Histórias das Excursões

Por Kadw Gomes

As Excursões Internacionais foram o grande “conceito de valor” dos melhores clubes do mundo, principalmente Sul-Americanos, nas décadas de 1950, 1960 e 1970.
Os chamados “amistosos” eram reconhecidos como “Desafios Internacionais” e já foram o cume de uma época. Até parece incompreensível hoje, um jogo amistoso, ter sido mais importante que uma partida oficial. É a velha mania de olhar o passador com os olhos do presente – os anacronismos hodiernos das estatísticas por partidas oficiais, quando em muitos, valeram menos que tais amistosos. Era um outro contexto…
A perspectiva dessas partidas internacionais, trazia fama, prestigio e endeusamento ao vencedor. Cifras milionárias eram envolvidas, existia um enorme interesse do público, da grande imprensa global, os duelos reuniam os melhores jogadores e as maiores escolas futebolísticas do planeta bola. Em contrapartida, uma derrota, poderia significar até mesmo um abalo completo da imagem de um clube no cenário mundial. Talvez por isso, por exemplo, o Real Madrid recusou-se a enfrentar o Santos, por anos, no chamado “Jogo do Século”, como denotou a imprensa internacional (Jornal Le Monde, da França).
Nesse contexto de época, nem todos as equipes, principalmente brasileiras, conseguiam realizar tais façanhas de forma progressiva ou com prosperidade e enriquecimento nos jogos. Um “tour” pelo globo terrestre (em maior peso na América do Sul e Europa), ao qual correspondesse os requisitos da “crítica mundial”, assimilando triunfos renomados, era algo restrito aos maiores e mais famosos times. A exposição exacerbada tanto podia construir impérios como derruba-los em veemência.
Com as excursões internacionais, estádios de todo o mundo eram quase sempre palcos de enfrentamentos entre grandes esquadrões e craques lendários, com expectadores entusiasmados e eufóricos. Ao final das partidas, das campanhas, um “veredito” sobre as melhores equipes do mundo feito pela imprensa global. Como a L’Equipe, France Football, Le Monde, Gazeta Dello Sport, Guerin Sportiva, Giornale D’Itália, Daily Mail, Daily Mirro, Word Soccer, Kirkcer, El Gráfico, Mundo Desportivo, etc.

Depois de viver em meio ao pragmatismo inglês (um 2-3-5 padrão), sem uma mínima preparação física adequada ou propostas de futebol inovadoras, nenhum estudo tático-físico-técnico relevante, o ‘mundo da bola’ desenvolve nos anos de 1950. A partir da vitória do Hungria sobre a Inglaterra, como um “Big-Bang”, acabando os preceitos dos criadores. Passou, porém, a ser uma época ao qual era comum cada país julgar-se ter a melhor equipe do mundo – certamente iniciado com o Wolverhampton na Inglaterra, motivado pelo Honved, da Hungria, não se sabe ao certo. Então parte de um grupo de jornalistas franceses, da UEFA e depois da Conmebol, criar competições oficiais para pleitear o melhor time do mundo. Porém, somente vencer as competições oficiais não era o bastante.
Em 1961, por exemplo, quando o Santos aplicou 6 a 3 no Benfica/POR, campeão da Europa, pelo Torneio de Paris, já foi noticiado como o melhor time do mundo (L’Equipe, França) antes mesmo da final, dois anos depois, no Mundial Interclubes. Ou seja, ter desempenhos históricos contra grandes adversários em jogos assim, era um conceito de valor da época, comumente alcunhado de Feito Internacional. E os clubes passaram a obter vanguardas pessoais, cada qual provocando determinado impacto de futebol, revolucionário com um modelo, geralmente trazendo uma nova proposta de futebol.
A revolução futebolística era então fomentada. Cabia aos clubes mostrarem em “Desafios Internacionais” quem era o melhor clube do mundo. Quem tinha a melhor tática? A melhor técnica? O futebol mais bonito? O jogo mais avassalador? A melhor proposta defensiva? Impacto maior dentro do conceito exercido? Qual a equipe era a mais completa? Perguntas que o Planeta Bola se fazia… a resposta se dava em meio aos jogos internacionais.
É por isso que, por muitos anos, era mais preferível e importante para o Santos F.C. excursionar mundo a fora, a ter de disputar a Copa Libertadores da América. Em excursões o Alvinegro de Vila Belmiro construiu desempenhos históricos que o fizeram ser um dos melhores times do mundo pelos anos 50, 60 e começo dos anos 70.
Hoje fica difícil de compreender essa recusa pela competição continental.
Mas ela pode ser compreendida por alguns fatores:
(1) Em uma época sem patrocínios, dotado de um time milionário e cheio de craques, o Santos era um dos clubes que melhor pagava seus jogadores no mundo e a Libertadores não era lucrativa, então para manter o poderoso elenco, buscou outros recursos: as Excursões Internacionais. (2) Quando passou a disputar a Libertadores, o Santos teve enorme interesse, queria provar ser o melhor das Américas, para poder disputar o Mundial num duelo que decidia o melhor time do mundo. Porém, a competição ficou defasada e não rendia dinheiro, uruguaios e argentinos abusavam de um jogo violento, as arbitragens eram polemicas, existia escândalos de suborno mais tarde comprovados, como na semifinal de 64, ante o Independiente de Julio Grondona. Mesmo a Copa Intercontinental ficou com fama questionável; segundo correspondentes do exterior a violência sul-americana e a desistência do Santos na Libertadores fomentaram o desprezo europeu na competição mundial. (3) Por fim, o Santos chegou a fazer um chamado acordo de cavalheiros com a CBD, não disputando a competição continental em alguns anos, ajudando-a cedendo atletas ao selecionado brasileiro. Em outros anos, não quis disputar por conta própria.
“Nós não gostávamos de jogar a Libertadores. A renda era do time que mandava o jogo. Acontece que nós enchiamos os estádios onde íamos e quando eles vinham jogar aqui, quem é que queria ver times venezuelanos, peruanos? Era uma competição que dava prejuízo para o clube” (Zito, médio central do Santos nos anos 60).
“A arbitragem foi estranha no jogo que fizemos no Rio… deixou o Independiente bater a vontade. Nos lances duvidosos, o apito era contra o Santos. Nos contra-ataques, os bandeiras marcavam impedimentos inexistentes contra o Santos, às vezes o árbitro dava uma falta para impedir nosso ataque. São situações não tão claras de interferência da arbitragem, mas que há um prejuízo …Então não fico surpreso do caso ter sido retomado.”
(Lima, lateral e volante do Santos nos anos 60, sobre as semifinais da Libertadores 1964, partida que envolveu suborno de Julio Grondona).

A IMPORTÂNCIA DAS EXCURSÕES INTERNACIONAIS
E O QUE CADA EXCURSÃO REPRESENTOU PARA O SANTOS F.C.
Foi através de longas viagens ao redor do planeta, como um legitimo embaixador, que o Santos popularizou o futebol brasileiro e o futebol de outros países sendo um objeto diplomático. Em partidas desse porte, Pelé passou de Ídolo a um Mito. Grande proporção foram os triunfos internacionais, dentro da casa do oponente, em meio ao contexto de época descrito, que o Santos F.C. se tornou o melhor e o maior clube do mundo.
 O começo da trajetória do Santos em gramados do exterior foi entre 1954-1955.
Com o Brasil Campeão do Mundo em 1958, na Suécia, o mercado internacional foi aberto para os times brasileiros. O Santos que tinha três santistas no elenco, foi um dos mais beneficiados, e uma nova perspectiva foi iniciada. Nos anos de 1959 a 1961, as portas do mundo se abriram de forma coesa para o Santos, houve a consolidação entre os maiores clubes do mundo e já nessa fase o Alvinegro foi alcunhado de melhor time do mundo pela imprensa estrangeira criadora da Copa dos Campeões da Europa (France Football/L’Equipe, França). As conquistas da Libertadores e do Mundial, entre 1962 e 1963, motivaram ainda mais convites para apresentações santistas ao redor do globo terrestre, todos queriam apreciar o Futebol Arte.
De ‘Melhor Time do Mundo’ o Santos passou a ter “status” de ‘Maior Clube do Mundo’.
Nos anos de 1962 a 1967, popularizou o “soccer” global, dando outra dimensão ao futebol brasileiro. De 67 a 69, paralisando guerras, consolidou-se como mito (Gazzeta Dello Sport, Itália), um clube legendário (Kirkcer, Espanha), os santistas passaram a ser tratados como Deuses, em especial Pelé, a cada giro planetário feito pelos ‘Reis do Futebol’, eram correrias, gritarias, um fanatismo enlouquecido do público. Com o Tricampeonato Mundial da Seleção Brasileira em 1970, Pelé se tornou de fato o Rei do futebol, com outros tricampeões mundiais no elenco e uma reunião de craques, até 1974, foi a fase do Santos Globbetrothers.
O maior impacto global já feito na história por um clube de futebol (El Gráfico, Argentina). A caracterização do time mais famoso do mundo (D’Filme). Pelé se torna um Mito. O Santos como maior clube do mundo. Era o apogeu da Dinastia Santástico: além das inúmeras conquistas, desempenhos históricos através das excursões internacionais (1959 a 1974) faziam o Santos um dos melhores times do mundo por longos anos. Porém, um dia tudo termina. E somente em 1977, o Santos recuperou um pouco do seu prestigio por partidas no exterior, tendo seu último grande momento quando o contexto eram excursões internacionais, sobrepujando o futebol uruguaio, no começo dos anos 80.
Desde os anos 80 as excursões vinham perdendo força e aos poucos não eram mais um grande conceito de valor dos melhores clubes do mundo. Passando a ser meros amistosos, jogos de pré-temporadas em torneios de verão. Mesmo assim, o Santos continuo fazendo algumas rotas internacionais até o final do século XX.

Temporada Internacional de 1959
– Américas e Europa.
Temporada Internacional de 1960
– América do Sul e Europa.
Temporada Internacional de 1961
– Américas e Europa.
Temporada Internacional de 1962
– América do Sul e Europa.
Temporada Internacional de 1963
– América do Sul e Europa.
Temporada Internacional de 1964
– América do Sul e Europa.
Temporada Internacional de 1965
– América do Sul e Norte.
Temporada Internacional de 1966
– África. Américas Sul, Central e Norte.
Temporada Internacional de 1967
– Américas Sul e Norte, África e Europa.
Temporada Internacional de 1968
– Américas Sul e Norte, e Europa.
Temporada Internacional de 1969
– África e Europa.
Temporada Internacional de 1970
– Américas do Sul, Central e Norte. Hong Kong.
Temporada Internacional de 1971
– Excursão pelas Américas Sul, Central e Norte.
Temporada Internacional de 1972
– Excursão pelas Américas Sul, Central e Norte. Ásia, Oceania e Europa.
Temporada Internacional de 1973-74
– Excursão pelos Estados Unidos, Ásia, Africa, Oceania e Europa.