Os Professores do Gol!

Published On 25/10/2017 | Memória Santista
Por Kadw Gomes
Santos, 25/10/2017

Com o passar do tempo, naturalmente as evoluções ocorrem no esporte.
Sejam elas simples ou drásticas.
No futebol não é diferente. Desde os primeiros praticantes do “soccer” as mudanças foram acontecendo, sendo incorporadas, exercidas, melhoradas ou aprimoradas.
No começo tudo era um caos. Até que surgiu alguma organização. Houve o fenômeno da popularização e expansão. Alterações nas regras, no sistema de jogo, nas formas de treinamento, nos materiais utilizados, entre outras mudanças…
Adicionaram um pouco de técnica dali, acrescentaram um pouco de tática de lá, preparo físico, fisiológico, ciência, etc.
Mas a importância e a grandeza das ocorrências que fizeram o jogo evoluir devem ficar eternizadas na história. Principalmente as revoluções feitas por times lendários, que deram sua parcela de contribuição. Assim, algumas dessas revoluções feitas por equipes históricas, aliás, jamais serão repetidas, alcançadas, seja pela marca estatística ou pela perfeição exercida dentro de tudo que se conhecia na respectiva época.
Mesmo a Era Amadora – a mais inercial das épocas – passou por momentos evolutivos. E no futebol brasileiro, o mais essencialmente belo de todo o planeta, o Santos F.C. foi um fenômeno evolutivo imprescindível. Condutor da essência tupiniquim, um Campeão da Técnica e da Disciplina que revolucionou o esporte mais popular ainda no Amadorismo. Eram os cognominados Professores Santistas, ou melhor, os PROFESSORES DO GOL.
Em um recorte de jornal sobre a década de 20, bastante interessante, compreende-se o que representou aquele esquadrão. Redigiu-se assim:

“Possuidor de extraordinário ataque, que, ao mesmo tempo que empregava a velocidade, empregava também, em idêntica dosagem, a técnica. Essa linha de frente, era, ao mesmo tempo, “escola” e “fabrica” de gols. Ao mesmo tempo que dava lições de como produzir um belo jogo atacante, realizava goals aos cachos, demonstrando, dessa maneira, a pratica do que existia quase teoricamente”.
“Camarão articulava e Feitiço ligava a linha média ao ataque. Siriri provocava grandes “meleés” e Araken desfrutava das situações. Eram em grandes quantidades marcados os tentos do alvi-negro praiano, e no fim do campeonato o total de tentos somados foi 100! Nunca, antes ou depois, esse total foi superado”.

A escola do gol tinha mesmo professores magníficos. Repercutidos no Brasil pelo jogo de velocidade, beleza técnica, forma de conduzir e efetivar jogadas.
Até mesmo na América do Sul e Europa chegaram a ser elogiados. Os estrangeiros puderam aprender do jogo ofensivo, de técnica e disciplina do Santos F.C. de 1927 a 1931.
Provavelmente, o Santos desse período foi a maior evolução ocorrida no Brasil. Esse time, inclusive, detém os recordes de melhor aproveitamento de jogos e gols do próprio Santos. Confira na Página de Desempenhos.
Em outro artigo, escrito por Tomaz Mazzoni, delatou-se o seguinte texto:

“Vila Belmiro encheu durante longos anos o coração dos mais aficionados. As façanhas do quadro santista correram mundo, perpetuando-se nos anais esportivos nacionais como marcos de glorias para o Brasil. Quantas vitorias, quantos dias fastuosos, fazendo descer na alma do torcedor a vibração incontida dos momentos dramáticos e inesquecíveis. Quanta alegria, quanto entusiasmo, que jamais serão esquecidos”.
“O mundo é assim, ás vezes nos faz viver recordando. Recordando um passado que sempre está presente, uma felicidade que embalou o coração de uma coletividade, porém, mais do que isso se transformou num acontecimento de âmbito nacional. Este foi o Santos, de 27 a 31, o Santos que armava no alçapão de Vila Belmiro suas majestosas virtudes técnicas, dominando facilmente os maiores conjuntos brasileiros e estrangeiros. Por certo os aficionados ainda evocam com verdadeira comoção esses imorredouro período do Santos”.
“[…] Os vultos que passaram por sua história nunca mais desapareceram da mente dos nossos esportistas. Alguns alcançaram o selecionado patrício, outros chegaram apenas ao de São Paulo, mas todos, indiscutivelmente, foram brilhantes. Feitiço, Araken, Sirirri, Evangelista, Camarão, Osvaldo, Athiê, Alfredo, e tantos outros elementos de projeção, eis o que foi o Santos no passado. Um grande team na acepção do vocábulo. Paradoxalmente não conseguiu, mesmo assim obter um título de campeão. Conspirou contra as suas magistrais campanhas o fator “chance”. Quadro, entretanto, não lhe faltou para tentar conquista do centro, coroando para si e para a história o poderoso esquadrão que por muito tempo sustentou suas fileiras”.
“Nos fomos grandes admirados do Santos. Que maravilha de conjunto. Uma linha atacante que alcançou o recorde dos 100 tentos numa única temporada. Feito jamais igualado. Um esquadrão que bateu sucessivamente os maiores quadros estrangeiros que visitaram o Brasil naqueles anos. Lembramos o Bella Vista, com sete campeões do mundo, representando o grande futebol do Uruguai. Aquele conjunto do Barracas Central, que fez o furor nos campos brasileiros. Equipes do Velho Mundo, americanos do norte, franceses, etc. Um mundo de recordações que trazem infinitas sensações felizes”.

Infelizmente o tempo as vezes é cruel. Faz com que coisas tão esplendidas assim sejam quase esquecidas. Mesmo que sem elas o que se conhece hoje não existiria. Mas é compreensível. A fama do clube com o passar dos anos, principalmente nos anos 50 e 60, fez com que essa contribuição de evolução no futebol fosse sendo deixada de lado. Um período sem TVs, sem exposições, nem ao menos rádio. É incrivelmente, todavia, como o DNA Ofensivo e a estética de jogo, é presente no clube desde os primórdios.
Mais impressionante ainda é como o Alvinegro fez importantes contribuições ao futebol. O clube que ajudou a populariza-lo mundo a fora também foi importante na evolução. E não algo restrito ao “Futebol Ate” do Time dos Sonhos nos anos 60, mas vem de longa data, da época do Campeão da Técnica e da Disciplina.

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