É Tetra, Brasileiro!

Published On 08/05/2014 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

Depois de torna-se o primeiro clube do Brasil Bicampeão Mundial Interclubes, Bicampeão da Copa Libertadores e Tricampeão Brasileiro (Supercampeão do Brasil), além de Tricampeão Paulista e Campeão do Torneio Rio-São Paulo, somando 11 conquistas em 12 disputadas, o Santos F.C. passou por um período de reformulação no elenco, entre fins de 1963 e intensificando no início de 64.
Apesar do processo transitório, na opinião de críticos europeus e sul-americanos (estudo da El Gráfico), o Alvinegro continuava a ser o melhor time do mundo. A equipe de 1964-65 foi uma das cinco mais votadas pela à enquete histórica dentre as maiores de todos os tempos.
Porém, as mudanças associadas ao desgaste das muitas competições, jogos e viagens, fizeram o time apresentar uma queda de rendimento e alguns atletas sofreram por lesões. Tecnicamente se perdeu pouco sendo mais sentido o entrosamento: na parte defensiva, Calvet (com uma contusão que impedira de continuar) e Dalmo, negociado, davam lugar para Joel Camargo e Geraldinho; Mauro Ramos sofreu lesões e foi substituído por Haroldo e Modesto. Na ofensiva, Dorval também foi negociado (para o Racing/ARG), em seu lugar chegara Peixinho, e o artilheiro Toninho Guerreiro passou a ser melhor opção no lugar do craque Coutinho, que sofria com excesso de peso e problemas no joelho.
Todo esse processo instável resultou em momentos de inconstância no padrão tático-técnico do time. Algo que foi sentido depois do Tricampeonato Brasileiro, nas excursões de início de ano, sofrendo duros golpes para Independiente/ARG e Peñarol/URU; e meses depois com a perda da Libertadores. Na fase semifinal, além de subornos de arbitragem favorecendo os argentinos, o Santos chegou a jogar sem Mauro Ramos, Mengálvio, Coutinho e Pelé – todos lesionados.
Nesse ínterim, a equipe contornava desempenhos altos e baixos. Nas elevações, conquistou o Bicampeonato do Torneio Rio-São Paulo e chegou a fazer grandes partidas na América Latina e Europa, nos meses de maio e junho, ganhando alguns dólares. Derrotou o campeão nacional Boca Juniors (4 a 3) e o forte Racing (2 a 1) em solo argentino; o campeão francês Saint Ettiénne (4 a 3) na França e o Borussia Mönchen (2 a 1) na Alemanha. Mostrando que, mesmo quando passou por ajustes, o Alvinegro superava grandes adversários, campeões nacionais e dentro do território alheio.
Não foram apenas modificações na equipe, também ocorreram mudanças estruturais, promovidas pelo presidente santista Athiê. Trata-se da ampliação sistemática de Vila Belmiro, prorrogada desde os anos 50, finalmente sendo finalizadas, elevando a capacidade para teóricas 30.000 pessoas. Gerando grandes públicos no estadual.
Aos poucos a equipe foi se aprumando. Estando em boa forma para conquistar seu primeiro proposito: o título do Campeonato Paulista de 1964 (embora apresentando a campanha mais modesta desde 1958). Novamente em grande fase, o Santos reafirmava sua condição de “melhor time do mundo” (como indicava o ranking internacional da inglesa Word Soccer) e, paralelo ao estadual, chegou ao mês de outubro de 1964 buscando o maior objetivo do ano, comum a todos os outros clubes do país: conquistar a Taça Brasil (realizada entre 26 de julho e 19 de dezembro), o Campeonato Brasileiro da época. Mas embora todos ansiassem disputa-la, nem todos conseguiam, era difícil pois exigia um mérito esportivo classificatório – o único possível para a época – reunindo campeões estaduais.
Para ser Campeão Brasileiro, só existia um único viés: passar por etapas classificatórias, mesmo regulamento das competições continentais e mundiais. A fase nacional era curta, mas o caminho até ela era estafante e longo. Após cumprir 48 jogos (como campeão do estado ou campeão do Brasil), superando rivais e grandes adversários nacionais, o Santos chegou em mais uma fase nacional, a IV edição do Campeonato Brasileiro (Taça Brasil), e teve de enfrentar três camisas pesadas que esbanjavam tradição.
Pelas Quartas de Final, o Alvinegro da Vila Belmiro teve como adversário o principal clube de Minas Gerais. Possuindo uma equipe de nível nacional (com os vultos Bueno, Grapete, Luis Carlos, Marcelinho, Nilson, Buglê, Noêmio e outros), o Atlético/MG era desde aquela época o maior Campeão Mineiro com 22 títulos, além de Campeão dos Campeões (FBF). Havia conquistado o Bicampeonato estadual (1962-63) e mostrou-se confiante diante do Santos, vigente Bicampeão Mundial. Mas a empolgação mineira foi só até entes da bola rolar, pois dado o início do duelo, no estádio Independência, em 18 de outubro, com recorde de público (36 mil pessoas) e renda ($ 31.500.000,00), o que se viu foi um Santos avassalador.
Percebendo a severa atenção que os mineiros faziam sobre Pelé, o técnico Lula mandou que ele jogasse no meio campo, armando o jogo. Enquanto Zito teria mais liberdade ofensiva e Mengálvio faria uma função mais recuado. (…) aos 23’, Pelé lançou Zito, que engana deixando a bola passar à Pepe, o atacante se livrou da marcação e finalizou forte: 1×0! Antes do fim da primeira etapa, (…) aos 43’, Pepe de falta acertou tiro perfeito e vazou novamente a meta de Luis Peres (2×0). Na segunda etapa, o Atlético conseguiu diminuir com Buglê com apenas 10 minutos. Mas após triangulação de Pelé para Zito, lançando Toninho, este finalizou sem apelação e aumentou aos 27’. Dez minutos depois, Pelé passou por três marcadores, sofreu falta dura que ele mesmo cobrou com efeito (4 a 1), encerrando o cortejo.
04 de novembro foi o encontro da volta, outra performance magnifica do time Santista, contra um Atlético abatido agora na capital paulista, disputa no estádio do Pacaembu/SP. O resultado começou a ser construído aos 14’, Toninho tabelou com Pepe e chutou cruzado: 1×0. Seis minutos depois, Pelé ampliou de cabeça (2×0). Toninho marcou o terceiro aos 33’, depois de contornar um adversário e bater firme. Mesmo desorientados, os mineiros diminuíram a goleada com Buglê aos 38′. Porém, sete minutos mais tarde, Peixinho tratou de aumentar para o Santos, após dominar no peito e chutar com precisão, encerrando o primeiro tempo em 4 a 1! Na segunda etapa, poucas jogadas agudas, (…) somente Pelé converteu com categoria uma penalidade (aos 22′) e deu números finais: 5 a 1!
O encontro mais esperado veio na Semifinal. Rivalidade intensa eram os encontros no “Clássico dos Clássicos”, Santos x Palmeiras, nos anos 60. Os dois clubes mais vencedores da Era de Ouro do futebol brasileiro costumavam fazer duelos surpreendentes, primando pela técnica e alta categoria dos craques, deixando saudade nos amantes da bola.
A primeira “Academia Palmeirense”, postulou uma equipe que jogou junto por muito tempo. Naquele período, comandado por craques como Djalma Santos, Djalma Dias, Dudu, Tupãzinho, Rinaldo, Julinho Botelho e Ademir da Guia, um esquadrão extraordinário, sinônimo de futebol bem jogado, impecável e acadêmico, conquistou os Campeonatos Paulistas de 1959, 63 (era o atual campeão) e 66, o Torneio Rio-São Paulo de 65, o Campeonato Brasileiro de 1960, tendo sido ainda o primeiro brasileiro finalista da Copa Libertadores em 61.
Seriam os duelos mais importantes da história do clássico saudoso. Sabendo disso, o Santos foi concentrado para o primeiro confronto decisivo, realizado numa quarta à noite, dia 4 de novembro daquele ano. O jogo começou a todo vapor, logo no início a arbitragem deixa de marcar pênalti claro em Pelé. Pouco depois o Palmeiras desperdiça um pênalti. (…) até que, aos 24′, Coutinho aproveitando jogado de Pepe e bobeada da zaga palmeirense, apenas empurrou para às redes: 1×0! Com mais ímpeto a partir dos 30 minutos, o Santos se manda para cima do Alviverde. A pressão é intensa, aos 40′: Zito toca para Pepe, que passa de passagem por Djalma Dias e atira violentamente balançando o filó (2×0)! Ameaçando uma reação, o Palmeiras diminui com Gildo no finalzinho do primeiro tempo, a torcida palmeirense se anima no intervalo. Porém, na volta, com 6′, Pelé esfria os ânimos cobrando uma penalidade máxima (3×1). O Alviverde corre atrás do resultado com Ademir da Guia, em cima da hora Ademar ainda cobra um pênalti na trave. A partida encerra na vantagem santista de 3 a 2.
Na partida de volta, seis dias depois, no mesmo estádio do Pacaembu/SP, a peleja foi equilibrada no primeiro tempo, ficando no 0 a 0. Entretanto, a segunda parte foi de pleno domínio de uma equipe, a melhor: imprimindo um ritmo alucinante, misto de raça e altíssima classe, o Santos agrediu forte. Aos 11’, Pepe recolheu de Peixinho e chutou forte sem apelação: 1×0! (…) com 25 minutos, Pepe cobrou escanteio e Coutinho de cabeça ampliou. Não demorou para a coisa desandar: cinco minutos depois, Zito que vinha explorando os lançamentos nas costas dos médios palmeirenses, fez grande jogada, olhou e deu passe à Pepe. Se infiltrando na área, após vencer a marcação, o ponta-esquerda mandou um petardo quente estufando o couro nas redes: 3 a 0! Aos 32′, jogada de raça feita por Pelé, que mesmo marcado de maneira faltosa tocou para Peixinho, livre, atrair o goleiro Picasso (SEP) e tocar no outro canto: passeio, 4 a 0! O Palmeiras ficou verde e não amadureceu, o Santos deu de lavada. Com o triunfo a classificação para a grande decisão contra o campeão do Rio de Janeiro.
As rivalidades no Brasil estavam acentuadas pela paixão dos torcedores. Vivia-se a era romântica, os clássicos tinham enorme representatividade, nunca antes o futebol tornou-se símbolo maior do lirismo brasileiro. O país do otimismo, era Bicampeão Mundial, um celeiro de craques e notoriedade em grandes times. E enquanto no futebol paulista o Palmeiras impedia um monopólio maior do Santos, no futebol carioca o Botafogo sem intensificar domínio, teve de dividir atenções em termos de conquistas com outro clube. Campeão Carioca de 1963 e 65 (IV Centenário do Rio), Campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1961, além de boas apresentações na Europa e América do Sul, mesmo com algumas alterações no período, o Flamengo da primeira metade da década de 1960 também era um esquadrão e mostrava seu valor, chegando a decisão na primeira vez ao qual disputou o Campeonato Brasileiro.
A equipe comandada por Flávio Costa, técnico do Brasil na Copa de 1950, desempenha uma forte marcação com um modelo tático bem postado, alinhando jogadores disciplinados e/ou de grande capacidade técnica, alguns chegaram à Seleção Brasileira. Para às finais o Flamengo formou sua defesa com Marco Aurélio; Murilo, Ditão, Ananias e Paulo Henrique; a frente com Amauri, Airton, Berico (Paulo Alves ou Paulo Choco) e Carlos Alberto, com destaques para a criação dos médios, o “violino” Carlinhos e o ponta de lança Evaristo de Macedo.
Enquanto o Santos do técnico Lula, campeão de praticamente tudo que disputou entre 1961 a 64, jogou com a seguinte escalação: Gilmar; Ismael, Modesto, Haroldo e Lima; Zito e Mengálvio; Toninho, Coutinho, Pelé e Pepe. Com uma única alteração no segundo jogo, a entrada de Geraldinho no lugar de Lima. A promessa da diretoria do Santos, o clube de maior poder financeiro do país, oferecendo “bicho” de um milhão de cruzeiros a ser dividido aos jogadores em caso do tetracampeonato, era uma motivação extra.
A primeira partida da decisão do Campeonato Brasileiro (Taça Brasil) de 1964, ocorreu no estádio do Pacaembu/SP, com um público beirando 30.000 pessoas, noite de quarta-feira do dia 16 de dezembro daquele ano. Com mais atitude nos primeiros minutos, o Flamengo surpreende com três ataques perigosos – Em jogada de Carlinhos, Airton quase marca, a bola passa rente a trave. Porém, rapidamente o Santos passa a propor o ritmo, deixando os cariocas na roda. Pelé tenta aos 18, mas a bola passa por cima. Aos 19′ não tem perdão: Mengalvio escorou de cabeça, do meio-campo, servindo o camisa 10, que sem deixar o couro cair entrega a Coutinho. Rapidamente o centroavante devolve a bola na frente, Pelé domina e avança, mesmo pressionado por Ananias, consegue um violento arremate vazando a meta rubro-negra: 1×0! (…) O equilibrou dos quadros aos poucos se restabelece, jogadas pelo alto são recorrentes, o jogo fica mal-apanhado, o primeiro tempo encerra sem brilho.
Forte chuva começou a cair no intervalo, aumentando no entrar dos quadros e ao decorrer do segundo tempo. Quando se imaginava que a partida cairia em nível técnico, devido as poças de lama que se formaram, encontrou-se um jogo mais aberto. Com os atacantes santistas próximos do meio campo, expondo lançamentos e avançando em velocidade, o Flamengo passou a jogar na retranca. Os rubro-negros passaram a abusar das faltas, cometidas sempre na intermediaria para impedir os avanços do Santos. Mas aos 14′, Murilo derrubou Pepe há poucos metros da área. Na cobrança, Pelé arremata com efeito sobre a barreira, o couro bate na grama e ganha velocidade superando Marcial: 2×0!
Sem ter outra solução, os flamenguistas passaram a chutar de longa distancia. Em um desses lances, aos 24′, Carlos Alberto acertou a trave de Gilmar. Dois minutos depois, Evaristo cobrou falta sem muita força, Gilmar tentou agarrar a bola (escorregadia) e deixou escapar, Paulo Alves aproveitou e diminuiu para o Flamengo. Mas nada de reação, foi o Santos quem se impôs. (…) Aos 32′, Toninho tocou para Pelé, este esperou a passagem do atacante e devolveu por cima dos zagueiros, Marcial tentou impedir o tento espalmando a redonda, que sobra nos pés de Coutinho, livre. O centroavante domina e marca sem dó: 3×1. Cinco minutos depois, Pelé driblou Carlinhos e, de fora da área, deferiu arremate rasteiro com força no canto esquerdo de Marcial: espetáculo, 4 a 1!
Apesar da goleada em São Paulo, a torcida Rubro Negra não se entristeceu, comparecendo em peso no sábado, pela partida de volta no estádio do Maracanã/RJ, 55 mil torcedores lotando as arquibancadas para empurrar o Campeão Carioca. No apito Armando Marques. A imprensa do Rio de Janeiro, destacava que bastaria uma vitória para forçar um terceiro jogo e os flamenguistas teriam um prêmio, a saber quando fossem receber os salários, caso vencessem o título brasileiro. O técnico Flávio Costa veio com o mesmo esquema (4-2-4), com a alteração no gol de Marco Aurélio no lugar de Marcial (que teve de fazer uma cirurgia no joelho). Já Lula adotou um esquema cauteloso (4-3-3), com Toninho mais recuado ajudando Zito e Mengálvio no meio.
A torcida do Flamengo empurra a equipe a todo custo desde os primeiros instantes, que responde se mandando ao ataque, cria chances com Paulo e Evaristo, mas sente a resistência da defesa Alvinegra. Muito bem marcado por Ditão e Ananias, Pelé que era o maior desafogo do Santos, pouco faz ou cria. (…) precisando apenas do empate, os santistas prendem a bola, sem deixar o Rubro Negro dominar. Pra piorar pro lado carioca, Marco Aurélio torce o tornozelo (foi substituído por Renato) ao defender um chute de Mengalvio. (…) percebendo a insegurança do novo goleiro, os atacantes do Alvinegro começam a arrematar de longe com perigo: Ouve-se o frisson… Uh Uh Uh!
Ao Flamengo só interessava a vitória e o time vai pra cima a pedido do técnico. Do banco contrário, Lula sente a pressão: troca Toninho por Lima, fechando o meio. Até o final nada mudou como descreve a Gazeta Esportiva: “A partida (…) deixou muito a desejar, pois se é verdade que houve muita movimentação, careceu de melhor compostura técnica. (…). No final, resultado justíssimo para uma platéia grande que saiu sem ver gols”. Era o Tetracampeonato de um Santos FC arrasador e Supercampeão Nacional, novamente invicto e com o artilheiro do Campeonato, o Rei Pelé.
(Jornal a Gazeta Esportiva edição do dia 20/12/1964). O Santos sagrou-se tetracampeão da Taça Brasil, ao empatar com o Flamengo, sem tentos, no Macaranã. A partida, entretanto, deixou muito a desejar, pois se é verdade que houve muita movimentação, careceu de melhor compostura técnica. (…). No final, resultado justíssimo para uma platéia grande que saiu sem ver gols.

Fontes e Referencias:
Dossiê, Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959 (Odir Cunha e José Carlos Peres);
Jornal a Gazeta Esportiva;
Revista Fatos & Fatos;
CBF (Confederação Brasileira de Futebol);
Jornal Folha de SP.

 

One Response to É Tetra, Brasileiro!

  1. Carlos Henrique says:

    Este foi o Brasileiro como taça Brasil mais bonito do santos. bateu em três gigantes do futebol brasileiro. Na final venceu meu Flamengo que tinha o craque Evaristo. O Mengão deu troco em 83!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *