O fim de uma geração e começo de outra (1967)

Published On 02/04/2016 | A História das conquistas
Por Kadw Gommes
Santos, 02/04/2016
Atualizado, 21/12/2016

Grande parte da imprensa questionava o possível fim do grande Santos FC, esquadrão posteriormente eleito o maior de todos os tempos (El Gráfico). Com a derrota para o Cruzeiro na final da Taça Brasil de 1966, a aposentadoria próxima de grandes jogadores, estes já com idade avançado no elenco e a troca do técnico Lula, depois de 12 anos no clube (1954-66), pelo seu auxiliar Antoninho (craque do time nos anos 40), tudo levava a estipular que o epilogo do incomparável Santos FC havia mesmo se concretizado. Porém, apesar desse cenário, também estava sendo construído um novo momento no clube em 1967. A partir desse ano, uma nova geração histórica recolava o alvinegro no cume esplendor, estabelecendo uma dinastia (1955-1969), ditada pelo Rei do futebol.
Para manter o poderoso elenco e impulsionado pelas despesas com o Parque Balneário, necessitou-se ainda mais de capital financeiro desde 1965. Por isso, durante todo o ano em questão, foram feitas inúmeras excursões pelo globo terrestre, estas culminavam na arrecadação de alguns milhões de dólares. Com o acumulo exorbitante de jogos e para manter tal padrão desgastante dos atletas, era necessário um elenco numeroso e qualitativo. Com isso, logo no início do ano, chegam Buglê (meio campista, vindo do Atlético MG) e Rildo (lateral esquerdo, vindo do Botafogo, que havia disputado a Copa da Inglaterra em 66). O técnico Antoninho estreou no comando do time numa excursão importante, embora esta não possibilitasse avaliar ainda a qualidade do time.
FASE DE PREPARAÇÃO DO ELENCO.
Em janeiro, como era costume o Alvinegro parte para mais uma turnê mundial. Na rota pelas Américas quebra recordes de renda e público em Los Angeles e inaugura o estádio Leon no México (utilizado na Copa de 70), além de conquistar uma taça comemorativa, com vitória em 2 a 1 sobre o River Plate (ARG). Em meio ao momento transitório do Santos, ao qual o clube buscava melhor entrosamento para encaixar novas peças, começava a se intensificar um novo Campeonato Brasileiro no futebol nacional. Tratava-se do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que tinha formato mais abrangente em termos quantitativos de jogos por equipes que a Taça Brasil (1959-1967). Nesse “laboratório”, o Santos termina em 4º lugar do grupo B. Na sequência, segue para mais excursões, que tem como destino África e Europa. Numa breve estadia em solo italiano, venceu quatro partidas e empatou uma, conquistando o primeiro troféu na temporada, após empatar com Fiorentina (base campeã italiano em 69) em 1 a 1 e vencer a Roma por 3 a 1 dois dias depois.
No retorno ao Brasil para dar início ao Campeonato Paulista, o time está entrosado e bem treinado. Antoninho havia tido tempo suficiente de implantar seu trabalho. O clube apresentou ainda boas novidades: Wilson Tergal, Silva e Clodoaldo. O elenco santista é um rosário de atletas de Copas do Mundo, ao todo são dezesseis: Gylmar, Carlos Alberto, Mauro Ramos, Ramos Delgado, Orlando Peçanha, Joel Camargo, Rildo, Clodoaldo, Zito, Mengálvio, Lima, Silva, Coutinho, Pelé, Pepe e Edu. E ainda tinha Cláudio e Toninho (Eliminatórias de 69), Geraldino e Abel (Seleção 65). Fato recorde dentre clubes brasileiros! Nessa época, é importante frisar, que para a opinião pública e grande parte da mídia, os campeonatos estaduais ainda detinham o mesmo peso que os nacionais e eram competições extremamente valorizadas por equipes e dirigentes. A preparação era intensa, os estaduais envolviam diretamente os maiores rivais e uma enorme concentração da massa. Serviam também de parâmetro para saber a qualidade do elenco e do técnico.
UM CAMPEONATO DIFICÍLIMO.
Sabendo da importância de se fazer um grande campeonato, o técnico Antoninho e a nova geração do Santos FC, ainda com remanescentes, teria muito o que provar. Corrobore que, nas primeiras atuações, o time começou bem a competição, assumindo a ponta após três vitórias consecutivas: São Bento (4 a 3), Juventus (4 a 0) e Guarani (2 a 1). Até então, Toninho Guerreiro era o destaque marcando 5 gols em 3 jogos. Mas vieram os jogos seguintes ocorrendo três tropeços e a perda da liderança para o São Paulo, fazendo vim à tona toda a desconfiança. Era preciso saber administrar a pressão, quando se conquista a magnitude que alcançou o Santos FC, tornando-se o maior clube do mundo, além de fama e admiração, a pressão é intensa e desperta também o sentimento de inveja e críticas por todos os lados. Porém, em meio a tudo isso a equipe e Antoninho souberam administrar mostrando capacidade e valor, num tempo proveitoso de reorganização e confirmação.
A liderança fora reconquistada nos prélios seguintes, ao qual venceu Prudentina (3×0), Botafogo RP (2×1), empatou (0x0) com o São Paulo e triunfou sobre Comercial (3×1) e Port. Santista (4×1). Tudo caminhava em harmonia e pela necessitando de adquirir mais alguns dólares, a equipe se lançou para mais uma viajem, um mês e meio depois do início do campeonato, essa curta e mal planejada por EUA e Espanha, o que acabou desgastando atletas. Dentre estes Pelé, que acabou se contundindo. Sem ele e outros desfalques o time soube se comportar, não sentindo tanto as ausências, pois no retorno ao estadual vieram mais duas vitórias, sobre Ferroviária e Corinthians, ambas por 2 a 1. Contra o arquirrival paulistano, mesmo saindo atrás logo no início, o Santos teve competência para virar e vencer, com gols de Carlos Alberto e Toninho. Era final de setembro e mais amistosos, sendo que outros ocorreriam em novembro, todos estes pelo Brasil.
Na continuidade dos compromissos pelo Paulista, embora não podendo contar com Pelé, que só retornaria 8 de outubro, marcando um gol na vitória por 3 a 2 sobre o América e nos quatro jogos seguintes, o time embalou na e não perdeu mais. Chegando a golear o Palmeiras por 4 a 1, gols de Toninho (2), Silva e Pelé, em pleno Parque Antártica e vencer de virada o Corinthians no Morumbi, novamente por 2 a 1. Pelé e Carlos Alberto marcaram os tentos. Mas ocorreram alguns empates, que fizeram o time perder novamente a liderança para o Tricolor.
Em sua última partida, dia 17, o Alvinegro enfrentaria a Port. Santista e, além de vence-la, dependeria do resultado da partida no Pacaembu, entre o líder São Paulo e o já desclassificado Corinthians. O Santos fez sua parte vencendo e bem, a Santista por 3 a 1. Todas as expectativas se voltaram ao campo do Pacaembu, onde o São Paulo vencia o Corinthians por 1 a 0, dando possível fim a uma fila de dez anos. Porém, já nos acréscimos, em um de seus últimos ataques, o Corinthians chega ao empate com Bene. Além da empolgação santista, a torcida corinthiana comemorou como se fosse um título o resultado (1×1). Santos e São Paulo terminavam empatados e fariam um jogo no meio de semana para decidir o paulista de 67.
E O SANTOS FC DE ANTONINHO ERA O GRANDE CAMPEÃO…
O VELHO SANTOS DE SEMPRE!
Antecedendo a final a imprensa que antes questionava agora creditava ao SFC o favoritismo. Por parte dos são-paulinos, a grande preocupação era com a os desfalques na defesa, que obrigava o veterano Bellini, 37 anos, a voltar ao time com ingrata incumbência de marcar Pelé. Para aquela decisão, o Santos formou com Claúdio; Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel Camargo e Rildo; Clodoaldo e Buglê; Wilson, Toninho, Pelé e Edu. Técnico: Antoninho.
Logo que se início o prélio final, noite quente e iluminada de 21 de dezembro, ficou evidente a postura das equipes em campo. Enquanto o Santos tecnicamente perfeito, mostrava domínio necessário para construir a vantagem; os jogadores do São Paulo nervosos, não se entendiam em campo e a defesa batia-cabeça. Não demorou muito para o alvinegro tirar o zero do placar, logo aos 10 min, Edu cruzou da ponta esquerda, a bola encontrou Pelé que com toque sutil de cabeça à lança em direção ao centro da área, Toninho e Picasso trombam e a bola sobra para Edu estufar as redes do tricolor. Passados dois minutos, em outra boa trama ofensiva dos santistas, Pelé recebe lançamento, passa pelo defensor e ajeita para Toninho ao centro livre, este de primeira toca com categoria na saída do goleiro, para marcar o segundo tento. Construída à vantagem de 2 a 0, o Santos mostrou experiência, cadenciando o resultado e explorou contra-ataques, podendo ter aumentado o placar. Já o São Paulo se lançava desordenadamente a frente, conseguindo perto do fim, marcar com Babá, mas sem qualquer efeito, pois já não havia mais tempo. Terminado o jogo, muita comemoração dos santistas e do técnico Antoninho, esbravejando e indo as lagrimas.
AO TERMINO DA COMPETIÇÃO CONCLUIU-SE QUE:
(1). Era a coroação do decimo título estadual da história santista, competição que redemonstrou a postura clássica tradicional do Santos FC. (2). Agora sob comando de Antoninho, que conquista seu primeiro título. (3). No time, uma defesa rígida e ortodoxa; um meio campo técnico sempre auxiliado pelos pontas de lança habilidosos; os mesmos exercendo aos avançados liberdade para executar gols. (4). A campanha invejável fora de 17 triunfos, nove empates e apenas uma derrota. Com 63 gols pró e 33 contra. (5). O Santos FC estava pronto para fazer de 1968 mais uma temporada de ouro na sua história.

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
Jornal Folha de SP;
Jornal ESTADÃO;

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