Tiros, pedradas e 7º Título Internacional!

Published On 01/05/2014 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

Apesar de ser um dos mais tradicionais clubes do mundo (Bicampeão Mundial e Bicampeão da Libertadores), desde 1968-69, quando levou a Supercopa Sul-Americana e depois se tornou Campeão dos Campeões Mundiais, o Alvinegro hibernava na América do Sul.
Quem sabe fosse previsão do que estava por vir. O gigante do mar, adormecido, iniciou o ano enfrentando tormenta: antes de completar seu contrato, Luxemburgo deixou a direção técnica santista. Para seu lugar chegava o técnico Emerson Leão (com certa desconfiança, tinha como credencial a conquista da Conmebol de 1997). Também são contratados o meia Jorginho e o zagueiro Argel.

  Duas figuras importantes ao longo da Conmebol. O artilheiro da alegria Viola e o técnico Emerson Leão.

A temporada seguia com desclassificações (invicto, mas cessado no Torneio RJ-SP e Copa do Brasil) no primeiro semestre. Deu tempo até de excursionar na Europa: 2×2 com o Barcelona/ESP e 3×2 na Roma/ITÁ. Antes do inicio do Campeonato Brasileiro, mais reforços: o atacante Viola (a grande contratação do ano), o meia-ofensivo Claudiomiro e o Lateral Athirson, fecham o chamado elenco Alvinegro. No nacional o Santos empolgou, mas parou nas semifinais – diante de uma arbitragem discutível. Parecia que o time ficaria no quase…
Mas o ano não havia encerrado. Campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1997, o Santos havia assegurado uma vaga na Copa Conmebol (foi a primeira e única participação do SFC na competição). Organizada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), nos moldes da antiga Copa da UEFA, a competição Internacional foi disputada de 1992 a 1999, é uma das precursoras da atual Copa Sul-Americana.

A CAMPANHA NA COPA CONMEBOL DE 1998
A estreia ocorreu dia 15 de setembro, contra o vice-campeão campeão colombiano Once Caldas, na Vila Belmiro, pelas Oitavas de Final. Desfalcado de Zetti, Sandro e Caico, após abrir o placar logo aos 5 minutos do primeiro tempo através de Narciso e sofrer o empate dos colombianos aos 13’ da etapa complementar, o Santos alcançou a vitória por 2 a 1 com gol de Viola aos 21’, assegurando a vantagem na partida de volta, na Colômbia.
Seis dias depois, em Manizales, um duelo complicado e nervoso. Jorginho fez 1×0 na primeira fase, mas na etapa final veio a virada do Once Caldas (Valentierra e Padilla marcaram), fazendo a torcida colombiana enlouquecer. Porém, sabendo lidar com a pressão, os santistas contavam com a volta de um goleiro experiente. Na disputa de pênaltis, o duelo entre Zetti x Henao (que depois levaria o Once Caldas ao título da Libertadores em 2004 e jogaria no SFC). Melhor para o brasileiro, Santos 3 x 2.
Após a difícil classificação na Colômbia, o Alvinegro viajou até o Equador no dia 05 de agosto, onde encarou a altitude de Quito e a forte equipe da LDU, base da Seleção de seu país, e naquele período conquistaria o Bicampeonato Equatoriano (1998-99).
Depois de estar perdendo por 2 a 0 (gols do uruguaio catimbador Morales), o Santos buscou reação surpreendente: Jorginho (aos 37’ do 1º tempo) e Lúcio (28’ do 2º tempo) igualaram o jogo em 2 a 2, calando o recém inaugurado estádio Casa Blanca. No segundo embate (11/08), disputado na Vila Belmiro, jogadas ríspidas e confusões resultaram em cartões amarelos para Claudiomiro, Viola e Anderson do SFC; Obregón, Tenório, Reasco, além de cartão vermelho para Morales, da LDU. Mas nada que atrapalhasse a apresentação lustrosa e dominante do Alvinegro, que com certa facilitada arrematou 3 a 0 pra cima da Liga de Quito, gols de Claudiomiro e Viola (2).
Passados quase um mês, valido pelas Semifinais, o Santos encarou a grande surpresa da competição: o aguerrido Sampaio Correa, que eliminou o Deportes da Colômbia. Em grande fase, havia conquistado o Brasileiro da série C e era o atual Bicampeão do Norte, tinha como principal arma a força de sua torcida (chamados de bolivianos, devido às cores do time: amarelo, verde e vermelho). Na primeira partida, em plena Vila Belmiro, os santistas suarem e mesmo depois de muita insistência não conseguem furar o bloqueio do tricolor maranhense. Surpreendente e entusiasmante empate para a torcida boliviana, por 0 a 0.
No jogo da Volta, dia 24 de novembro, a torcida do Sampaio abarrota por completo o estádio Castelão, cerca de 95.720 empolgados torcedores conseguiam um feito: o recorde de público em toda história do Maranhão e um dos maiores públicos do Nordeste. Quando a bola rola, para aumentar o entusiasmo da maranhense, Ivan faz Sampaio 1×0 aos 32min. A torcida “Boliviana” explodia em emoção, enquanto o Santos tentava se recompor. Não demorou muito, antes que terminasse o primeiro tempo, o Santos já não só revertia o placar, como vencia com vantagem expressiva: 3 a 1, Lúcio aos 39’, Argel aos 45’ e Eduardo Marques aos 46’. Na segunda fase, o Santos complementou a goleada, Adiel e Viola ampliaram para 5 a 1, obtendo a classificação santista para à decisão de uma competição Internacional, quase 30 anos depois, como nos tempos de Pelé & Cia.

A DECISÃO CONTRA OS ARGENTINOS
Tradicional equipe do futebol argentino (naquela época sexto maior campeão argentino, além de nove vezes campeão nacional), o Rosário Central, que compõe o grupo do “sexto grande” e é um dos times clássicos FIFA, era a sensação portenha no final dos anos de 1990.
Treinados por Edgardo Bauza (na imagem), “Los Canallas” eram conhecidos por seu futebol aguerrido, raçudo e muitas vezes até violento. E também por possuir uma das torcidas mais fiéis, vibrantes e fanáticas do mundo. Haviam eliminado na semifinal o Atlético MG (4º no Brasileiro-97 e atual campeão da Conmebol), que naquela altura tornava-se “freguês”. Campeão da Copa Conmebol em 1995 ante o galo, o Rosário chegaria em 3º no argentino daquele ano e ao vice-campeonato em 1999, uma equipe acostumada às grandes disputas.
No primeiro encontro da finalíssima, realizado na Vila Belmiro, dia 07 de outubro, uma partida extremamente nervosa dava ares de uma guerra premeditada. Muita catimba e violência dos dois times, resultando em seis cartões amarelos (Anderson; Gerbaudo, Cappelletti, Marra, Daniele, Cuberas) e cinco expulsões feitas pelo arbitro uruguaio José Rosa: dois do time argentino (Carracedo e Montoya), além dos santistas Viola, Jean e do técnico Emerson Leão. Ao longo do jogo, contudo, o Santos mostra superioridade ao Rosário, desestabilizando o adversário na técnica e tendo o controle na maior parte do tempo. Aos 26 minutos, Anderson Lima cobrou o escanteio na primeira trave, Claudiomiro adiantou-se e cabeceou fazendo Santos 1 a 0! Após o gol, o Santos ainda teve grandes oportunidades para ampliar, como no pênalti em que Athirson acabou desperdiçando. A luta encerrou mesmo com placar mínimo, o bastante para dar vantagem no jogo de volta em Rosário, Argentina.
A BATALHA DE ROSÁRIO
21 de outubro, sob tiros da policia argentina, o Santos entrou em campo no estádio Gigante del Arroyito (lá que a Argentina escolheu para enfrentar o Brasil em 78, devido a pressão exercida), com uma superlotação. A capacidade oficial era de 50.351 lugares, a equipe argentina prometera vender apenas 45 mil ingressos, para evitar confusões, mas antes do inicio da partida 5 mil argentinos driblaram os seguranças e invadiram o estádio. Além da superlotação que o estádio não comportava, o estado do gramado era lastimável, com muitos rolos de papel higiênico atirados nas duas áreas e nas laterais do campo. Objetos, ovos e até pedras também eram alçados em direção aos jogadores do Santos e da polícia argentina. A empolgação e fúria da torcida do Rosário era tão grande, que os policias tiveram que dar 12 tiros para o alto, contendo o fervor.
A partida começou após 40 minutos de atraso. Os santistas temiam por segurança, após quase serem agredidos pelos torcedores argentinos, além de toda balbúrdia em torno e dentro do estádio. “Meus jogadores não tinham condições psicológicas para entrar em campo. Não tinham condição nenhuma, nenhuma. São jovens, todos com 20 e poucos anos. Só entramos mesmo porque, se não tivéssemos entrado, poderíamos ter morrido”, afirmou o técnico Emerson Leão. Além daquela guerra, apenas 16 jogadores estavam em condições de jogo na grande final – três eram goleiros. Dos 25 jogadores inscritos, quatro foram negociados durante a competição (Baez, Fumagalli, Dutra e Ronaldo Marconato), três estavam contundidos (Argel, Jorginho e Lúcio) e dois suspensos (Jean e Viola). O Santos foi a campo com os 11 jogadores titulares e apenas 5 suplentes.
Mesmo com todos esses problemas, descaracterizando uma partida de futebol, logo no início do jogo o Santos pressionou “Los Canallas” (como são conhecidos)! Valentes, os jogadores santistas dominaram o meio-de-campo com uma marcação adiantada e criaram boas chances de gol, impondo-se mais forte no primeiro tempo. Já no segundo tempo, mesmo com o Alvinegro um pouco mais recuado, a precisão de fazer um gol deixou os argentinos alterados e nervosos. Cruzamentos e chutes à distancia. Tentaram arranjar um pênalti a qualquer custo, com diversas confusões dentro da área. Empurrões e discussões fizeram o árbitro Ubaldo Aquino (paraguaio) parar com certa constância o jogo. O empate em 0 a 0 persistia, ficando assim até o apito final, quando, finalmente, com muita valentia e garra, o Santos conquistou o título da Copa Conmebol de 1998! Contudo, os santistas pouco puderam comemorar, devido às ameaças dos torcedores argentinos em invadirem o campo.
Já na chegada ao Brasil a festa foi empolgante, a torcida foi às ruas para comemorar. A conquista foi importante para o clube, fazendo retornar aos títulos internacionais. A campanha teve 08 jogos, com 04 vitórias, 03 empates e apenas uma derrota. O ataque marcou 14 gols, e o centroavante Viola foi artilheiro da competição. Quarta Taça aspirada dentro da Argentina (um recorde!), era a sétima conquista internacional do Santos F.C.

Fontes/Referencias:
Confederação Sul-Americana de Futebol;
Centro de Memoria e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC (Prof. Guilherme Nascimento);
Jornal Folha de SP.


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