Guerras interrompidas para o time dos céus, na terra – (1969)

Published On 01/05/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 01/05/2017

A última temporada da segunda geração brilhante do Santos formada nos anos de 1960, correspondente a uma das dinastias mais vitoriosas do mundo e a maior do futebol brasileiro: Os Santásticos (1955-1970). O poderoso esquadrão que se consolidou no segundo semestre de 1967, seguiu consumindo títulos/troféus com triunfos monumentais, feitos e façanhas lendárias, encerrando seu ciclo na temporada de 1969. Sendo, porém, a última grande contribuição ocorrente no ano de 1970, quando base principal da melhor Seleção Brasileira de todos os tempos, Tricampeã Mundial no México.
As perspectivas para 1969 eram as melhores possíveis. Fomentando ainda mais, quando logo nos primeiros meses foram contratados o zagueiro-central Djalma Dias e o ponta-direita Manoel Maria, dando ainda mais consistência no elenco.
Nesse ano a turnê mundial começou reservando a famosa excursão à África. Para pesquisadores do clube foi uma excursão tão cheia de histórias, que não há um limite real entre a lenda e o fato. Assim, retratemos os acontecimentos factuais, embora os mesmos pareçam lendas também. Isso porque o clube era tratado como a presença dos Deuses da Terra. Em meio as constantes homenagens, premiações, banquetes e o fanatismo das multidões, o Santos FC teve compromissos de 17 de janeiro até 09 de fevereiro, enfrentado seleções da África Negra. Nesse ínterim, a equipe de branco ainda arranjou tempo para enfrentar uma forte escola europeia.
Larga repercussão teve a chegada do Santos FC ao continente africano. O Alvinegro foi um embaixador também desta nova rota que os clubes sul-americanos passariam a seguir. E o “Time de Branco” chegou afiado, metendo 3 a 0 no primeiro compromisso. Dois dias depois, na segunda partida que fez, com presença do Presidente da República do Congo, Ngouabi, o Santos enfrentou a violência da Seleção de Congo e a passividade do arbitro local, que permitia a violência dos africanos. Revoltado com a situação Pelé exclamava: “Le macth est fini”! Sendo um jogo bastante ríspido na primeira parte. Observando as ocorrências, o Presidente do Congo manda um bilhete para o árbitro comunicando: “O Santos está aqui para dar um espetáculo e eu quero assistir esse espetáculo. Você tem que apitar direito o segundo tempo. Se isso não acontecer, você será preso”. Dessa forma, o arbitro mudou rapidamente a postura, os congoleses não e, logo no início da segunda etapa, o Santos tem uma falta para cobrar: Pelé assinala (1 x 0)! Aos 20’ Pelé voltou a marcar, depois mais jogadas violentas na área, o juiz marca pênalti, Toninho converte para o Santos, fechando placar em 3 a 2. Um novo encontro (21/01) e outra vitória do SFC por 2 a 0.
Segue as aventuras do Alvinegro pela África Negra, e As Guerras serão paralisadas para o Santos FC jogar! Sobre este fato, prepondera a questão de todos quererem prestigiar um MITO. É o estágio que alcançava a dinastia (1955-1970), como reconhecido pela publicação italiana La Gazzeta Dello Sport. Há tempos, como em reportagem do canal argentino D’Filme, o time era condecorado como o mais famoso do mundo e Pelé um ídolo supremo. A vontade de ver os “Globbetrothers do futebol” era imensurável e superava qualquer conflito humano!
Para que o Santos deixasse Brazzaville (República do Congo) e chegasse a Kinshasa (República Democrática do Congo), seria necessária a travessia de barco pelo Rio Congo, suspensa pelo conflito. Só que na época as duas nações estavam em estado de conflito constante, inclusive com o rompimento de relações diplomáticas, comerciais e transporte. Foi neste instante que, a presença do Time de Branco, provocou uma trégua. O Governo de Kinshasa enviou uma embarcação para buscar o Santos e o Governo de Brazzaville permitiu o embarque da delegação santista. O resultado foi o que menos importou (2×3). O armistício no conflito armado foi de enorme impacto, um feito único e inigualável de uma equipe de futebol. Segue texto da Revista Santástico: “Era como se anjos celestiais descessem, com suas vestes brancas, para trazer paz, beleza e alegria àquelas pessoas torturadas pela miséria, pelo ódio e pela incompreensão. Por um momento infinito, todos falaram e entenderam a linguagem do amor ao futebol”.
Após jogar em Kinshasa, a delegação santista voou para lagos, para enfrentar a Seleção Nigeriana (2 a 2) dia 26 de janeiro, na época o país vivenciava a Guerra de Biafra. O sucesso extremo da apresentação fez o Governo daquela República achar proveitoso mais uma exibição da equipe de branco. O local para a nova exibição era a cidade de Benin, onde vivia “Obá” (Rei) de Benin, líder espiritual do povo nigeriano. Além do fator espiritual, a cidade também era importante do ponto de vista cultural, econômico e geográfico. Só que do outro lado o grupo separatista de Biafra mantinha intensas atividades para desestabilizar o Governo. Mas com a chegada do Santos uma reação de delírio toma conta do povo, ambas as partes envolvidas no conflito percebem e a solução foi decretaram uma trégua. Da parte do Governo, foi decretado feriado na cidade e liberada a ponte sobre o Rio Sapele, permitindo que moradores da região chegassem em Benin. A guerrilha, por sua vez, também não promoveu nenhuma ação durante a estadia do Santos (vitória de 2×1), afinal, deuses negros em suas camisas imaculadamente brancas desfilavam em gramados nigerianos.

E o Santos ainda fez uma partida diante de uma grande equipe europeia na época. Segundo os jornais da capital de Moçambique (em 1969 ainda uma colônia portuguesa), Santos e Áustria Viena (um clube bicampeão europeu – Copa Mitropa – e maior campeão nacional de seu país) fizeram o “Maior Jogo do Ano” no estádio Salazar. Os torcedores locais não deixaram os santistas em paz, desde que eles chegaram a cidade, buscando chegar perto dos ídolos mundiais. Na partida, o Áustria buscou se impor, criando situações de perigo para a meta de Laercio. Porém, o Santos logo passou a ter o controle do jogo, aos 18 minutos, Pelé passou por dois defensores e fez o cruzamento para Toninho abrir o placar, 1 a 0! O tempo passava e aumentava a pressão do Alvinegro, Pelé estava naqueles dias. Com 30 minutos, o camisa 10 driblou quatro austríacos e entregou a Negreiros, este a Edu, que foi detido com falta. Lima foi quem cobrou, chute firme, marcando o 2×0! Naquele dia, cerca de sessenta mil soldados portugueses, alguns em cadeiras de rodas, devidos as lutas contra guerrilheiros africanos, foram trazidos ao Norte de Moçambique em um avião especial para ver o Santos de Pelé em ação e acompanharam entusiasmados a arte dos santistas.
Pelo continente africano, em 25 dias o Santos FC atuou em seis países (República Democrática do Congo, Congo, Nigéria, Moçambique, Gana e Argélia), fazendo sua última partida, dia 09 de fevereiro, contra a Seleção da Argélia. Num total de nove jogos, foram cinco vitorias, três empates e uma derrota.
Em 14 de fevereiro o Santos dava início os compromissos pelo Campeonato Paulista. Mês de junho foi perfeito. Em meio as finais do Paulista, oito jogadores do Santos foram enfrentar a Inglaterra, atual campeão do mundo, e venceram fazendo renascer o orgulho do futebol brasileiro.
Três meses depois, o Santos conquistou a Supercopa Sul-Americana e a Recopa Mundial, consolidando as conquistas da Quadrupla Coroa pela temporada 1968. O Santos que dispensara a Libertadores em 1966, 1967 e 1969 era, reconhecidamente, outra vez por títulos, o melhor das Américas e do Mundo.
Mais para tudo se paga um preço. No caso do Santos sua grandeza não era apenas própria, era o clube símbolo do melhor futebol do planeta. E por ser uma das melhores, se não a melhor equipe do mundo, o técnico da Seleção Brasileira, o revolucionário João Saldanha, mostrou convicção para formatar o modelo tático/técnico de jogo todo baseado na equipe santista. Convocou incríveis nove atletas do Santos para as eliminatórias entre julho/agosto de 1969, foram eles: Cláudio, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo, Rildo, Clodoaldo, Toninho, Pelé e Edu. Apenas Ramos Delgado (Argentino), Negreiros e Manoel Maria não foram convocados do time titular. Nas eliminatórias o selecionado é arrasador, mostra um futebol surpreendente fazendo ascender o alerta aos adversários. A classificação para a Copa do Mundo é alcançada com pompas: eram as “Feras de Saldanha” – Ou seriam as feras do Santos?
Polemicas a parte, a temporada seguiria exaustiva. Passados três dias da volta de uma excursão pelo Brasil, o Santos embarca novamente para realizar partidas na Europa, sem Toninho e com os atletas cansados. Algo refletido nas três primeiras partidas que fez na Iugoslávia: no que seria a atual Sérvia, empatou de 3 a 3 com o Estrela Vermelha; pela atual Croácia, 1 a 1 com o Dínamo Zagreb; de volta a Sérvia, um 4 a 4 com o FK Radnicki. Ainda empataria com FK Zeljeznicar (1 a 1), na hoje, Bósnia.

Mesmo desfalcado do goleiro Cláudio e do lateral-esquerdo Rildo, o Santos foi a Espanha tentar sua primeira vitória na Excursão em solo Europeu. Seu adversário, o Atlético de Madrid, da Espanha, despondo de um grande time, tanto que seria campeão espanhol na temporada 1969-70. O evento teve como festejo homenagear o zagueiro/ídolo eterno ‘colchonero’, Feliciano Rivilla. Sem ter nada com isso, com 10 minutos, o Santos fez 1 a 0. Ramos Delgado avançou, fez boa jogada e deu passe para Marçal chutar forte e marcar. Outro tento só aos 30 minutos, quando Pelé passou por três adversários e entregou a Lima, que não teve trabalho para empurrar às redes. Nove minutos depois, Carlos Alberto avançou, observou e cruzou de forma precisa para Pelé completar de cabeça. Já aos 44min, o Atlético diminuiu com Luís, após aproveitar cruzamento de Adelardo. Com a vantagem, na segunda etapa, o Santos passou a jogar com Lima recuado, apenas Pelé e Edu avançados, criando boas oportunidades aos 25min e aos 32min, através de tabelas, mas a defensiva de Madrid deu sorte. Em algumas invertidas o Atlético tentava, porém, não conseguia oferecia perigo a meta Alvinegra. A partida seguiu sem mudanças até o apito do árbitro, e o Santos deu um banho de agua fria nos festejos ‘colchoneros’.

Sendo a base da Seleção Brasileira (CBD), do técnico João Saldanha, que afirmava ter sua seleção moldada com atletas santistas; defendendo o título de Campeão Paulista e Brasileiro; além de ter Pelé apresentando grande fase; o Santos FC atraia todas as atenções, seja de torcedores ou da imprensa mundial. Assim, no dia 21 de setembro, Alf Ramsey () e Bobby Charlton () eram os torcedores ilustres que foram observar a equipe santista contra o quinto colocado do Campeonato Inglês, o forte Stoke City – com a mesma base, dois anos depois, levantaria o caneco do Inglês.
Numa partida de interesses além do campo, foram grandes as alternativas criadas pelas duas equipes dentro dele. Plenamente dispostas, as equipes criaram uma série de boas jogadas. Porém, o Santos era mais incisivo, aos, Pelé destoou os ingleses: passou por um defensor, dois, deixou o terceiro no chão e ainda cortou o quarto, chutou com extrema potência ao gol de Gordon Banks, ele até pulou, mas a bola estufou as redes, 1 a 0 – que espetáculo! Contudo, o Stoke tinha qualidades e não se deu por vencido, aproveitou a desentoação santista, empatando com Ritchie e passando a frente com Greenhof. Mas quando inicio o segundo tempo, em apenas 3 minutos, Edu abusou da classe e igualou. Daí em diante a peleja pegou fogo, virou um belíssimo duelo de ataques e contra-ataques, mas nenhum time passava a frente. Quando se imaginava o empate, coube a Pelé novamente desequilibrar. O camisa 10 utilizou de recursos técnicos, ginga, dribles de corpo e de velocidade, passando por três defensores e quando menos se esperava arrematou de 20 metros para balançar as redes de Banks, num petardo maravilhoso, reviravolta, 3×2! O silencio seguia por alguns instantes até os aplausos dos ingleses. Das tribunas, Ramsey e Charlton, técnico e capitão da seleção inglesa respectivamente, que vieram para estudar Pelé e os santistas, ficaram imensamente preocupados. Dos jornais britânicos, Pelé foi muito elogiado, dito “protagonista de magia e gols” no Daily Mail; “perola negra”, “pasmoso no primeiro gol, com tantos defensores, livrou-se de todos e marcou” afirmava o Daily Morror; enquanto o Daily Express, elogiou Pelé o fantástico time do Santos na nota: “Era logico que o retorno de Pelé com o Santos fosse no campo do Stoke City, pisado com tanta distinção muitos anos por outro futebolista imortal, Stanley Matthews. Stoke ficou assombrado com os gols de Pelé e a habilidade e o comportamento escrupuloso da equipe sul-americana, a quem atribuem o título de melhores do mundo”.
Na Itália, três dias depois, a cidade de Gênova viu suas duas principais equipes locais Genoa e Sampdoria formarem um combinado para enfrentar o que, segundo a imprensa, era a equipe mais famosa do mundo, o Santos F.C. E com um futebol rápido e objetivo, começou o show santista logo no primeiro minuto, num gol marcado por Nenê. Nove minutos depois e Pelé já fazia o 2 a 0. A torcida italiana já não tinha mais duvida que o combinando seria goleado. O Santos continuou a dominar o jogo, conseguindo mais dois gols no final do primeiro tempo, por intermédio de Djalma Dias aos 21 e 45 minutos. Mesmo bem modificado na segunda etapa, o Santos não teve dificuldades em aumentar a vantagem. Pelé, de pênalti, aos 11; Negreiros aos 19; Léo aos 27; completarem o marcador. O quadro italiano se modificou também, mas só consegue seu gol de honra com Turcão contra. Aproximadamente 40 mil pessoas se espremeram no estádio Comunalle para ver os santistas; a renda foi de $ 199.200,00; e a imprensa italiana (Corriere dello Sport) descreveu o Santos como “um fenomenal grupo de jogadores” que “promovem o futebol como espetáculo”.
Nessa excursão à Europa o clube terminou invicto. Foram três vitorias e quatro empates, atuando em quatro países: Iugoslávia (Sérvia, Croácia e Bósnia), Espanha, Inglaterra e Itália.

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

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