Importância Histórica (1932-1957)

Published On 25/08/2017 | Importância Histórica
Por Kadw Gomes

Muita agitação social e politica no Brasil em 1932. Acontecimentos importantes também foram registrados nos esportes e o Santos teve participação relevante. A realização dos jogos Olímpicos de Verão, em Los Angeles, foi um desafio para o Brasil. O país vivia situação conflituosa internamente. A Revolução Constitucionalista acarretou inúmeros problemas internos. Sem a ajuda do Comitê Olímpico Nacional, foi grande a necessidade de logística para enviar atletas às Olimpíadas.
Sentindo a perda do craque Feitiço (seduzido pelo profissionalismo uruguaio), o Santos teve resultados inesperados no estadual daquele ano – a melhor apresentação foi na goleada de 7 a 1 sobre o Corinthians. Matches internacionais não foram realizados, porém, em meio à revolta da aliança dos paulistas, que boicotavam o Governo Federal, o Santos enfrentando o forte combinado (pró-olímpica) do Rio de Janeiro, com craques como Domingos da Guia e Leônidas da Silva, atuando contrário ao estado por uma única causa: levantar fundos para a participação do Brasil nas Olímpiadas. Ao se apresentar diante dos cariocas, nos dias 06 e 08 de março, o Santos deu sua cota de contribuição com a renda sendo “destinada a Caixa Olímpica da CBD”.
No ano seguinte, seria instaurado o Profissionalismo no Brasil, e a primeira partida do novo regime foi jogada na Vila Belmiro. O Santos foi o primeiro time brasileiro a promover uma partida profissional no seu próprio campo.

Aprumando uma grande equipe e contando com a volta do ídolo Araken Patusca, o Santos conquistou o Campeão Paulista de 1935. Aspiraria composição de méritos excursionando pelo Brasil (Rio Grande do Sul/Bahia) e vencendo esquadrões internacionais (2×1 Estadiantes/ARG, Los Professores), cumprindo todos os “conceitos de valor” entre 1935-36. Em outra grande façanha, alcançaria algo inédito para o futebol brasileiro no ano de 1938.

Naquela época o Brasil tinha apenas dois títulos Sul-Americanos (1919 e 22). Mas já travava rivalidade intensa com os vizinhos uruguaios e argentinos, que se orgulhavam de terem maior grandeza no futebol, com melhores campanhas e títulos continentais e/ou mundiais. Outro rival era o Paraguai, a quem o Brasil venceu na final do Sul-Americano-19. Comumente, campeões nacionais desses países, visitavam o Brasil em turnê, e quando obtinham grandes vitorias, como o Bella Vista que aplicou 3×1 na Seleção Paulista, se gabavam de superioridade.

Para os clubes brasileiros, vence-los era um Feito Internacional. Até então nenhum time brasileiro havia conseguido vencer campeões de todos os países da América Platina. Em 1930 o Santos conseguiu ser o primeiro a vencer campeões nacionais de Argentina e Uruguai. Mas foi somente no dia 10 de fevereiro de 1938, com a vitória por 2×0 diante do Libertad (PAR), que o Santos alçou pioneirismo de sucessos sobre clubes de maior respaldo da tríade Sul-Americana, tornando-se o primeiro clube brasileiro a ter em seu histórico internacional triunfos sobre um Campeão Argentino (Huracán ou Estudiantes), um Campeão Uruguaio (Rampla Juniors) e um Campeão Paraguaio (Libertad).

Após alguns anos de instabilidade, o Santos voltava a fazer uma campanha proveitosa em 1941, terminando entre as quatro primeiros do futebol paulista. Para 1942, foram criadas boas expectativas devido os craques que o Alvinegro possuía – dentre esses Antoninho e Ruy Gomide. No entanto, pelo estadual o time capengou alternando bons e maus resultados, sendo um mero figurante. Naquela temporada, depois de cinco anos e duas edições (1939 e 41), o Brasil voltava a ficar entre as três principais seleções na Copa América, o ponta-direita Cláudio era o representante santista no selecionado.

Apesar de mais importante, o Campeonato Paulista não era o único rumo a se graduar. E naquele ano o Santos estava disposto a sacramentar mais um Feito Internacional para o Brasil. Eram tempos em que o conceito de valor se limitava a vencer campeonatos estaduais ou desafios contra estrangeiros. A diretoria peixeira aproveitou a passagem do tetracampeão paraguaio Libertad (PAR), base da seleção de seu país, acenando à proposta do confronto. Com clima de revanchismo – devido a 1938 – os paraguaios responderam com a confirmação da peleja. Também chamados de “Malabaristas da bola”, a equipe paraguaia havia empatado (2×2) com o Corinthians e, sobretudo, vencido o São Paulo (2×1), deixando o Pacaembu em silencio absoluto. Ademais, seriam os campeões nacionais de 1943.

A promessa seria de um enfrentando complicado. Porém, a partida decorreu com o Santos superior, impondo jogo mais criativo, eficiente e alcançando a vitória por 2×0. A façanha acarretou um recorde importante de elevação que contorna méritos nacionais e internacionais. Com nova vitória sobre o Libertad, em 22 de novembro, o Santos FC tornou-se o único clube campeão no Brasil – estadual de 35 – a ter vencido pelo menos três campeões nacionais de outros países (Argentina, Uruguai e Paraguai) e bases de selecionados (do Uruguai e França), com aproveitamento de 70% em jogos internacionais ao longo da história. Além de ser o primeiro a golear campeões desses países. Primazia inigualável na época.

Com a presidência de Athiê Jorge Coury, a década de 1940 foi um período não apenas com mudanças administrativas, foram notórias mudanças estruturais e fortalecimento técnico. Os resultados começariam a aparecer a partir de 1948.

A Alquimia Santista seria iniciada nos anos 50. O futebol nunca mais seria o mesmo.

Mas o processo foi por etapas. A perda da Copa do Mundo, no Brasil, em 1950, foi um desastre para o futebol nacional, trazendo um “complexo vira-lata”. Resultados internacionais dos clubes brasileiros davam conformismo e regurgitando a moral interna. E o Alvinegro não ficou inerte, retomando grandes feitos contra estrangeiros entre 1951 a 53.

Os triunfos diante de campeões nacionais bases de seleções (Reino Unido, Iugoslávia e Portugal) eram mostras do que estava por vir. Em recorde inigualado, o Santos que já tinha em seu cartel brilhantes vitorias contra campeões nacionais (campeões argentinos, uruguaios e paraguaios e as gerações francesa e uruguaia), pulverizou três forças da Europa, vigentes: o Bicampeão Inglês Portsmouth (3×0), o campeão da Iugoslávia Estrela Vermelha (3×1) e o Pentacampeão Português Sporting Lisboa (5×2).

Outra moral em baixa era a do futebol paulista. Isso porque os cariocas dominaram o país e viraram o centro do futebol nacional entre 1943 a 50. Foram cinco vezes campeões brasileiros de seleções, base da seleção brasileira nas Copas Américas, base no vice-campeonato mundial-50, e o time mais representativo era o “Expresso da Vitória”, do Vasco da Gama. Naquele momento tinham toda a força e representatividade da imprensa, com o advento do rádio e o Rio de Janeiro sendo a capital federal.

Mas em 1952 o futebol paulista começava a reação, conquistando o título Brasileiro. O Santos teria papel histórico nesse processo de méritos paulistas: entre 1952 a 56, o Alvinegro foi uma base do selecionado, sendo fundamental para a reabilitação do futebol paulista no Brasil. Nas quatro conquistas de Brasileiro (1952, 54, 56 e 59), o Santos teve 23 convocações de atletas campeões brasileiros: Tite (3), Hélvio (2), Zito (2), Formiga (2), Pepe (2), Antoninho, Getúlio, Ivan, Vasconcelos, Walter, Urubatão, Ramiro, Del Vecchio, Pagão, Pelé, Dorval e Coutinho.

Em 1954, o então auxiliar Luís Alonso Peres, foi efetivado como técnico. Lula, como era conhecido, seria o modelador da Máquina. Foi o ano também da primeira excursão internacional do Alvinegro. Após alguns aprimoramentos técnico/táticos, a equipe ganha “cancha”, resultando num esquadrão com futebolistas excepcionais e a conquista do Bicampeonato Paulista (1955-56). O Santos F.C. estava pronto para revolucionar o futebol.

A capacidade organizacional da equipe, alinhando incríveis performances, com a rotatividade do poderoso elenco ao qual não se sabia quem eram os titulares ou reservas, pois todos correspondiam ao plano tático de Lula, que buscava no coletivo potencializar a coletividade (“O maior e melhor núcleo de craques militam atualmente nas fileiras do Campeão da Técnica e da Disciplina”- jornal da capital), fazia com que parte da imprensa já descrevesse o Alvinegro como o melhor time do Brasil. Aquela altura, discretamente, o Time de Branco começava definitivamente a dignificar o Futebol Arte. Nas manchetes do Jornal Mundo: “Decididamente, o Campeão Paulista firmou-se como a melhor equipe do Brasil. […] O futebol brasileiro é bem representado pelo Santos, dono da maior equipe do futebol nacional”.

Mas apesar do sucesso de algumas equipes brasileiras – como Palmeiras e Fluminense na Copa Rio, Corinthians e Portuguesa com belíssimos esquadrões – durante alguns anos, o país só teve perdas no futebol. Cada vez mais enraizava um sentimento derrotista na alma do torcedor. Além da perda da Copa de 1950, no Maracanã, para os uruguaios, e Sul-Americano de 1953, para os paraguaios, os brasileiros tiveram de engolir a Argentina em 1955 e o Uruguai em 1956-57 conquistando as Copas Américas. Aqueles selecionados tinham como abastecimento três equipes famosas da América do Sul: a Argentina, River Plate e Boca Juniors; enquanto o Uruguai, o Nacional.

De alguma forma aquelas derrotas poderiam ter uma revanche. A ocasião seria quando esses esquadrões sul-americanos foram convidados a participar do Torneio Internacional (FPF) de 1956. Potencializando seu futebol envolvente, principalmente nos encontros ante os estrangeiros, o Santos acrescentou no histórico vitórias diante dos clubes bases da Argentina campeão da Copa América-57, Boca Juniors (2×1) e River Plate (4×0); e, sobretudo, no clube base da seleção uruguaia campeã da Copa América-56, Nacional de Montevideo (5×0). Era o bastante para o entusiasmo de uma nova era como descrevia os jornais, definindo assim a façanha santista: “O Santos alinhava feitos que creditavam ao Brasil expressão internacional e o esquadrão se coloca definitivamente entre os mais elevados da América do Sul. O Santos é um alento ao futebol brasileiro”. A equipe ainda venceria a base da seleção portuguesa em 57, o Benfica (3×2).

“ESTA IMPOSSÍVEL O TIME DO SANTOS. É uma verdadeira “Academia” de futebol o quadro campeão. […] Dizer o que foi o Santos, em técnica e categoria, seria repisar na mesma tecla. Pode se ufanar de ser o maior quadro do Brasil e quiçá das Américas – e nesta afirmativa não vai nenhum exagero – porque vimos há bem pouco o Nacional, campeão uruguaio e as equipes argentinas, com furos baixos do padrão normal do campeão de São Paulo. O quadro está com moral elevadíssima e com abundancia de valores, todos de um mesmo nível […]”. Descrevia o Jornal da capital paulista.

Nenhuma vitória repercutiu mais que a do Santos contra o esquadrão uruguaio do Nacional. Naquela época, os “Decanos” seriam tricampeões nacionais/55-56-57 e eram base do selecionado celeste campeão continental (Santamaria, Ambrois, Leopartdi, entre outros). “SHOW CONTRA O NACIONAL. Peleja dura em seus primeiros quarenta e cinco minutos, relativamente fácil na fase final, quando os uruguaios se entregaram ante a maior classe do quadro santista. (…) foi uma exibição de alta categoria do campeão paulista. O seu segundo tempo foi maravilhoso. Brindou sua torcida, com uma atuação inquestionável. Não se pode dizer que o ataque seja superior à defesa, ou vice-versa. O time santista de hoje é uma maquina, onde todas as peças trabalham automaticamente”.

Começava dessa forma a caminhada intangível do Alvinegro, conduzindo através de feitos inigualáveis o futebol brasileiro à eternidade.

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