Globbetrothers: Nos últimos Giros com Pelé – (1973-74)

Published On 10/06/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 10/06/2017

Apesar de não mais espetacular como anos atrás, nessas temporadas (1973 e 74) o Santos voltaria a reeditar um belíssimo futebol ofensivo e eficiente relembrando seus grandes momentos. Para tanto, contratou alguns jogadores: Hermes (lateral direito, vindo do Coritiba FC); Arlindo (atacante, em testes, proveniente do Saad EC) e principalmente Marinho Peres (brigado com a Portuguesa), que faria da defesa antes criticada uma fortaleza.
A programação era mantida. Iniciando fevereiro, o Santos F.C. parte para mais uma turnê global, sendo esta uma das maiores de sua história se tratando de distância. A ousada excursão teve um roteiro bem extravagante: Austrália, Oriente Médio, Norte da África e Europa. Em pouco mais de um mês o time visitaria 12 países e 4 continentes.
Apesar de quase sempre atuar debaixo do Sol escaldante do deserto, ou em campos de areia, o Santos conseguiu bons resultados e satisfatoriamente entrosamento. Além do objetivo de disseminar o futebol em lugares exóticos. Na Austrália (dia 02/02) fez sua estreia vencendo por 2 a 0; uma semana depois, na Arábia Saudita, repetiu o 2 a 0, contra a Seleção do país; em um campo completamente de terra, empatou (1 x 1) no Kuwait, enfrentando o Al Kadisiah. Em Doha, no Qatar, retomou êxitos com um 3 a 0 sobre o combinado nacional. Depois aplicaria algumas goleadas: 7 a 1 na Seleção do Bahrein, em Bahrein; pelo Egito fez 5 a 0 no Al-Ahly e 4 a 1 no Al-Nasser. Também deu uma passadinha no Sudão, perante público de quase 66 mil pessoas, vencendo (1 x 0) o Al-Hilal Omdurman.
De quase um mês em jogos com um calor infernal do deserto, vem o choque térmico: a delegação parte para o frio da Europa, chegando dia 27/02, final de um intenso inverno na Alemanha. Na partida, um dos adversários era o fortíssimo combinado Bayern München/Nuremberg, o outro era a neve de quase 20 cm, além da temperatura de -8ºC, e os santistas treinados pelo técnico Pepe sentem a mudança de clima, tendo uma atuação péssima, e perdem por 3 a 0. Pouco mais de uma semana depois, o time viaja até a França, e num jogo equilibrado empata (gols de Pelé e Alcindo) com o Bordeaux/FRA por 2 a 2. Nos últimos três jogos, um teve maior repercussão, sendo outro grande momento do Santos pela Europa, quando vai até a Bélgica enfrentar um dos melhores times da história daquele país.
Tetracampeão da Bélgica (1969-73), um dos seis melhores times da Europa na última Copa dos Campeões da UEFA, base da Seleção Belga 3º colocada na Eurocopa-72, o Standard Liége/BEL era um esquadrão que tinha como destaques Piot, Thissen, Dolmans, Mussovic e Semerling. Mas longe de qualquer intimidação, o Santos era acostumado com grandes adversários e o retorno do seu bom futebol já era uma realidade. Depois de um primeiro tempo mais truncado, tendo uma defesa concisa comandada por Carlos Alberto, Léo e Brecha fazendo a proteção no meio, e o ataque conseguindo ótimas invertidas, o segundo tempo foi de imposição santista. Jair da Costa, Pelé e Alcindo firmaram seus golpes fazendo a barreira Belga (Piot-Thissen-Dolmans) trabalhar! Mas foi o ponta-esquerda Edu quem furou o bloqueio, com seus dribles e movimentação, assinalou o único gol do jogo aos 27 minutos, para mais um mérito do Time de Branco.
Na sequência, sem tempo para descanso, o Santos retorna ao Brasil para a disputa do Campeonato Paulista. Ao final do 1º turno, ao qual o Santos foi líder e ganhava direito a finalíssima, a competição foi paralisada para a Seleção Brasileira fazer uma – desastrosa – excursão à Europa (Clodoaldo, Edu e Brecha foram convocados). O Alvinegro aproveita e ruma para os EUA. Na segunda parte das Excursões, o Santos visitou nove cidades norte-americanas e recebeu a quantia de U$ 20.000 por partida.
Em seu primeiro compromisso um grande adversário. A tradicional e popular SS Lazio, havia sido terceira colocada no “Calcio” em 73 e seria a campeã italiana em 1974. Dentre os destaques do esquadrão “Biancocelesti” estavam Giuseppe Wilson, Re Cecconi, Garlaschelli, Frustalupi, Mazzola e Chinaglia, formando uma das melhores equipes da Europa. Na primeira partida, dia 25 de maio, em Nova Jersey, depois de um primeiro tempo equilibrado que terminou 1 a 0 para o Alvinegro com gol de Pelé, o Santos conseguiu postular impressionante velocidade e transições na segunda etapa, deixando o adversário inteiramente batido. Com menos de 15 minutos, marcou dois gols: Eusébio aos 10’ e Léo Oliveira aos 13’. Entretanto, jornais italianos afirmavam que a Lazio não deixaria as coisas assim, e que na segunda partida conseguiria trazer a vitória contra “o time de Pelé” na bagagem.
Com atraso devido às fortes chuvas, três dias depois, ocorre o segundo confronto, no estádio Hanson, em Chicago. Até se esperava uma proposta mais forte dos futuros campeões italianos, mas no decorrer da primeira etapa, o Santos foi radicalmente superior. Com apenas 7 minutos Pelé abre o placar. Aos 30’, novamente o camisa 10 é inapelável, atirando forte e vazando o goleiro Pulici (2 a 0). Fazendo uma jogada individual, Pelé tem o controle do couro, observa, e passa perfeitamente para Jair da Costa, que em posição vantajosa finaliza no canto direito: 3 a 0! Chinaglia ainda diminui para a Lazio, terminando assim a fase inicial. Com um campo encharcado pela chuva no segundo tempo, os italianos cercaram sua defesa e ao mesmo tempo conseguem se armar melhor no ataque. Aproveitando descuido da defesa santista, em um contra-ataque, a Lazio consegue o segundo gol (La Rosa). E parecia ter forças para buscar o empate, porém, quem retoma as afeições é o Santos: Jair da Costa faz 4 a 2! Liquidando a mais poderosa “squadra di cálcio” italiano daquela temporada.
Após fazer 6 x 4 no Baltimore Bays-EUA (em Baltimore), o Santos vai até Oklahoma dia 1º de junho, no estádio Coliseu, enfrentar o maior Campeão Mexicano (tinha oito nacionais, conhecido como “El Campeoníssimo” ) na época, além de Campeão Continental da CONCACAF e mais popular das equipes mexicanas, Chivas Guadalajara.
Criando boas oportunidades, mas sem conseguir tirar o zero, os “Rojiblancos” são mais intensos no primeiro tempo. Grande mérito da defesa santista (Cejas-Zé Carlos-Marinho-Vicente-Turcão), neutralizando os mexicanos. Em um lance mais polêmico, Jair avançou na velocidade e foi derrubado por Gomez, que foi expulsou e deixou o Chivas com um a menos. A partida ficou 10’ interrompida. Na segunda fase, o Santos fez valer seu jogo técnico e aproveitou a vantagem de atletas, fazendo o histórico goleiro mexicano Calderon operar milagres na meta. Aos 22 minutos, porém, depois de intensa pressão, Pelé dribla quatro defensores, chuta com violência de forma rasteira e a bola encaixa no canto direito: 1 x 0, Golaço! Depois o Chivas jogou com praticamente todo o time na defesa e aguentou o resultado mínimo. Pelé foi muito aplaudido.
Por ter feito bom jogo, credenciar o resultado a expulsão de um atleta, os mexicanos confiavam numa vitória três dias depois. Entretendo, mostrando superioridade, o Santos novamente venceu: 2 a 1, com gols de Pelé e Léo Oliveira. Em Miami (06/06), o Santos goleia o Miami Toros por 6 a 1, ocasião que passou a ser comemorado como o “Dia de Pelé”. Quatro dias depois, na Filadélfia, goleia o Arminia Bielefeld (time da 1º divisão Alemã) por 5 a 0, e em menos de uma semana faz 7 a 1 e 4 a 0 (Pelé marca um gol olímpico e no final da partida vira goleiro) no Baltimore Bays-EUA; além de 2 a 1 no Rochester Lancers-EUA, o Santos recebe um diploma da Câmara de Rochester.
Apresentando novidades (o atacante Hélio Pires e o veterano ponta Marcos), o Santos retorna ao Brasil para o recomeço do Paulista. Ao longo do segundo turno, o Alvinegro aproveita para fazer dois importantes jogos internacionais: enfrenta a Seleção Chilena (que se preparava para a Copa) e o CA Huracán (Campeão Argentino).
Com o slogan “O Último Grande Espetáculo de Pelé em Buenos Aires”, além da presença do lendário goleiro argentino Augustin Cejas e dos campeões mundiais Carlos Alberto e Edu, o desafio internacional do Santos contra o Campeão Argentino, Huracán, dia 05 de dezembro, despertou grande interesse das pessoas na Argentina, lotando (35 mil) o estádio “El Palácio”. A forte equipe portenha tinha valores como Brindisi, Babington, Avallay e Houseman, no banco a presença de César Luis Menotti (que havia jogado no Santos em 68), futuro campeão do mundo comandando a Seleção Argentina em 1978.
A pressão inicial é toda do time argentino, com o apoio da torcida, troca de passes e chutes médios, leva perigo a meta de Cejas. Com a vigilância de praticamente toda a zaga adversaria, Pelé fica completamente marcado. Aos poucos, o Santos tem boas oportunidades, conseguindo o gol aos 31 minutos. O ponta-esquerda Edu, cobrando uma falta, a 15 passos da grande área, chutou sem muita violência. O goleiro Roganti, quis espalmar a bola, mas acabou deixando que ela entrasse na meta. Ainda melhor no segundo tempo, o Alvinegro amplia logo no primeiro minuto, Edu tenta, mas a bola sobra, Pelé pega o rebote e encobre num leve toque o arqueiro argentino (2 x 0, golaço que valeu o ingresso!). Pouco depois, após ataque do Huracan com Hermes acertando a trave, Edu lança e Pelé domina, dá um chapéu magistral no marcador, e inicia contra-ataque com perfeição, maravilhando a plateia. Aos 8 minutos, Léo Oliveira recebe livre (os argentinos reclamaram de impedimento) e faz 3 a 0! Na tranquilidade da vantagem o Santos busca menos o ataque, enquanto os argentinos não têm qualquer reação e parecem aceitam a derrota. Até que aos 34’, com um chute de fora da área, Léo Oliveira surpreende Roganti e encerra a goleada de 4 a 0. A despedida do Rei do futebol em Buenos Aires, na Argentina, é um sucesso completo.
 Conseguindo manter o alto nível de atuações em 1974, o Santos teve seu melhor momento quando disputou, chegando as fases finais como favorito, o Campeonato Brasileiro daquele ano. Porém, surpreendentemente, acabou perdendo para o Cruzeiro no Morumbi ficando de fora da finalíssima e terminando na 3º colocação.
Naquele ano melancólico para o futebol brasileiro e para o clube, foi principalmente data da despedida de Pelé, ocorrente dia 2 de fevereiro, próximo dele completar 34 anos, quando diante da Ponte Preta ele ajoelhou no gramado da Vila Belmiro e deu adeus. Nas apresentações que fez pela Espanha, o Santos deixava a desejar: na disputa do torneio Ramon de Carranza o Alvinegro perdeu seus dois compromissos, com destaque para o encontro de Pelé e Cruyff. Apenas dia 03 de setembro, o time conseguiu se redimir, ao enfrentar o terceiro melhor time da Espanha. No estádio La Romareda, uma bela partida acompanhada de disposição das equipes e reviravoltas. Somente aos 36 minutos a rede balançou, Iriarte colocou o Zaragoza na frente. Sete minutos depois, Arrua aumentou para os espanhóis e no minuto seguinte Pelé diminuiu para o Santos. Na segunda fase, com 16 minutos, Clayton empata para o Alvinegro (2 x 2). Até que, finalmente, aos 36 minutos veio a definição: Pelé marca o terceiro dando a vitória santista.
Já em 1975, destacou-se a vitória por 2 a 0 sobre o Huracan, da Argentina. Depois, um hiato de três anos dos santistas sem jogar pelo exterior.

Fontes/Referências:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornal Estado de S. Paulo.

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