O “Embaixador do Futebol” continua o Reinado – (1967)

Published On 28/04/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 28/04/2017

Parte da imprensa esportiva anunciava que o famoso Santos, há alguns anos sendo considerado o melhor time do mundo, teria encerrado seu ciclo quando foi superado pela talentosa geração do Cruzeiro na final do Brasileiro de 1966. Entretanto, um substancial engano. O revés diante de uma equipe jovem apenas indicava o momento para a renovação: o fim de uma geração e o começo de uma outra na “Dinastia Santásticos”. Entre remanescentes, uma nova equipe foi reformulada, ainda capitaneada pelo Rei do futebol.
A remodelação do elenco santista havia sido iniciada ainda em 66, mas terminaria apenas em 1967, quando o Alvinegro formou um dos melhores planteis da história do futebol mundial. Nesse ano, a primeira mudança foi o auxiliar Antoninho assumindo o comando técnico no lugar do maior treinador da história santista, Lula. Foram contratados o meia Buglê (vindo do Atlético MG) e o lateral-esquerdo Rildo (chegado do Botafogo, tinha disputado a Copa do Mundo/66).
Em janeiro começou a turnê mundial do Alvinegro. Pela América do Sul, o time já sob comando de Antoninho, venceu a seleção do Mar de La Plata, na Argentina, dia 15 de janeiro, por 4 a 1 com recorde de renda, e dias depois novamente em solo inimigo enfiou 4 a 0 no possante River Plate, que havia sido finalista da Copa Libertadores no ano anterior. Diante do River, Antoninho escalou o Santos com Gilmar; Lima, Oberdan, Joel Camargo e Rildo (Geraldino); Zito e Buglê; Amauri, Toninho, Pelé (Edu) e Abel. O triunfo foi exercido com classe. Na primeira etapa o Santos já vencia por 3 a 0. Logo aos 2 minutos, Toninho marca após passe de Pelé. Muito inspirado, abusando dos dribles, o Rei do futebol tratou de aumentar bonito quatro minutos depois. Amaury fez outro aos 21’. A partida ficou truncada na etapa complementar, o River procurou se impor, porém, mesmo diminuindo o ritmo o Santos fez mais um tento. Toninho com oportunismo nos 43’. Mais de 10 mil torcedores invadiram o campo no final do prélio para abraçar os santistas, sabiamente Pelé havia sido substituído aos 43. Os jornais argentinos não pouparam elogios aos santistas, afirmando que “O Santos F.C. triturou o River sem dó”, sendo a “superioridade técnica dos brasileiros mantida por todo jogo, uma equipe que ainda era uma das melhores do mundo”, e Pelé “voltou a mostrar todo seu talento”.
A vitória santista muito bem repercutida pela imprensa sul-americana incomodou bastante o River, que quis a revanche: obtendo êxito em 4 a 2. A rivalidade se acentua, como não pode deixar de ser Brasil x Argentina, e os críticos passaram a se perguntar qual era de fato o melhor esquadrão do continente?
Seria ainda o Santos de Pelé, que não quis disputar a Libertadores de 66, mas havia baqueado Benfica-POR e Internazionale-ITÁ, reformado de craques e treinado por Antoninho? Ou o River Plate, na época o melhor time argentino, vice-campeão da América após uma final disputadíssima no ano anterior? E o Peñarol de Pedro Rocha e Spencer, entre outros craques, atual campeão da Libertadores e Mundial? Para resolver esta questão, dia 1º de fevereiro, o Santos FC começou a tirar as dúvidas: foi jogar “a negra” diante do River Plate. Os argentinos formados praticamente com o mesmo time da final continental de 66, com destaque para participação de Carrizo na meta, o craque uruguaio Luís Cubilla e o excepcional Onega.
A ocasião foi aproveitada para inauguração de um dos palcos da Copa do Mundo, o estádio Nou Camp, em León, no México. Serie definitiva de três duelos em apenas 13 dias. Zito puxa a fila santista com Gilmar, Lima, Oberdan, Joel Camargo e Rildo; Clodoaldo e Buglê; Amauri, Toninho, Pelé e Edu. A equipe santista mostrou de cara seu poder ofensivo, fazendo Carrizo trabalhar, em um dos ataques o goleiro argentino praticou defesa em chute de Toninho, chocou-se com a trave e teve de ser substituído por Gatti. Aos poucos o River equilibrou o jogo. Num contra-ataque, Onega abriu o placar para os argentinos a0s 43’, a bola ainda desvio na zaga e enganou Gilmar. Quando o primeiro tempo parecia encerrar com vantagem do River, entre os 44 e 45 minutos, Toninho fez bonita jogada individual, livrou-se da marcação, quando ia chutar sofreu falta dentro da área. Pelé cobrou a penalidade e empatou para o Santos. A partida reinicia com jogo aberto, lá e cá. Os santistas são vertiginosos, Edu inferniza a defesa adversária, Pelé supera um misto de violência e marcação, dando trabalho ao River, que com Onega continua assustando, em um dessas jogadas, aplica belo voleio que Gylmar saltou para encaixar. Pouco tempo depois, já aos 43 minutos, após falta lateral e um bate-rebate na entrada da área, Edu recupera e faz brilhante jogada, dribla dois zagueiros e arremata firme no canto direito decretando a virada sensacional, 2 a 1!
Se a desforra ante os argentinos respondeu à questão continental, quando disputou o Torneio Hexagonal do Chile, o Santos teve a oportunidade perfeita para dar fatos as avaliações globais. Especialistas, torcedores e críticos em geral especulavam com ansiedade o desafio internacional entre Santos (Brasil) x Peñarol (Uruguai). Encontro que ocorreu no estádio Nacional, dia 17 de fevereiro. Algumas variáveis estavam por ser respondidas, o cartel das equipes era generoso. A nova geração do Santos, capitaneados por Pelé, haviam vencido River Plate, Benfica e Internazionale, dentre outras potencias. Enquanto o Penãrol, venceu com certa facilidade o Real Madrid na final do Mundial Interclubes e, mesmo com dificuldade, também havia superado o River na Libertadores.
Buscando a primeira vitória no torneio depois de empates contra Universidad de Chile-CHI (1 x 1) e Vasas-HUN (2 x 2), o Santos finalmente pôde colocar sua melhor formação, indo a campo com Cláudio; Carlos Alberto, Oberdan e Rildo; Zito (Buglê) e Orlando; Amauri (Abel), Lima, Toninho (Wilson), Pelé e Edu. Os uruguaios do Peñarol também vieram com o melhor que podiam: Mazurkiewicz; Lezcano, Dias, Forlan e Caetano; Gonsalvez e Cortês; Silva, Carrera, Spencer e Varela.
Com um plano tático que os uruguaios não conseguiram anular, os brasileiros dominaram amplamente no primeiro tempo. Aos 29’, Rildo aproveitou boa jogada de Zito para abrir o placar. Pelo Peñarol apenas o centroavante Spencer conseguia levar perigo, mas muito bem interceptado na defesa e pela participação do goleiro Cláudio. O trio formador por Zito, Lima e Pelé, com acertadas combinações fazia se impor no meio campo, sendo a mola propulsora do ataque santista. O Peñarol, retraído, defendia-se como podia, não resistindo aos 36 minutos, quando Toninho faz jogada pessoal e aumentou para 2 a 0! As defesas de Mazurkiewez evitou que os santistas fossem para o intervalo com vantagem mais dilatada. E na segunda etapa o Peñarol melhorou, passou a pressionar e dava sinais de reação, entretanto, o Santos soube com qualidade e preparo físico anular o impacto adversário. Pelé, sempre muito vigiado durante todo o jogo por Diaz e Varela, chegou a fazer o terceiro gol, porém, Edu estava impedido quando lhe deferiu o passe e o gol não valeu. O jogo foi amplamente veloz, movimentado e bem jogado pelos esquadrões, no apito do árbitro os aplausos da torcida para as duas equipes.
Cinco dias depois de bater o campeão mundial, o Santos já estava goleando o campeão chileno, a Universidade Católica, na casa alheia com mais de 50 mil pessoas, por 6 a 2, Pelé marcou 4 vezes. Dia 25 de fevereiro chega ao Peru, no estádio Nacional de Lima, com público superior a 30 mil expectadores, e aplica outra goleada, dessa vez no maior campeão peruano: 4 a 1 no Alianza Lima. Retornou a Santiago do Chile num domingo e repousou à espera da partida ante o maior campeão do Chile.
Foram mais de 70 mil pessoas acompanhar a peleja, que foi caracterizada como muito disputada e com algumas jogadas bruscas. O Colo-Colo controlou as atividades na primeira fase, com jogo físico e utilizando bastantes os pontas, conseguiu sair na frente em chute forte de Beiruth, aos 16’. Dois minutos depois, Pelé revidou jogada faltosa do zagueiro chileno Cruz, iniciando uma confusão com ambos se agredindo e depois sendo expulsos pelo arbitro Jayme Amor. No segundo tempo, mesmo sem seu camisa 10, o Santos soube valer de seu futebol técnico e velocista para superar o forte adversário. Toninho “empata” aos 21’, mas o arbitro anula o gol. Zito fica inconformado e reclama, e o juiz deixa o SFC com um homem a menos em campo. Mas nem isso impediu o Santos de evoluir, aos 25 minutos, Edu num chute cruzado e iguala o placar, 1 x 1. Cinco minutos depois, Buglê arrematou forte para virar a peleja e decretar a vitória brasileira. Contudo, o resultado não adiantou para levar a Taça do Hexagonal Chileno, que ficou com o Vasas da Hungria, pelo sistema de “gol average” mesmo o SFC tendo feito os mesmos pontos. Porém, a delegação santista desembarcou de forma proveitosa, estando com uma mala de dólares e grandes resultados no currículo internacional.
Retornando ao Brasil o clube acabou deixando escapar o Campeonato Brasileiro, mas o insucesso não abalou a equipe de Antoninho, afinal o treinador estava lidando com um dos elencos mais estrelados do mundo e sentiu a dificuldade inicial. Um grupo como o do Santos, recheado de jogadores de seleção brasileira e tendo Pelé evoluindo de uma condição de jogador genial para “Mito”, além da necessidade de mais dólares para pagar o Parque Balneário, a delegação já parte dia 28 de maio para uma nova turnê. O destino foi a África, local ao qual o Santos ajuda a popularizar o futebol e abre um novo mercado para os clubes.
Nessa época o continente Africano ainda não tinha uma Liga ou campeonato organizado entre clubes. O futebol apenas engatinha e era visto com certa curiosidade pelo povo. As seleções africanas, formada de jogadores amadores, somente passaram a participar com efetividade das Copas do Mundo da FIFA a partir de 1970. A nível de clubes sendo impossível representante numa disputa de título Mundial – algo que só poderia ocorrer décadas depois. Dessa forma, em campos africanos o Santos é obrigado a enfrentar apenas seleções nacionais, vencendo, em sequência, cinco delas: 4 a 1 em Senegal, 4 a 0 no Gabão, 2 a 1 na República do Congo, 2 a 1 na Costa do Marfim e 3 a 2 na Sel. de Congo. Eram tempos de exaltação para o povo africano com a libertação do regime colonialista-imperial, nascendo um sentimento misto de superação e otimismo, também muito inflamado pelos governos desses países. Em meio a esse processo, o futebol é uma forma de alegria, diversão e desenvolvimento. A presença do Santos cheio de atletas negros famosos, sobretudo com o Rei do Futebol, é recebida com veneração, os africanos tratam os brasileiros como “deuses na Terra”. E o Santos se despede dia 08 de junho, tendo como próximo destino a Europa.
Chega à Alemanha, país vice-campeão mundial na última Copa, uma semana depois. Em Munique, o Alvinegro vai enfrentar o atual Campeão Alemão, TSV 1860 München. Um bom resultado seria recondicionar o Santos ao cume internacional pela crítica europeia, pois estava diante de uma das principais equipes do velho mundo. Os “Die Löwen 1860” vinham dos títulos da Copa da Alemanha, um vice-campeonato europeu e o título nacional, com craques da seleção germânica como Bernd Patzke, Kueppers, Konietzka e Brunnenmeier. Atuando em seus domínios, os alemães foram empurrados por um público estimado em 40 mil expectadores.
Era um dos principais desafios internacionais, uma grande apresentação seria importante, mas com certa facilidade o primeiro tempo terminava 3 a 1 para o esquadrão alemão! Embora abrindo o placar com 9 minutos através de Abel, o Santos atuou com passividade e assistiu o München marcar com Rebele (aos 11’ e aos 32’) e Brundl (aos 18’). Das arquibancadas, afastado por contusão, Zito (SFC) sofreu observando a humilhação. Indignado com a ocorrente derrota frente ao campeão do país vice-campeão mundial, o centromédio santista desceu até os vestiários e fala à Antoninho: “Quero jogar”!
O “Gerente santista” entra e mesmo contundido, aos berros, organizou a distribuição santista comandando uma reação impressionante. Com 7 minutos, ele começa a jogada e Pelé marca para o Santos. Mas os alemães mostraram força e dois minutos depois fizeram 4 a 2. Naquele momento poderia ser impossível reação a qualquer time. Não para um que tem Zito! Ele incendeia os companheiros, desarma, grita, dribla e inicia todas as jogadas. É o dono do meio campo. E com uma pressão surpreendente a defesa alemã se segura como pode, até que Edu diminui com 33’, após passe de Zito. Pouco depois, aproveitando lance de Pelé, que vem driblando na velocidade, Toninho é oportuno e manda às redes. Finalmente, já aos 38 minutos, Pelé passou por três marcadores e, de dentro da área, assinala o gol da vitória com um arremate inapelável (5 x 4), a vitória de virada dos brasileiros ocorre em cinco minutos! Uma disputa emocionante, com bonitas tramas e lances magníficos, principalmente de Pelé. Sendo Zito o grande diferencial.
Da Alemanha o time viaja até a Itália, onde joga cinco partidas. Enfrentando equipes da primeira divisão do cálcio, o Santos vence Mantova, Venezia e Lecce, até compromissar pelo torneio Triangular Florença/Roma. Inicia dia 27 de junho, com empate 1 x 1 (gol de Carlos Alberto Torres) diante da forte Fiorentina de Albertosi, Hamrin, Bertini, De Sisti e outras feras. Chegando a final dois dias depois, para enfrentar a AS Roma dos craques Giacomo Losi, Joaquin Peiró e Paolo Barison. Naquele período os “Giallorossi” foram duas vezes campeões da Coppa Itália.
Com apoio da torcida, quando a partida é iniciada os italianos mostram mais decisão, obrigando Claudio a duas intervenções importantes. Não demorou muito, todavia, para o Santos imprimir sua velocidade com transição entre Clodoaldo e Abel, assumindo o controle. Foi assim que abriu o placar aos 9’, através de Toninho, que aproveitou o rebote do goleiro após chute de Lima. Na sequência veio a ameaça de reação da Roma com Peiró e Barizon, sendo coagido por Carlos Alberto e Orlando. E o Santos volta a ficar melhor no jogo, até conseguir marcar aos 41 minutos. O goleiro Pizzabala defendeu duas vezes, mas ao pegar novo rebote, Pelé livrou-se do defensor Carpenetti e colocou rasteiro no canto, o primeiro tempo encerrou 2 a 0 para o Santos.
Apesar de mais incisivo na maior parte da segunda fase, obrigando o goleiro romano a praticar grandes defesas, como em tiro de Toninho a queima-roupa, o Santos cedeu contra-ataques e a Roma marcou com Peiró, logo aos 3’. Mas por ter maior intensidade no ataque, o Santos não mostrou fraqueza em nenhum momento, sendo sempre superior e tendo muitas oportunidades, principalmente com Edu (entrou no lugar de Wilson) e Pelé. O Santos consegue, aos 34 minutos, novo tento! Pepe cobra escanteio com efeito e a bola acerta a trave, na sobra Rildo chuta fraco, mas fora do alcance do guardião italiano. Aplaudido em reconhecimento da atuação, o Santos conquista mais uma Taça na Itália, mantendo uma série invicta de 10 jogos no exterior.
A temporada internacional termina com o prestigio mundial definitivamente recuperado. As excursões renderam triunfos perante alguns dos melhores esquadrões do mundo (River Plate-ARG vice-campeão continental; o Campeão Mundial/Continental Peñarol-URU; o Campeão Alemão Munique 1860 e a AS Roma-ITÁ, entre outros), alguns milhares de dólares na bagagem, a Taça do Triangular Italiano, um Troféu conquistado na África (Congo) e medalhas recebidas na vitória contra o Veneza. Um retrospecto de 23 jogos, 17 vitórias, 04 empates e duas derrotas, em aproveitamento de 73, 91%.
Quando retorna ao Brasil, com um time perfeitamente entrosado (contando ainda com as contrações de Wilson Tergal e Silva, despontando da revelação Clodoaldo), o Santos FC forma um dos melhores elencos do mundo (jogadores que disputariam ou disputaram Copas do Mundo) e conquista o Campeonato Paulista ao vencer na decisão o São Paulo por 2 a 1, no estádio do Pacaembu/SP, com gols de Edu e Toninho Guerreiro.

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *