos quanto Botafogo tinha dois dos melhores times do futebol brasileiro.
Fazendo conjecturar, se o futebol brasileiro fosse profissional com um campeonato nacional em disputa naquele tempo, certamente, seriam dois dos times com capacidade de pleitear a conquista. Porém, sem um torneio vigente, que coloca-se frente a frente os principais esquadrões do país, a única forma de medir forças era através dos amistosos interestaduais, naquela época imensamente prestigiados.
E o Santos sabia bem disso. A ponto de convidar o Botafogo, então líder do Campeonato Carioca, para medir forças na Vila Belmiro. A equipe carioca, dona de três títulos estaduais até então, mantinha uma base forte, perfeitamente distribuída e formada por grandes jogadores, como o artilheiro do carioca de 1917 e 18, Luiz Menezes. Naquele ano, o Botafogo chegou a vencer os principais clubes cariocas, como America (5×1), Flamengo (3×0), Bangu (3×0), a exceção do Fluminense, e derrotaria no ano seguinte os inventores da bola, goleando duas vezes equipes inglesas em jogos internacionais.
Mas, já com certa identidade nacional, os jornais descreviam o Santos como “um time temível e de valor. (…) forte e perfeitamente exercitado. Com uma linha de forwards, sobretudo, de que são leardes Millon, Ary e Arnaldo, dispondo de um jogo veloz e combinado, capaz de dominar qualquer adversário. Valoroso e digno de consideração. (…) A eleven santista apresenta um jogo dominante e organização modelar”. Tanto que na primeira década, o Santos foi o clube com mais convocações para a Seleção Brasileira e uma base da primeira conquista em 1919. O Alvinegro terminaria 1918 como vice-campeão paulista, tendo no currículo a vitória sobre o forte concorrente Corinthians (4×2) e o campeão Paulistano (1×0).
Quem pensa que o “clássico interestadual Santos x Botafogo” só protagonizaram duelos repletos de jogadores de Seleção Brasileira nos anos 60, comete um equivoco histórico. Nesse partida do dia 14 de abril, eram cinco atletas nacionais, três do Santos (Haroldo, Millon e Arnaldo) e dois do Botafogo (Osny e Menezes), os mesmos a exceção de Osny – machucado – foram campeões Sul-Americano em 1919.
A Vila Belmiro estava lotada, no campo a presença da imprensa carioca. O arbitro Godinho Cerqueira apita o inicio e o Botafogo toma as primeiras ações com Santinho. Na sequencia, o Santos responde com Marba. Em valência de individualidades ou jogo coletivo as equipes se equilibravam nos primeiros 20 minutos.
Pelo Santos as tramas eram orientadas por Arnaldo Silveira, que lançava nas costas do adversário carioca jogadores velozes como Millon e Marba, ou irradiava perigosos arremates de Ary. Enquanto o Botafogo preferia a calma, enervando a meta santista através das jogadas de Adherbal e Santinho, para tentativas de Menezes (o craque do time) ou Celso. Com mais molejo, aos 28’, o Botafogo fez uma investida eficiente, Santinho e Menezes tabelaram, e o meia Petiot aproveita livre para marcar 1×0!
Mas não demorou muito para uma reação santista, que abusando da troca de passes e velocidade, começa a controlar inteiramente a defesa carioca. Curiosamente a partir dos 30 minutos, o Santos tratou de abafar o quadro carioca sem respiro, com muita intensidade e veio um bombardeio de gols. Em um contra-ataque, Haroldo Domingues foi preciso centrando Millon, este domina e já se manda em diagonal, até que percebe a saída do goleiro botafoguense e chuta por baixo, empatando.
Três minutos depois, sem deixar ao menos os botafoguenses se organizarem, Ricardo recupera o couro no meio e entrega à Arnaldo Silveira, este com muita leveza consegue passar por três jogadores e leva em profundidade na ponta esquerda, cruza à área e Ary aplica cabeçada fulminante, era a virada santista: 2×1! Aos 35’, jogada parecida, mas desta vez se envolvem no lance Marba e Arnaldo, que utilizam inteligencia numa tabela, Arnaldo manda de primeira a pelota na área, Ary sobrepõe dois botafoguenses, entre eles Osny, e marca novamente de cabeça.

Só bastou mais um minuto. Agora foi a vez de Haroldo Domingues propor o jogo, passando por dois adversários e entregando a Jarbas, que devolve na frente para o meia, Domingues cruza e quem aparece pro cabeceio? Ary! Ary Patusca, livre, marca mais um tento de cabeça, dessa vez sem maiores dificuldades. Nesse momento, dizem que se podia ouvir na torcida santista o cântico:
“Coisa igual não se conhece,
Coisa igual eu nunca vi,
Pois que nada se parece,
Ás cabeçadas do Ary”.
Foi um verdadeiro vendaval de gols santistas em dez minutos. Arnaldo Silveira novamente desestrutura a defesa botafoguense, deixando Osny sentado, passa para Domingues, que evolui jogada na outra ponta com Millon, este devolve o couro rapidamente, deixando Domingues sem dificuldades para guardar na meta carioca já aos 40’, 5×1!

Quando inicia o segundo tempo, Millon aproveitou o vacilo defensivo adversário, utilizou da velocidade e tratou de marcar o sexto gol do Santos (passeio)! Pouco depois, em nova jogada individual de Millon, é faltosamente abraçado na área! Penalti! Na cobrança, Arnaldo Silveira se aproxima do centro… nesse momento os jogadores botafoguenses, desesperados, se dirigem a ao craque santista pedindo para não assinalar mais um, pois já estavam sendo ferozmente derrotados, seria uma humilhação. Pedido aceito. Propositalmente, num gesto de fidalguia, Arnaldo chuta para fora, sendo abraçado pelos botafoguenses na sequencia. A torcida respeita mas não acredita na atitude, alguns aplaudem.
A partir daí o Alvinegro de Vila Belmiro sentou na vantagem. Momento ao qual, inteligentemente, o Botafogo aproveitou para reagir, dando trabalho ao goleiro santista Costa e Silva. E aos 31’, finalmente, Menezes atira de longe e diminui. Quem imaginava uma reação carioca a partir dali errou feio. O gol irritou os santistas que haviam desperdiçado uma penalidade. E com isso, apenas dois minutos depois, Marba aproveitou uma sobra em ataque chutado por Ary, no rebote pegando de imediata com força, 7×1!
Se antes Arnaldo Silveira se sensibilizou com o rival, não pode fazer o mesmo quando recebeu um passe de Haroldo Domingues, em perfeitas condições, para marcar: chute preciso no canto direito do goleiro Abrel! A fulminante ofensiva santista se inspirava contra grandes adversários, a linha toda se agrupava para intensificar matches belíssimos. Justamente contra o então líder do Campeonato Carioca de 18, que o Santos empenhou seu performático jogo de dominância e denotou 8 a 2! O Botafogo seria o vice-campeão carioca de 1918.

Fontes e Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC;

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