O Campeão no Brasil de melhores Feitos Internacionais – (1942)

Published On 06/09/2017 | Feitos Históricos
Por Kadw Gomes,
Santos, 06/09/2017

Em meio ao caos mundial, eclodia no futebol paulista seu “coliseu”, o estádio do Pacaembu, trazendo significativas mudanças estruturais e políticas nos anos de 1940.
Numa época em que a única fonte de renda era as arrecadações, a construção do Pacaembu, provocou uma lacuna financeira entre os clubes da capital em comparativo aos da cidade de Santos. Nesse ínterim, as equipes litorâneas se afunilaram, mas não conseguiram equipara-se aos grandes da capital paulista.
Seria uma época também com início de transformações e mudanças no Santos. Tanto fora como dentro das quatro linhas. E elas começam em 1942, quando fora criado um novo escudo, com as letras SFC entrelaçadas em um fundo branco, e as listras verticais do uniforme passando a ser horizontais (retornando ao escudo e uniforme original ao fim da temporada 1944).
No aspecto de desempenho, a equipe santista vinha de uma campanha proveitosa, quando no ano anterior terminou entre as quatro principais do futebol paulista. Assim, notou-se um crescimento técnico de craques como Antoninho Fernandes, Gradim, Ruy (artilheiro santista dos anos de 1942 e 43) e Cláudio (convocado para a Copa América daquele ano, porém, logo seria transferido para o Palmeiras). O time teve um aproveitamento de 60, 6 %, com média de 3,48 gols por jogo, o ataque era surpreendente.
Para 1942 criou-se boas expectativas. Porém, no estadual o time do técnico Ratto capengou, alternando bons e maus resultados, sendo um mero figurante no certame. A equipe que sabia golear (como nos 8×1 no Jabaquara, 4×1 na Portuguesa, 10×2 no Comercial) e manteve a média superior a 3 gols por jogo no ano, tinha enormes dificuldades defensivas – tendo até de improvisar o curinga Gradim na zaga – e, por isso, também sucumbia. Principalmente, ao enfrentar os principais quadros paulistas, como Palestra Itália (atual Palmeiras) e o debutante São Paulo.
Mas o estadual não era o único rumo a se graduar, naquele ano o Santos estava disposto a sacramentar mais um feito internacional. A diretoria aproveitou a passagem do tetra-campeão paraguaio Libertad/PAR, base da seleção de seu país, acenando a proposta do confronto. Com clima de revanchismo – devido a 1938 – os paraguaios responderam com a confirmação.
Era bom o Santos ficar em alerta. Os paraguaios do Libertad, tambem chamados de “Repolleros” e “Malabaristas da bola”, haviam empatado (2×2) com o Corinthians e, sobretudo, vencido o São Paulo (2×1), deixando o Pacaembu em silencio absoluto. Ademais, seriam os campeões nacionais de 1943. A promessa seria de um enfrentamento complicado.
É bom dizer que apesar dos vice-campeonatos em 1922 e 29 (ao qual destacava-se Delfín Cáceres), a seleção paraguaia só chegaria ao titulo de Copa América em 1953, tendo como base também o Libertad. Na década de 1940, com atletas do clube “Albinegro”, foram outros dois vice-campeonatos sul-americanos, em 1947 e 49.
Naquele momento o craque argentino Ecthevarrieta (maior artilheiro estrangeiro do clube por mais de 70 anos, sendo superado por Copete, em 2017), já integrava o elenco. Foi a maior contratação do futebol santista até então. Peça importante, rapidamente ele fez a equipe melhorar, adequando-se aos outros nomes de relevo. Nessa época (1940-44), curiosamente, o Santos teve uma enorme quantidade de jogadores gringos, além de Ectchevarrieta, o meia e lateral de rara técnica Ayala, vindo do próprio Libertad, foi o maior destaque.

 

Echevarrieta foi um dos destaques da partida diante do Libertad! (Foto/Gazeta Esportiva)

Sempre empolgada e ao mesmo tempo exigente, a torcida santista compareceu em bom número a Vila Belmiro no dia 22 de novembro. Das arquibancadas olhares atentos às entradas das equipes, solenizadas pelo respeito presente dos quadros. Ao passo que inicia um jogo rápido e agradável.
Alguns minutos e já se percebia a articulação entre a defesa e o ataque do Santos, produzindo um conjunto de ações harmoniosas, que tiveram como resultado natural o controle sobre o Libertad. Nervosos, os paraguaios usam da força. Ideia errada dentro da área. Echeverrieta cobra uma penalidade e abre o placar (1×0). Decorriam 10 minutos, quando Rui coloca a pelota ao alcance de Antoninho, o zagueiro Vega enfrenta-o, mas o meia direita santista usa das artimanhas técnicas, mesmo marcado, acha espaço e atira com êxito: 2×0!
A vanguarda santista, principalmente, empreendeu uma atuação magnifica, apresentando, simultaneamente com demonstrações de habilidade pessoal de Echevarrieta, Antoninho e Luprécio, a eficiência uniforme das ações. Antoninho estava inspirado e voltaria a aumentar a contagem um minuto antes de terminar a primeira etapa. Recebendo de Lupércio, o “Arquiteto da Bola” carrega o couro com habilidade e chuta rapidamente, a bola desvia em Casco, mudando sua trajetória, dando a impressão que iria pra fora, porém, bateu na quina inferior e entrou mansamente para o fundo das redes sob o olhar perplexo do guardião paraguaio (3×0).
Na segunda fase, a peleja atingia os dez primeiros minutos sem grandes emoções, até que aos 11’, Lupércio prendeu a pelota e esperou a passagem de Echeverrieta, lançando-o inteligentemente de forma frontal entre Piola e Invernazzi, o atacante invadiu a área pelo lado esquerdo e arrematou fora do alcance de Fernandez – o Santos dava show, 4×0! Mas a equipe paraguaia reagiu, passava a dominar as jogadas, valendo-se de uma mistura técnica e força do seu trio final e, seis minutos depois, Benitez visou à retaguarda santista desajeitada chutando de forma a surpreender o arqueiro santista Odair, que espalmou – na sobra Américo ainda tentou concertar – Erico foi rápido e acertou o caminho do gol, em meio à confusão da zaga santista, marcando o tento paraguaio.
Na troca de passes se via o amolecer das equipes. O Santos mostrava-se sobremaneira superioridade ante o famoso time que teria derrotado as equipes da capital, Echeverrieta ainda daria o golpe final. Abusando de jogada individual, partiu para a esquerda com a bola dominada, atraindo a marcação de três adversários (Ivernazzi, Casco e Piola), conseguindo lançar à meia altura para Vega (do SFC), livre anotar o último gol (5×1). Os paraguaios deixavam o Brasil “impressionados com “team” do Santos”, a única equipe brasileira que conseguiu vence-los.
A consequência da façanha foi um recorde importante de elevação que contorna méritos nacionais e internacionais, sendo baseada no histórico santista. Com a nova vitória sobre o Libertad, em 1942 o Santos FC tornou-se o único clube campeão no Brasil – estadual de 35 – a ter vencido pelo menos três campeões de outros países (Argentina, Uruguai e Paraguai) e bases de selecionados (do Uruguai e França), com 70% de aproveitamento em jogos internacionais ao longo da história. Primazia iniqualavel na época.
Até então, o Santos havia feito 15 Jogos contra equipes estrangeiras, obtido 10 vitórias, 01 empate e 05 derrotas. Compondo um aproveitamento de 70%.

Campeão Argentino vencido: Huracán e Estudiantes
Campeão Uruguaio vencido: Rampla Juniors
Campeão Paraguaio vencido: Libertad.
Bases Selecionados vencidas: Bella Vista (Seleção do Uruguai) e Seleção da França.
Entre outras equipes e seleção norte-americana.

Fontes/Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Jornal A TRIBUNA;
Jornal Correio Paulistano;

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