O batismo e a convicção das excursões Internacionais – (1954/55)

Published On 23/07/2017 | Memória Santista
Por Kadw Gomes
Santos, 23/07/2017

Chegava o IV Centenário da cidade de São Paulo, e o Santos ainda tentando se encontrar.

Em janeiro, o time apresenta um novo reforço: Urubatão, vindo do Bonsucesso/RJ, importante jogador nos anos 50. E com ele a equipe faz uma série de amistosos pouco importantes, até pintar o acontecimento do ano.

Surgia em Santos um empresario, de nome D’Agostini, que trazia uma propostas para a equipe do Santos se apresentar numa excursão na América do Sul no começo de 1954.

Com mais de 40 anos de história, o Alvinegro ainda não havia realizado nenhuma partida fora do Brasil, apesar dos sucessos em jogos contra estrangeiros (principalmente entre fins dos anos 20 e começo de 30). Naquela ocasião, apesar de não ser as melhores condições trazidas por Agostini, nem tanto pelo fator econômico que não era dos mais altos (221.010 cruzeiros), mas a logística e a força das equipes do local escolhido o Santos poderia sofrer desgastes, apesar disso a ideia foi seduzente.

Muita expectativa era criada, seria a primeira viagem internacional ao qual o time embarcaria. Chegou-se então a cogitar uma excursão pela Colômbia (07/03), na qual os santistas enfrentariam logo de cara o famoso Millonarios, da Liga pirata Colombiana, ao qual vários jogadores brasileiros estavam sendo levados. Mas esta ideia acabou sendo cancelada. Depois de uma reunião, foi decidido o local de batismo internacional: em 17 de março a delegação santista viaja para a Argentina.

Em campos estrangeiros, o Santos fez sua estreia dia 21 de março de 1954, na cidade de La Plata. No comando técnico o italiano Giuseppe Ottina, que orienta a equipe formada por Barbosinha, Hélvio e Feijó (Ivã); Cássio, Formiga e Zito; Del Vecchio, Walter, Álvaro, Vasconcellos (Hugo) e Tite. Para enfrentar um forte adversário, o Gimnasia y Esgrima, um dos 6 melhores times da primeira divisão Argentina. Na disputa, com melhor coordenação e controle de jogo, o Santos dominou os argentinos e teve chances para vencer, abrindo o placar com Del Vechio – primeiro gol santista em terras estrangeiras. Mas vacilou e sofreu o empate através de Martinez.

Dada a boa estreia, a confiança se fez presente nos vestiários para os próximos confrontos. E uma semana depois, para um público de 30 mil pessoas, o Santos (Barbosinha; Hélvio e Feijó; Cássio (Urubatão), Formiga e Zito; Del Vecchio, Walter, Álvaro, Vasconcelos e Tite) foi encarar um dos maiores time sul-americano, o San Lorenzo de Almagro, quinto colocado no último nacional.

Dia 31 de março, o Santos voltou a enfrentar o Gimnasia em La Plata e novamente empatou (2×2) com gols de Tite e Walter Marciano. Até então o time não havia perdido, porém, também não vencera, buscando a primeira vitória em solo exterior foi até Córdoba dia 04 de abril, para a peleja ante um Combinado de Talleres/Belgramo. Para este encontro o Santos formou com o melhor que tinha e não teve dificuldades em inserir seu jogo e golear com facilidade o modesto oponente. Vasconcelos (2), Hugo, Walter e Tite marcaram. Assim, as coisas caminham bem, até que o inesperado ocorre dois dias depois: uma extravagante derrota para o San Martim.

Foi o momento para repensar. Dia 08 de abril, o Santos teria um novo encontro diante do adversário que lhe infligiu sua única derrota. Ottina formou o time com Barbosinha; Hélvio e Feijó; Urubatão, Formiga e Zito; Del Vecchio, Walter, Hugo, Vasconcelos e Tite.

Três dias depois, o Santos está em Tucúmam, onde faria a peleja com o time local. Seria a segunda vez na história que o Alvinegro confrontaria com o Atlético Tucúmam, em 1929 esta equipe teria sofrido revés em 4×1. Assim, foi a vez deles recepcionar o Santos, mas bem longe do ideal, o modesto estádio ainda peregrinava clima hostil. Rompendo com o emocional, o Santos se impôs e com gols de Del Vecchio, Hugo e Tite, triunfou por 3 a 1.

Naquele momento o time estava exausto. Sem poder fazer uma recuperação física, devido as condições locais os jogadores queriam retornar ao Brasil. Entretanto, devido a forte imposição do empresario – com direitos contratuais – a equipe foi obrigada, mesmo com desfalques de jogadores machucados (como Álvaro e Vasconcellos), a enfrentar o prestigiado campeão argentino.

O River Plate, que não tinha haver com isso foi com o melhor que tinha, entre os quais nomes como Sívori e Lostau, e venceu o Santos por 2 a 0. Apesar disso, a excursão foi bastante exitosa. Atuando pelas cidades de La Plata, Córdoba, San Juan, Tucumán e Buenos Aires: em 08 jogos, o time santista venceu 03 e empatou 02, num aproveitamento de 50 %. No dia 19 de abril, uma multidão orgulhosa foi recepcionar os heróis santistas que chegaram a bordo de um elegante transatlântico (“Ana C”).
E o time voltava a concentrar forças no Torneio Rio-São Paulo (competição para testes, com duas mudanças importantes, ao final um 6º lugar) e, na sequencia, pelo Campeonato Paulista (chegando a liderar parte da competição, mas devido aos tropeços terminou na 4º colocação). Nesse ínterim, pelo torneio interestadual, surge o ponta-esquerda Pepe, o canhão da Vila; além disso, Ottina é demitido, Lula assume o comando técnico da equipe.  
Quando inicia o ano de 1955, o Santos definitivamente está mais tarimbado e forte: seria o ano da redenção. Comprovando a qualidade do elenco foram convocados seis jogadores para a Seleção Brasileira. Na primeira competição do ano, o Torneio Rio-São Paulo, contudo, ainda notou-se a alternância de desempenhos, ao passo que também percebia-se a evolução técnica do time. E quando a diretoria organizou a segunda excursão internacional, teve a comprovação e percepção de vários planejamentos. 
Por quase um mês, o Alvinegro visitaria três cidades peruanas e disputaria 8 jogos. Começou por Lima, dia 05 de junho, enfrentando o Alianza Lima, o campeão peruano. Nessa peleja, de grande repercussão no Peru, o Santos teve eficiência e qualidade para desintegrar a defesa adversária e ganhar o meio campo. Com 10 minutos, Álvaro fez 1×0 para o Santos. Lazon chegou empatar aos 25′, mas Vasconcellos, sete minutos depois, tratou de manter a vantagem santista. Na fase complementar, bastaram 10 minutos: Vasconcellos fez mais um, Pepe ampliou e deixou os peruanos batidos. Joya até marcou para o Alianza, mas sem efeito na goleada (4×2). Só que, na luta seguinte, quatro dias depois, o Santos foi surpreendido: 0x1 para o Universitário, empurrado por 30 mil peruanos. 
Nos compromissos seguintes, veio mais uma derrota (1×2 America/RJ) e uma vitória. Dia 19/06, com gols em cada tempo, de Álvaro e Del Vecchio respectivamente, o Santos fez 2 x 0 no Deportivo Municipal, uma base do Peru 3º na Copa América aquele ano. 
De Lima a equipe partiu para Arequipa. Na ocasião, a partida promoveu algo maior. Sendo oferecida uma Taça pelo Lions Club, em prol da liga contra o câncer. O Santos venceu (2×0) sem dificuldades a equipe de Pierola. No dia 26 de junho, o Santos goleou (4×0, três gols de Del Vecchio e um de Vasconcelos) o The Strongest/BOL, recebendo a Taça Liga Arequipana.
Em Cuzco, três dias depois, ocorreu a melhor apresentação do Alvinegro. Com sobras, o Santos articulou jogadas e fez um balanço ofensivo arrasador, arrasando o Cienciano com 9×0 no marcador, gols de Del Vecchio (3), Alvaro (2), Vasconcelos (2) e Walter (2). Por fim, já no dia 03 de julho, se vingou do Universitário com outra goleada: 4×0, Vasconcelos (2) e Pepe (2) foram os destaques. 
O saldo da excursão foi um aproveitamento de 75%. Foram 6 vitórias e apenas duas derrotas em 08 jogos, com 3,25 gols por jogo. “Trata-se efetivamente de uma campanha magnífica, a trazer enorme satisfação aos seus adeptos e aos esportistas em geral, numa seqüência de triunfos realmente digna das tradições do Campeão da Técnica e da Disciplina”, afirmava a imprensa de Santos (A Tribuna).
1955 foi uma temporada de redenção, que terminou com a conquista do Campeonato Paulista. Além de algumas certezas: a primeira, o Santos definitivamente passava a ser um clube que brigaria por títulos ano após anos vindouros; a segunda que, as excursões serviam muito para equilibrar as finanças do clube, no Peru, a arrecadação foi de 473 mil cruzeiros – significando pagar a folha de pagamento dos atletas e sobrar mais da metade da quantia. 

Fontes/Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornal A Tribuna e Estado de S. Paulo.

 

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