O Melhor Futebol do Mundo: Bicampeão Brasileiro!

Published On 08/05/2014 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

A temporada de 1962 seria uma das mais importantes e perfeitas da história do Santos F.C. e do futebol brasileiro. Nesse ano magico, comemorou-se o cinquentenário da história Santista, que culminaria com a conquista recorde de todos os títulos possíveis em âmbito estadual, nacional, continental e mundial. A Seleção Brasileira se tornaria Bicampeonato Mundial.
“Não há nem pode haver melhor”, essa seria a definição do jornal a Gazeta Esportiva, numa síntese simples entre tantas eloquentes, sobre o incomparável esquadrão Alvinegro, composto por Gylmar, Lima, Mauro, Dalmo, Calvet, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Desse “Time de Sonhos”, sete jogadores foram campeões da Copa do Mundo em 1962, no Chile, além de Campeões do Mundial Interclubes, no mesmo ano.
O Brasil vivia sua melhor época no futebol. A Era de Ouro do país (1958-1970) representou o que melhor existiu na história, o futebol brasileiro se encontrava em um processo de domínio e crescimento intangível. Para ser o maior em plena completude, necessitava também de um clube que representasse toda essa magnificência, e o time que postulou a confiança do povo e do esporte mais popular do país – abraçando e abraçado pelo Brasil – não poderia ser outro, se não o Santos F.C. Coube ao Alvinegro, ser o grande protagonista do período: sendo base da Seleção, popularizando o futebol, conquistando títulos e se eternizado na história.
                                    O MELHOR TIME DE TODOS OS TEMPOS


Apresentando ao mundo um esquadrão inefável, o Santos foi capaz de realizar os feitos mais inauditos e extraordinários que um clube de futebol ousou alcançar. Tanto que tempo depois, numa enquete histórica realizada pela EL Gráfico, entre opiniões de europeus e sul-americanos, o Santos FC desse período 1962-63 (com 193 votos) foi eleito absoluto: Maior Time de Todos os Tempos. Consideravelmente à frente do segundo colocado, Real Madrid (103 votos).
Todas as Taças estavam na Vila Belmiro. O Santos conquistou tudo que havia para conquistar naquela época. E na condição de Tricampeão Paulista, Campeonato Brasileiro, Campeão da Libertadores e Campeão Mundial Interclubes, o time era um dos favoritos ao Bicampeonato Nacional de 1962. Disputada entre 5 de setembro e 2 de abril de 1963, a Taça Brasil de Clubes impunha regulamento similar ao do ano anterior. Sobretudo, tinha como objetivo declarar o Campeão Brasileiro e o representante na Copa dos Campeões da América (Copa Libertadores) do ano seguinte. Participaram da Competição 18 equipes classificadas. A fase final foi disputada apenas em 1963 por falta de datas disponíveis.
Atual Campeão Brasileiro (Taça Brasil de 1961) e Paulista, o Santos estreou pelas Semifinais da competição enfrentando o Sport/PE, vencedor da chave Norte/Nordeste e atual Bicampeão Pernambucano de 1960-61. No primeiro confronto, dia 12 de janeiro de 1963, na Ilha do Retiro/PE, muita luta por parte das equipes acompanhou o enredo, que criaram e desperdiçaram boas chances de gol, e a partida acabou terminando empatada por 1 a 1 no Recife, o gol santista foi marcado por Coutinho (Djalma assinalou para os pernambucanos).
Devido ao bom resultado no primeiro encontro, o Alvinegro precisava de uma vitória simples no jogo de volta, realizado no Pacaembu/SP, em 16 de janeiro, para chegar a decisão da Taça Brasil pelo segundo ano consecutivo. A maior preocupação eram as ausências de Zito e Lima. Mas quando a peleja iniciou, o Santos mostrou desde os primeiros minutos que os rubro-negros estavam diante do maior time do mundo. Coutinho estava impossível naquele dia. Abriu o placar logo aos 8’, em cabeçada fulminante após cruzamento de Dorval pela direita. Oito minutos depois, Pepe fez grande jogada pela esquerda, driblando Bria como quis, na linha de fundo atrasou o passe para Coutinho, este livre no centro arrematou preciso: 2×0!
Com a categoria da linha ofensiva o Alvinegro desenvolvia domínio com eficiência. Aos 18’, vários aplausos ecoam no estádio: de antes do meio campo, Pelé carrega em velocidade e dribla meio time do Sport de forma espetacular, fica de frente com o goleiro mas erra a finalização. Aos 20’ Pepe cobra falta e acerta a trave. Três minutos depois, Pelé passa por Alemão e Tomires, finta Bria e entrega para Coutinho, solto, marcar mais um tento (3×0)! Gilmar pratica uma única defesa difícil aos 32’. Ainda no primeiro tempo, Coutinho se livra da marcação e arremata o couro no canto superior esquerdo do goleiro, assinalando 4 x 0, aos 40 minutos!
No segundo tempo, poucos lances importantes, o Santos administrou sem preocupações. Após o jogo o ambiente no vestiário do Sport era de conformismo, pois “estavam diante dos Reis do Futebol”. A boa campanha rendeu aos pernambucanos um convite para a disputa do Torneio de Nova York de 1963. A Taça Brasil (Campeonato Brasileiro) foi disputada na era de ouro do futebol nacional e, na edição de 1962, o futebol mundial foi premiado com um jogo incomensurável: Santos x Botafogo – O Maior Jogo do Mundo.
Naquela época o Brasil podia vangloriar-se de promover o Maior Clássico do Mundo. A decisão do Campeonato Brasileiro (Taça Brasil) de 1962, colocou a frente duas equipes que atingiram o mais alto nível de futebol individual e coletivo, que não jogavam apenas pelo resultado, mas dando espetáculo: era um fascínio os encontros entre Santos x Botafogo.

Quadros Campeões Paulista e Carioca, considerados pela crônica esportiva os melhores times do país, que reuniam os maiores gênios do futebol (Pelé e Garrincha), entre tantos outros craques. As equipes eram as bases da Seleção Brasileira, uma geração iluminada de jogadores formidáveis que juntos protagonizaram com a mais perfeita arte e ginga uma partida de futebol. O maior jogo da história do futebol brasileiro, como destacado na revista Fatos & Fatos, reuniu em campo oito atletas que conquistaram o Bicampeonato Mundial no Chile: Gilmar, Mauro, Nílton Santos, Zito, Zagallo, Mengálvio, Pepe, Garrincha, Pelé, Amarildo e Coutinho.
A maior decisão da história do Campeonato Brasileiro começou a ser disputada numa terça à noite, dia 19 de março de 1963, no estádio do Pacaembu/SP. No primeiro encontro o duelo foi equilibrado, principalmente no primeiro tempo, terminando empatado: O Botafogo – que estava sem Garrincha – abriu o placar com Quaretinha (cobrando falta) aos 13’; o Santos reagiu com Pepe, aos 32’, também em cobrança de falta, petardo com desvio acertando o canto esquerdo.
Agressivo e prático no segundo tempo, bastaram 11 minutos e o Santos já vencia por 3 a 1, com gols de Coutinho (aproveitando cruzamento da esquerda feito por Pepe, cabeceou firme entre Zé Maria e Rildo) e Dorval (pegando a sobra da jogada de Pelé em cima de Nilton Santos e Zé Maria, mais rápido arrematou e marcou). Mas aos 22’ o Botafogo reagiu com Amoroso, diminuindo para 3 a 2 e parecia buscar o empate. Porém, aos 29’, da linha média, Pepe ficou sem ter para quem passar e resolveu soltar o canhão de perna esquerda, o couro foi fulminante, passando por Manga, vazando a meta: (4×2) um golaço! Já nos momentos finais (44’), o “possesso” Amarildo diminuiu, mostrando a garra botafoguense.
Doze dias depois, no estádio do Maracanã/RJ, em tarde de domingo que marcou o recorde de arrecadações no Brasil (37 milhões de cruzeiros), aos olhares de um público de mais de 100 mil torcedores, o Botafogo (com Amarildo, Edson e Quaretinha) descontou e venceu o Santos com placar de 3 a 1, animando a torcida carioca que vigorava sua confiança, acreditando que o Botafogo de Garrincha pudesse bater o Santos de Pelé. Como a decisão seria dois dias depois, o Santos continuou no Rio de Janeiro, e teve de aturar o favoritismo que a imprensa passou a dar ao esquadrão carioca.
O MAIOR JOGO DO MUNDO: “FUTEBOL ARTE” X “FUTEBOL GINGA”.
Empatados por pontos nas partidas de decisão, com uma vitória para cada lado, a desforra mais emblemática da história do futebol, ocorreu no dia 2 de fevereiro de 1963, novamente no estádio do Maracanã/RJ, com público superior a 70 mil pessoas. O “Futebol Arte” do Santos formou com Gylmar; Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval (Tite), Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Enquanto o “Futebol Ginga” do Botafogo, alinhou com Manga; Rildo (Joel), Zé Maria e Ivã (Jadir); Airton e Nilton Santos; Garrincha, Edson, Quarentinha, Amarildo e Zagallo (Jair).
Podia ser o grande momento do Botafogo, dotado de plena forma e auge técnico, conquistar o Brasil e depois buscar os títulos continental e mundial. Mas o Campeão do Mundo estava preparado. O técnico Lula (SFC) havia feito modificação tática importante: Dorval para marcar Zagallo e Pepe entrando mais pelo meio. As mudanças surtiram efeito. Logo se percebeu mais desenvoltura do Santos. No primeiro tempo, a contagem foi aberta aos 25 minutos, quando Pelé chamou a marcação e tocou para Dorval, que avançou desde a linha média, com a indecisão da zaga botafoguense, mesmo sem ângulo achou um espaço e chutou violentamente (o primeiro golaço: 1×0)! A peleja então decorre em mais equilíbrio, ataques dos dois lados, mas sem sucesso. A qualidade técnica e a performática insinuante com jogadas de efeito e graça, além da velocidade, fazia prender a atenção. Aos 40 minutos, pela ponta-esquerda Pepe fingiu que iria centralizar a bola, e deferiu chute fortíssimo de 25 metros, Manga até saltou, mas a bola passou sobre seu corpo, fazendo-o engolir um “frango”: 2×0 e festa santista!
Demonstrando o mais perfeito futebol, sendo superior em todos os aspectos, o Santos dominou esplendorosamente o Botafogo no segundo tempo. O jogo serviu para não deixar dúvidas sobre o melhor time do futebol brasileiro em sua fase áurea. Logo aos 8’, Pelé fez grande jogada, recuperou a bola de Zé Maria, enfiou para Coutinho entre os zagueiros, o centroavante tocou de primeira no canto esquerdo de Manga (virou passeio: 3×0!). Aos 29 minutos, Pelé carregou e tocou para Coutinho, que devolveu a Pelé, que dribla dois defensores e avança, arremata firme o couro, Manga ainda desvia, mas a bola entra (4×0! Um espetáculo!), nem o defensor dentro da meta impediu o tento!

O Botafogo que costuma ferir com “olé”, com “olé” foi ferido. Aos 34 minutos, veio o último e mais celebrado ato. Após tabelar com Coutinho, Pelé aparece de frente pro gol, mostra toda sua categoria e dá um toque perfeito por cima de Manga que deixava sua meta, assinando o quinto tento santista. O Rei do futebol comemora com saltos rodopiando o próprio corpo. A multidão que chegou a ficar estarrecida, agora vibravam e aplaudia a exibição dos santistas, rendendo-se ao melhor futebol do mundo, festejando cada gol, drible e jogada de destaque, do Campeão absoluto do Brasil da temporada de 1962. Com a segunda conquista o Santos tornou-se na época o primeiro clube Bicampeão Brasileiro/Nacional e primeiro a vencer de maneira consecutiva até então (1961-62).
O jornalista Ney Bianchi, que viria a se tornar o único a conquistar três vezes o Prêmio Esso de Informação Esportiva, batizou aquele confronto de “O maior jogo do mundo” e o definiu assim na matéria de capa da revista Fatos& Fotos, uma das mais lidas do País na época:
O Maracanã ainda não tinha visto tamanha exibição de futebol-arte até quando, terça-feira, o Santos provou ser o maior time do mundo, aniquilando, por 5×0, o Botafogo, com Pelé abusando da condição de gênio. Houve de tudo. Principalmente: 1. O Botafogo, gloriosos dias antes, passando ao papel de vítima; 2. A estratégia de Lula anulando a de Marinho, que retirou Zagallo, afastou Nilton Santos da área e abandonou Garrincha; 3. Cada um dos gols sendo uma obra-prima; 4. Manga devorando um “frango” servido por Pepe; 5. A torcida (caso único na América do Sul) esquecendo a partida para aplaudir o melhor; 6. O Botafogo, que costuma ferir com “olé”, com “olé” sendo ferido. É preciso repetir que jamais o Maracanã viu espetáculo igual. Foi tão perfeita a exibição que, ao terminar, a partida pareceu a todos a mais curta da história do futebol.

Jornal a Gazeta Esportiva edição do dia 03/04/1963:
Continua com o Santos a Taça “Brasil”. Depois do insucesso de domingo, o tricampeão paulista redimiu-se esta noite de forma espetacular e categórica, ao derrotar o mesmo Botafogo pela contagem de 5 a 0. Mais de 70 mil pessoas, ignorando a procedência do clube vencedor, vibraram e aplaudiram a exibição dos visitantes festejando cada gol, porque o importante era o espetáculo que estava sendo apresentado.

Fontes/Referencias:
Dossiê, Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959 (Odir Cunha e José Carlos Peres);

Jornal a Gazeta Esportiva;
Revista Fatos & Fatos;
CBF (Confederação Brasileira de Futebol);
Jornal Folha de SP.

One Response to O Melhor Futebol do Mundo: Bicampeão Brasileiro!

  1. Nunca mais o futebol brasileiro terá algo assim, uma atmosfera como aquela feita pelo santos x botafogo em 60. era um puro encontro de arte, ginga e magia. a nível de comparação, real madrid x barcelona, nunca conseguirão a ter esse patamar de clássico nacional, como nenhum outro tbm conseguirá ter. ambos fizeram o maior encontro de futebol. amos fizeram o país tricampeão mundial. ambos construíram toda a mentalidade de futebol, q o povo brasileiro tem…

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