Paris a seus pés!

Published On 19/12/2016 | Jogos Históricos
Por Ronaldo Silva,
São Paulo 19/12/2016

O Santos, defendendo o título do Torneio de Paris, enfrentaria nada menos que a equipe portuguesa do Benfica numa partida muito aguardada por toda a imprensa europeia como uma autêntica decisão do título Mundial de Clubes em plena “cidade luz”. A expectativa do público parisiense era acompanhar um confronto sensacional em uma final de língua portuguesa reunindo o digno campeão europeu versus, sem dúvida, o melhor time da América do Sul e, talvez, do mundo.
No primeiro confronto pelo torneio, o time santista venceu o Racing de Paris por 5×4 e chegou para a decisão com alguns desfalques consideráveis no seu setor defensivo como Calvet, Formiga e também o capitão Zito. Porém o técnico Lula afirmava que os substitutos vinham apresentando boas apresentações no giro pela Europa apesar de não possuírem o destaque internacional dos ausentes. O Benfica havia superado o time belga do Anderlecht, para esta grande decisão não contaria com seu experiente goleiro Costa Pereira em contrapartida teria o retorno do zagueiro Germano e do ótimo meia esquerda Coluna. O técnico dos encarnados Bela Guttman declarou, para o Jornal do Brasil, antes do duelo: “Vencer o Santos, depois de haver conquistado a Copa da Europa, seria o máximo de alegria. Os brasileiros são os melhores do mundo e para o Benfica seria uma honra imensurável vencê-los”

O JOGO
Desde os primeiros instantes da grande decisão, a superioridade do time santista prevaleceu no gramado. Com um futebol de passes precisos e dribles incontroláveis, fazendo a bola correr pelo campo de pé em pé, algo que desnorteou a defesa portuguesa que assistia a tudo de forma estática à demonstração de força do alvinegro.
O público francês presente ao estádio teve a impressão que se aproximava o momento para o placar ser inaugurado. Essa honra coube ao coringa Lima, recebendo um passe rápido de Coutinho, atirar para marcar o primeiro gol da decisão aos 16 minutos. Este gol não mudou o panorama da partida, o Santos manteve seu domínio absoluto e sem forçar o ritmo de seu jogo magistral, como já sabendo que os outros gols surgiriam naturalmente.
Aos 24 minutos, num escanteio cobrado por Dorval encontrou Pelé que arrematou numa cabeçada perfeita para ampliar o marcador. O goleiro português Barroca foi intensamente obrigado pelo ataque santista a realizar algumas defesas difíceis, mas num ataque armado por Pelé que centrou alto, Coutinho entrou de cabeça para fazer 3×0 com 28 minutos de jogo.

Pelé numa das investidas do Santos (Foto/L’Equipe)

Uma atuação exuberante que seguiu o mesmo curso, os zagueiros do Benfica só conseguiam para os inspirados santistas através de faltas, numa dessas oportunidades de uma distância aproximada de 30 metros, aos 35 minutos,  veio um dos famosos tiros de impressionante violência desferidos por Pepe que não deu chances para o goleiro Barroca e decretou o quarto gol do Santos.
O time santista satisfeito com o resultado diminuiu sua objetividade no final desta primeira etapa, porém desceu aos vestiários sob efusivos aplausos dos parisienses encantados com a lição apresentada sobre o time campeão europeu.
SEGUNDO TEMPO
Nos primeiros instantes da segunda etapa, Pelé lançou um belo passe a Pepe que fez novamente seu potente chute funcionar a favor dos santistas, aos 4 minutos, para ampliar o placar da partida para 5×0. Este gol de Pepe foi muito celebrado pelo público, que elegeu o Canhão da Vila como o jogador mais popular nesta passagem por Paris, sendo superado apenas por Pelé.
O panorama do jogo mudou após este gol, o time do Benfica passou a dominar as ações do duelo após a entrada do jovem e desconhecido Eusébio, um joia moçambicana lapidada pela equipe portuguesa.
O Santos diminuiu consideravelmente seu ritmo de jogo e passou a atuar com certa displicência, com isso o Benfica lançou-se ao ataque em busca de diminuir o placar elástico que se apresentava.
Eusébio demonstrando todo seu potencial anotou em três oportunidades num período de dezesseis minutos para deixar o placar do estádio Parc des Princes anotando 5×3 para o Santos. O primeiro, aos 18 minutos, num potente chute de fora da área que venceu Laércio. O segundo, aos 23, depois de receber passe de Cavem e o terceiro, aos 34, após uma bela troca de passes com o habilidoso Coluna.
A reação do campeão europeu fez a assistência presente ao estádio se impressionar com o nível da partida realizada e ter a certeza que estavam diante de uma partida memorável. O Benfica seguiu pressionando e conseguiu uma penalidade máxima, que poderia diminuir a diferença santista para apenas 1 gol. Augusto, ponta direita, se encarregou da cobrança e desferiu um péssimo chute que foi defendido por Laércio.
O Santos retornou a colocar a bola no chão e conseguiu reconduzir o controle da decisão, que teria seu gran finale com uma bela trama de Pelé que fintou dois marcadores portugueses e finalizou a jogada sem chances para o goleiro Barroca e com isso, aos 43 minutos, fazer o último gol do encontro e decretar a vitória alvinegra por 6×3.O time santista demonstrou uma classe superior e teve recursos de sobra durante a partida, com belíssima atuação de Pelé, que saiu aclamado, Pepe, Dorval, Coutinho, Mengálvio, Lima e Mauro. Além de conquistar o bicampeonato do Torneio de Paris, o Santos foi nomeado pela imprensa europeia como o Melhor Time do Planeta.
O reconhecido jornal esportivo francês L´Equipe, assim descreveu: “A impressão dominante foi a implacável superioridade brasileira. O público compreendeu, ontem, ao assistir essa final extraoficial entre a melhor equipe sul-americana e o Campeão da Europa, qual o título de campeão mundial de clubes conquistado há um ano pelo Real Madrid será difícil de conservar”.
O confronto foi uma prévia de diversas partidas históricas entre Santos e Benfica, que teve seu ponto alto na decisão do Mundial Interclubes de 1962, também marcou inesquecíveis duelos do Rei Pelé e um dos maiores jogadores da história Eusébio.

Ficha Técnica:
15/06/1961 – Santos 6 x 3 Benfica-POR
Gols: Lima aos 16min, Pelé aos 24min, Coutinho aos 28min e Pepe aos 35min do primeiro tempo; Pepe aos 4min, Eusébio aos 18min, 23min e 34min, Pelé aos 43min do segundo tempo
Local: Estádio Parc des Princes, em Paris, França
Competição: Torneio de Paris
Público: 36.364
Árbitro: Pierre Achinte (França)
Santos: Laércio; Mauro e Décio Brito; Getúlio, Brandão e Lima; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula
Benfica: Barroca; Mário João, Germano e Ângelo (Mendes); Neto e Cruz; José Augusto, Santana (Eusébio), Águas, Coluna e Cavém. Técnico: Bela Guttmann

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Livro Santos 100 Anos, 100 Jogos, 100 Ídolos;
Jornal “A Gazeta Esportiva”;
Jornal do Brasil;
Jornal “O Estado de São Paulo”;
Jornal L’ Equipe

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