O título brasileiro e as oito pedaladas!

Por Gabriel Santana
Santos, 15/12/2015
15 de dezembro de 2002, um dia que ficará marcado para sempre na vida do Santos Futebol Clube.
Diziam que o Alvinegro estava há 18 anos sem títulos importantes. Muitos desdenham erroneamente e esquecem da conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1997 e da Copa Conmebol de 1998.
Diziam também que aquele time formado em 2002 por Emerson Leão, brigaria para não cair para a segunda divisão, e que seria uma das piores equipes do campeonato.  Menosprezaram a grande força do Santos e dos Meninos da Vila!
Com muita técnica e disciplina, o time santista fez uma grandiosa campanha durante a competição, e chegou colocando medo no então favorito Corinthians. Na primeira fase havia se classificado em 8º, e ainda muitos continuaram desdenhando a equipe. Todo esse menosprezado, se transformou em garra, fibra e ardor, e o Santos mostrou, naquele domingo, dia 15 de dezembro, porque é uma das maiores equipes do futebol mundial!
PRIMEIRO TEMPO
A partida começa eletrizante, e com apenas um minuto de jogo, o Corinthians avança e ataque pela primeira vez. Gil cruza na cabeça de Guilherme, para Fábio Costa fazer a sua primeira grande defesa do jogo.
Enquanto isso, Diego sentia uma lesão na coxa, e dava sinais que não continuaria no jogo. Segundos depois, o técnico Emerson Leão chamou o meia Robert, e o camisa 10 santista não teria mesmo mais condições de atuar. O menino de 17 anos sai carregado de campo e chorando muito. Antes de sair, o amigo Robinho manda um recado “Jogadores essa final por você”.
O Corinthians manteve a pressão, porém, sem nenhum resultado. Robert entra bem no jogo, e começa a comandar o meio de campo santista.
Aos 7 minutos, Robinho ensaia algumas pedaladas pra cima do Rogério. Seria um aperitivo do que estava por vir. Três minutos depois, é a vez do Santos ter uma grande chance. Em cobrança de falta de Robert, Alex sobe e cabeceia para grande defesa de Doni.
O jogo começa a ficar igual, e o Meninos da Vila equilibram o jogo. Em nova cobrança de Robert, agora de escanteio, ele quase marca olímpico. Doni precisou se esticar para evitar o gol.
2002-12-15 - Corinthians 2 x 3 Santos (36)Aos 35 minutos, Fábio Costa repõe a bola para Léo, que toca mais a frente para Paulo Almeida. O Capitão santita tenta avançar e perde a bola, mas logo na sequencia Robert recupera e devolve para o camisa 3 do Santos, que rapidamente vê Robinho livre e o lança. Há exatamente 35 minutos e 41 segundos de jogo, Robinho parte pra cima do lateral Rogério e começa a gingar de um jeito que deixou o marcador corintiano atordoado. Eram as pedaladas. Foram oito no total. Robinho só foi parado dentro da área, e com falta. Além de Rogério, Fábio Luciano e até mesmo o árbitro foram deslocados. Pênalti incontestável, até “a mãe do Rogério marcaria”, como disse o excelente narrador José Silveiro.
Confiante, Robinho pede a bola para realizar a cobrança. O menino de apenas 18 anos com uma responsabilidade enorme nas costas. Isso pareceu não o incomodar. E com muito autoridade, aos 37 minutos, ele corre pra bola e faz a torcida santista explodir de alegria. Bola para um lado e goleiro para o outro. Santos 1×0 Corinthians! Era a genialidade de Robinho fazendo a diferença em campo.
Agora, para ficar com o título, o time da capital precisaria vencer por 3×1, que igualaria o placar de dois gols de diferença no jogo de ida, e como tinha vantagem por ter uma melhor campanha, se beneficiaria com dois placares de saldos iguais.
2002-12-15 - Corinthians 2 x 3 Santos (2)Perto do fim, aos 39 minutos, o volante Fabinho assusta a meta santista com um bom chute, passando perto da trave. Já perto dos 46, Fábio Costa faz mágica. No primeiro lance ele sai do gol, e com muita fibra, se joga em cima de Gil, e de carrinho consegue tirar a bola, que corre pra lateral. O arqueiro santista vai em direção a bola e manda um petardo em direção a torcida do Corinthians. Eles se revoltam e inflamam, e na sequencia, Kléber cruza para Guilherme, que sozinho, cabeceia forte, e Fábio Costa voa para fazer uma defesa fora do comum. Espalma bravamente, e responde os gestos da torcida corintiana com a sua garra.
Após o show a parte de Fábio Costa, o árbitro pede a bola e encerra o primeiro tempo.
SEGUNDO TEMPO
A segunda etapa começa muito nervosa e equilibrada. Logo no início, em jogada de Léo, Robinho perde gol frente a frente com Doni, ao tentá-lo encobrir. O Corinthians responde rápido, e aos 9 minutos, em falta cobrada por Rogério, Gil perde grande chance também de frente ao goleiro santista.
Aos 12 minutos, outra falta é marcada para o Corinthians, e o técnico Emerson Leão se descontrola. É expulso pelo árbitro Carlos Eugênio Simon, que recebe muitos “elogios” do comandante santista. Na cobrança da falta, Rogério cobra rasteiro e Paulo Almeida desvia para trás na tentativa de cortar o lance, e obriga Fábio Costa a fazer mais uma defesa milagrosa. Ele se estira no chão após mais uma grande defesa. O goleiro santista estava inspirado e atuando como se fosse o jogo de sua vida.
Ainda na mesma jogada, o Corinthians cobra escanteio, e a bola passa pelo meio da defesa, obrigando Fábio Costa a desviar para a linha de fundo. Paulo Almeida e André Luis se desentendem, e quase iniciam uma briga. Fábio Costa e Alex logo os separam. Novo escanteio para o time corintiano, e o goleiro santista mais uma vez, faz uma defesa fora do comum. Como nas duas defesas diante das cabeçadas de Guilherme, ele voa para defender uma bola “a queima-roupa”, dessa vez na cabeçada de Fábio Luciano. Era a 5º defesa extraordinária do goleiro alvinegro. No contra-ataque, o Santos responde com um chute de Robert. Tudo isso com 16 minutos do segundo tempo.
O Corinthians continuou mais ataque, que era o normal, já que precisava do resultado. Tanto fez, que aos 30 minutos, conseguiu o primeiro gol. Gil levanta na área e Deivid balança as redes. Em um gesto de desespero, ele sai correndo para buscar a bola no fundo das redes, e pergunta quanto tempo falta.
O resultado agregado ainda dava Santos, 3×1. O Corinthians precisava de mais dois gols para igualar e ficar com o título.
O Santos tentava esfriar o jogo levando a bola para as dianteiras, mas não obteve muito sucesso. Aos 38 minutos, Fábio Costa espalma uma bola levantada na área, e no rebote Gil recebe e faz jogada com Marcinho, que sofre nova falta. Novamente bola alçada na área, e vem o empate corintiano. Anderson cabeceia no alto, longe de Fábio Costa. O Corinthians inflama, a torcida explode. Faltavam 5 minutos para terminar o jogo, e o time de Parque São Jorge precisava apenas de mais um gol para conquistar o título.
A fatídica derrota na semifinal do paulista de 2001 vem a cabeça de todos os santistas. Naquela ocasião, Santos e Corinthians empatavam por 1×1, resultado que dava a vaga na final para o time santista. E aos 47 minutos, o Corinthians fez o gol da vitória.
2002-12-15 - Corinthians 2 x 3 Santos (20)A apreensão tomou conta dos torcedores do Alvinegro. Todos estavam a flor da pele, e temendo o pior. Aquele menino das pedaladas, que havia desequilibrado no primeiro tempo, parecia ser o mais lúcido em campo. Elano recebe a bola no meio e lança Robinho, que avança pela lateral e deixa o autor do segundo gol corintiano no chão. O camisa 7 invade a área e acha Elano vindo de trás, pronto para acalmar o coração da nação santista. Bola no fundo das redes! Santos 2×2 Corinthians. Elano empate o jogo em uma bela jogada de Robinho, aos 43 minutos, em um dos momentos mais críticos do jogo. Na imagem da transmissão, aparece um casal eufórico, vibrando como nunca. Era o reflexo de todo o torcedor do Santos.
45 minutos, a festa santista já estava estampada. O técnico Emerson Leão, que havia sido expulso, vem de “mansinho” pelo túnel, e consegue assistir o final da partida.
2002-12-15 - Corinthians 2 x 3 Santos (24)Escanteio para o Corinthians, o último suspiro. Alex afasta o perigo, e a bola sobre pra Léo, que vê Robinho livre e o lança. O menino que desequilibrou a final, que foi o responsável direto pelos dois gols, ainda tinha suspiro para fechar o caixão corintiano. Ele recebe e avança para lateral, pra cima de Kléber e Vampeta. Sem nenhuma dificuldade ele entorta os dois, que ficam perdidos atrás do menino craque. Ele avança mais um pouco, e toca para Léo na entrada da área, que de perna direita, sacramenta a vitória e o título! Santos 3×2 Corinthians! O torcedor santista solta o grito que estava engasgado na garganta há muito tempo! Um título mais que merecido, um título de toda uma  geração.
Léo se joga no gramado com Paulo Almeida. Os dois eram remanescentes da sofrida derrota na semifinal do paulista de 2001. Até mesmo a geração de 1995, roubada pela arbitragem, estava representada por Robert, que tomou conta do meio campo santista na final.
Fábio Costa um gigante, uma muralha. A melhor atuação de um goleiro dos últimos tempos. Fez no mínimo seis defesas extremamente difíceis.
Robinho, o menino que decidiu a final! 18 anos de idade, a camisa 7 nas costas e maturidade o suficiente para ser o nome do jogo!
Todo o elenco foi crucial para a conquista do grande título. Uma geração que ficará marcada na história do Santos, que revolucionou o Alvinegro, que deu esperanças para o futuro, que fez surgir novas gerações.
2002-12-15 - Comemoração - Título (34)A festa pela conquista foi enorme. O elenco santista veio para Santos no carro do corpo de bombeiros, desfilando pelos principais pontos da cidade. A comemoração durou até o amanhecer, e os torcedores santistas queriam ficar por muito tempo nesse momento.
Um título inesquecível, o título da vida de muitos santistas. Título como esse, nunca veremos iguais! 15 de dezembro de 2002, um dia que ficará marcado para sempre na vida do Santos Futebol Clube!
FICHA TÉCNICA
15/12/2002 – Corinthians 2 x 3 Santos
Gols: Robinho aos 37min do primeiro tempo; Deivid aos 30min, Ânderson aos 40min, Elano aos 43min e Léo aos 46min do segundo tempo.
Local: Estádio Morumbi, em São Paulo.
Público: 74.586 presentes
Renda: R$ 1.152.809
Árbitro: Carlos Eugênio Simon (RS)
Cartões amarelos: Fabinho, Fábio Luciano, Fabrício (C), Maurinho, Fábio Costa (S)
Corinthians: Doni; Rogério, Fábio Luciano, Ânderson e Kléber; Fabinho (Fabrício), Vampeta e Renato (Marcinho); Deivid, Guilherme (Leandro) e Gil. Técnico: Carlos Alberto Parreira
Santos: Fábio Costa; Maurinho, Alex, André Luís e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego (Robert)(Michel); Robinho e William (Alexandre). Técnico: Émerson Leão

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