Importância Histórica (1970-2000)

Published On 06/02/2018 | Importância Histórica
Por Kadw Gomes

Após o Tricampeonato da Copa do Mundo (1970), o prestigio do futebol brasileiro estava nas alturas. Por ser um dos grandes responsáveis pela conquista, todos queriam testemunhar o Santos, o time a reunir mais atletas (dentre os quais Pelé) daquele selecionado considerado por muitos o melhor da história. As viagens internacionais dessa equipe Santástica, alcunhada de “Globbetrotters” do Futebol, acarretou o maior impacto futebolístico global excitado por um time na história.
A arte do futebol ganhava cores no branco e preto santista. Não importava a classe social, religião, raça, etária, momento politico ou conflitos sociais. Cidades, países e continentes eram contagiados pela atração quase circense, todos queriam reverenciar o fenômeno mundial Santos F.C. Nessas exibições, os santistas eram noticiados como “Mestres do Futebol” ou “Maior Espetáculo da Terra”, notabilizando uma das mais fortes culturas do Brasil e reafirmando o imaginário de melhor e mais bonito futebol do mundo. Iniciando em 1970, apesar de meio time na seleção, o Santos mostrou força superando campeões da Europa (1×0 Milan-ITÁ campeão da Liga dos Campeões e 4×1 Chelsea-ING campeão da Recopa Europeia) e diversos campeões nacionais (destaque nos 3×2 Internazionale-ITÁ).
Nos primeiros anos da década (1971 a 74), as excursões ao redor do mundo desbravadas pelo Santos arrebatou multidões, encantou plateias de varias línguas e o futebol metamorfoseava espetáculo. Jamais outra equipe sul-americana, quiçá global, alcançou tamanho prestígio e admiração no mundo. O “Santos de Pelé” despertou sentimentos dos mais improváveis nos espectadores estrangeiros.
Percorrendo Américas (Sul, Central ou Norte), Ásia, África, Europa e até Oceania, sendo o primeiro clube a jogar em todos os continentes possíveis, o Santos tornou-se um Embaixador do Futebol divulgando o jogo de bola no planeta. O Globbetrothers do Futebol venceu onze campeões nacionais, além de combinados e algumas seleções no cardápio entre 1971-72. Enfrentou os mais diversos climas, às vezes sol intenso em desertos ou invernos rigorosos com frio e neve. Após bater o esquadrão Bicampeão Argentino do Boca Juniors- ARG (3×0), teve até de jogar com pouca iluminação quando torcedores quebraram o recorde de publico em partidas de futebol na Inglaterra e a todo custo exigirem ver o Santos! Chegou a ser usado para popularizar o futebol em países da Europa. Na França ajudou o futebol ser mais popular que o rúgbi (desfilando, inclusive, com a Taça Jules Rimet em plena a capital Paris, arrastando multidões).
A presença ilustre de reis, ministros e pessoas importantes eram comum nos jogos do Santos. Como na visita a Dublin, capital Irlandesa, que tem a presença ilustre do primeiro ministro Jack Lynch. A torcida invadiu o campo para comemorar o gol santista (Pelé saiu de “fininho” para o vestiário), partida encerrada com muito tumulto! Em meio ao fanatismo do público constante eram as quebras de bilheterias (pessoas pareciam montanhas na partida Santos 2×0 Sheffield-ING). Quando multidões não conseguiam entrar nos estádios usavam da força para derrubar portões, pular muros e invadirem os estádios como ocorrente na Bélgica. Muitas vezes torcedores sentavam ao redor do campo (sem espaço suficiente nas arquibancadas), restringindo a segurança das partidas.
Tamanha loucura chegou a gerar algumas tragédias. Na Itália, em Roma, longas filas chegaram a ser formadas antes da partida Santos 2×0 AS Roma, no estádio Olímpico. Apenas 42 mil pessoas conseguem pagar seus bilhetes. Outra multidão não teria a garantias de comportar, e a paciência dos italianos esgota: 25 mil invadem a força e muitos são os feridos nessa partida. Ainda na Itália, o Alvinegro suplantou a base da seleção italiana (o Cagliari de Albertosi, Cera, Niccolai, Gori, Domenghini e Riva) por 3 a 2. Aquele ano ficaria ainda marcado pelo título honorifico da Fita Azul Internacional (foram 17 jogos, sendo 15 vitórias e 2 empates).
Entre 1973 a 74, foram oito campeões nacionais vencidos (Bélgica, Alemanha, México, Itália, Argentina, entre outros) e invicto frente seleções da Austrália (disputaria a Copa de 74), Coreia do Sul (Ouro nos Jogos Olímpicos Asiáticos) e Japão, duelo de repercussão goleando por 5 a 0 a Seleção Chilena (que disputaria a Copa do Mundo de 1974) em uma verdadeira afronta ditatorial, no sanguinário estádio Nacional de Santiago, aos olhos do ditador Pinochet. Nessa Copa do Mundo da Alemanha em 1974, quatro foram os atletas santistas convocados: Marinho Peres, Edu (mas Carlos Alberto e Clodoaldo são cortados por questões físicas). O zagueiro Marinho Peres foi titular e capitão da equipe, fazendo do Santos o único a ter quatro capitães em Copas do Mundo.

Aos poucos, porém, aquele apogeu foi entrando em declínio. De uma Era de glorias, prestigio e supervalorização mundial (1959-1974), o Santos passou a agonizar um período de crise técnica, financeira e moral (1975-77). Sem o ídolo máximo Pelé, com poucos recursos e equipes não competitivas o Alvinegro tinha de superar quase uma “crise existencial”. A solução só foi encontrada de uma forma: apostar na base!
Assumindo o comando técnico sabendo da situação financeira do clube, o mineiro Chico Formiga passou a promover os garotos da base a quem chamava de meninos. Manhoso, utilizou um lado mais paternal, aflorou o máximo dos garotos e conseguiu montar uma equipe que seria a sensação do Brasil, os Meninos da Vila. Embalados pelo futebol que tinha o ritmo da moda na época, a discoteque, as jovens revelações santistas fizeram o Santos renascer com o título do Campeonato Paulista de 1978. Aílton Lira, João Paulo, Juary, Nilton Batata e Pita foram alguns dos destaques do esquadrão. Boa parte desse time chegaria à Seleção Brasileira (na Copa América de 1979, por exemplo, quatro meninos do Santos foram convocados).
É sabido que revelar craques potencializa o futebol brasileiro. Trabalho primordial importante para gerar um sustento ao futebol nacional. Mas muitos clubes são mais compradores e pegam o material técnico já formado. Improdutividade que não gera um sustento ao futebol nacional. A contra ponto, sendo exemplo e potencial mundial no trabalho de base, o Santos muda o paradigma e tem importância incomensurável na formação de novos talentos, como um berço de craques.
Nessa época (fim dos anos 70), o futebol brasileiro estava longe das conquistas e buscava renascer. O trabalho de base feito nos “Meninos da Vila”, acabou ganhando um peso maior pelo Santos ter sido um grande protagonista mundial e acabou sendo muito visado no seu decréscimo pós-Pelé. Mas por mostrar aquela recuperação técnica através de revelações de jovens entre 1978-79, o Santos resgatou no futebol nacional a importância do trabalho de base. Principalmente, porque aquela geração encantou o país, tinham a essência jogo brasileiro.

Depois dessa etapa (1978-1980) a equipe jovem e talentosa dá lugar a um time experiente e cascudo, que alcança o vice-campeonato Brasileiro de 1983 e conquista o Paulista de 1984. Muitos jogadores dessa equipe chegaram à Seleção Brasileira (Marola, Marcio Rossini, Toninho Carlos, Paulo Isidoro, Pita, João Paulo) e o Alvinegro ainda alcançou um grande momento internacional (1983-85), vingando a Seleção Brasileira frente ao Uruguaio campeão continental.
Desde a conquista da Copa do Mundo de 1970, a Seleção Brasileira não conquistava um titulo importante. Na oportunidade para sair da fila de 13 anos, perdeu para o “velho carrasco” Uruguai a final da Copa América de 1983 (os santistas Marcio Rossini, Toninho Carlos e João Paulo foram convocados). Naquele ano, porém, a imprensa uruguaia destacou pela Copa Vencedores da América as performances do Santos sobre Nacional (2×1 no campeão uruguaio) e Peñarol (3×0 no campeão continental e mundial), afirmando os Jornais La Mañana e El Diário, respectivamente, que “os uruguaios tiveram a impressão, em certos momentos, de estar revendo o grande Santos dos anos 60”. Em atuações “que não se via há muito tempo nas equipes brasileiras”.
O estopim frente aos uruguaios, contudo, ocorreria no Japão, pela final da Copa Kirim de 1985. Com valentia o Santos goleou por 4 a 2 a Seleção Uruguaia (dos destaques Aguilera, Da Silva e Cabrera), conquistando no Japão a Taça que valeu como Feito Histórico, tornando-se o único time sul-americano a vencer as grandes forças uruguaias num período que o país era campeão continental em nível de clubes e seleção nacional (1983 e 1985). O jornal Folha de SP destacou “o prestigio internacional do futebol do Santos em alta, com a conquista de campeão internacional em Tóquio”. A década de 1980 terminaria com o Alvinegro sendo o segundo melhor time paulista em desempenhos (pontos e colocações) no Brasileiro (240 pontos e um vice-campeonato), que mais venceu jogos internacionais e seleções nacionais, além de clube com mais gols na história.
Alguns títulos foram conquistados (único clube no século XX a conquistar pelo menos três títulos internacionais em momentos diferentes: 1962-63, 1968-69 e 1998) e no Campeonato Brasileiro o Santos foi o quarto maior pontuador (339 pontos) da década de 1990. Alguns jogadores santistas foram convocados nas Copas Américas, casos do goleiro Sérgio Guedes (91), o atacante Almir (93) e o zagueiro Narciso (95). Com o título internacional da Copa Conmebol de 1998, o Santos passou a ser o único na historia a vencer quatro competições oficiais na Argentina. Também tornou-se o clube que mais venceu campeões europeus na história ao golear o Ajax por 4×1. Em 2000 foi condecorado como o Maior Clube do Século nas Américas pela FIFA.

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