Pentacampeão do Brasil!

Published On 08/12/2015 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

Maior símbolo de futebol do país no mundo desde a primeira excursão à Europa, em 1959, o Santos F.C. era exemplo para quais rumos deveria trilhar o futebol brasileiro (como assim declarava o técnico Flávio Costa), ininterrupto a postular seu jogo-espetáculo e revolucionário em 1965. O Alvinegro da Vila Belmiro havia aspirado todos os títulos possíveis, estabelecido as maiores façanhas de um clube na história e, nessa temporada, consolidaria a maior supremacia já feita por um time no Brasil.
Continuava o processo de reformulação no elenco. Ainda mais reforçado, o time-base do Santos alinhou o ciclo final da geração Bicampeã Mundial com novos contratados. Chegaram o lateral direito Carlos Alberto Torres (do Fluminense), o quarto-zagueiro Orlando Peçanha (tornou-se uma lenda no Boca, da Argentina, retornava ao Brasil), o ponta Abel (do America-RJ), o goleiro Cláudio (do Bonsucesso-RJ), entre outros nomes.
Antecedendo as disputas dos campeonato nacional, além de conquistar o Torneio Rio-São Paulo (válido pela temporada 64), traçando trajetos espetaculares nas excursões pelas Américas, o Santos aumentou o número de taças prestigiadas em seu currículo: aspirando mais um Hexagonal do Chile, o Torneio de Caracas e o Quadrangular de Buenos Aires. Ao longo das apresentações internacionais, fatos importantes ocorreram. O Santos conseguiu triunfar diante de duas das três principais forças da última Copa do Mundo: abateu a forte geração chilena (3º na Copa-62) e a seleção “cientifica” da Tchecoslováquia (Campeã da EURO-60, vice-campeã do Mundo-62 e da EURO-64) no “juego del siglo” para chilenos, sendo o Alvinegro a principal potência, como uma das bases da seleção brasileira bicampeã mundial no Chile.
Além desse feito histórico à nível global, ocorreram triunfos de valor sobre o River Plate/ARG (todos dentro da Argentina: 1×0, 4×3 e 2×1), Independiente/ARG (4×0) e Boca Juniors/ARG (na Argentina, 4 x 1), e a fuga vexatória do Real Madrid/ESP, negando-se a enfrentar o Alvinegro no que a imprensa mundial alcunhou de “Jogo do Século”. Mas nem tudo foram flores pros santistas, na Libertadores, pelo segundo ano consecutivo a equipe foi prejudicada – depois de 100% na primeira fase – sendo eliminada na semifinal com arbitragem tendenciosa (um dos fatores que motivou o clube a ignorar a competição continental nos anos seguintes).
Sem disputar a Libertadores de 66, o Santos partiria para Desafios Internacionais que recuperam a imagem e/ou prestigio do futebol brasileiro pós-Copa. Sobretudo, em jogo de vingança frente aos portugueses, dando início a uma remodelação técnica-tática na seleção, que termina no apoteótico Tricampeonato no México. Foram quatro momentos importantes: a vitória contra o Benfica/POR e Internazionale/INT em 66; o triunfo ante o Campeão Alemão München 1860 em 67, a conquista da Recopa Mundial em 68 perante o “catenaccio italiano”; com oito santistas a seleção brasileira vence a Inglaterra atual campeã do mundo, depois forma-se as Feras de Saldanha (base santista) em 69; e na Copa/70, os santistas Carlos Alberto, Joel Camargo, Clodoaldo, Pelé e Edu ajudam a seleção brasileira para consagração do “país do futebol”.
Mas voltemos a 1965. No mês de novembro a agenda foi cheia, paralelamente às disputas da Taça Brasil, a equipe conquistou o Bicampeonato Paulista.
Pelo sétimo Campeonato Brasileiro (Taça Brasil), organizado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos), realizado entre 18 de julho e 8 de dezembro, o Santos buscava sua hegemonia, um inédito pentacampeonato consecutivo. A competição que objetivava proclamar o Campeão Brasileiro e, a partir desse ano, dois representantes – campeão e vice – na Libertadores, reuniu 22 equipes, tendo 21 estados representados. Com o mesmo regulamento dos anos anteriores. Em nota, o Palmeiras conseguiu vaga após pedido a CBD, pois o SFC era o campeão estadual e nacional do ano anterior, imponderado uma das vagas. Também cabe ressaltar que, por desinteresse santista e desentendimentos da CBD com a Conmebol, nenhuma equipe brasileira disputou a Libertadores em 1966.
Enfrentando pelo segundo ano consecutivo, noite de 03 de novembro, a Academia palmeirense dos craques Djalma Santos, Dudu e Ademir da Guia, o Santos iniciou compromisso pelas semifinais da Taça Brasil. No primeiro encontro, as equipes defrontaram-se no estádio do Pacaembu/SP, e o Palmeiras – recebido com banda de música e foguetes pela torcida – começou melhor no impeto do revanchismo, tendo mais volume de jogo e abrindo o placar rapidamente com Ademar aos 2′. Aos poucos, todavia, o Santos equilibrou o duelo e sendo mais objetivo nos arremates, termino o primeiro tempo em vantagem. Toninho Guerreiro, aos 13′, num “oportunismo de centroavante” deixou igualado o marcador; seis minutos depois, Abel (chute cruzado) reverteu em 2 x 1, depois de triangulação com Toninho e Pelé.
Na segunda etapa, novamente o Palmeiras buscou o resultado com Rinaldo aos 15′. Mas depois do empate, a peleja seguiu com total controle santista, que com mais dois gols de Toninho (aos 17′, recebendo endereço de Abel, mesmo com forte marcação de Djalma Dias conseguiu se livrar e chutar firme no canto esquerdo; e aos 35′, aproveitando precioso passe de Pelé, arrematou rasteiro fazendo o 4º gol) assegurou a prerrogativa do empate na volta.
Em 1959, Oswaldo Brandão, havia profetizado: “Estamos fadados a enfrentar esse time do Santos pelos próximos cinco anos”. Sábio com as palavras era o técnico palmeirense, pois, seis anos depois, lá estava o Palmeiras tendo a infelicidade de enfrentar o Santos.
Pelo segundo duelo entre os paulistas, ocorrido dia 10 de novembro, no mesmo palco do Pacaembu/SP, muita luta por parte das equipes e a partida terminou sem surpresas, prevalecendo a vantagem santista. Abrindo o placar com Pelé, aos 6 minutos, o Santos manteve o resultado e terminou com lucro no primeiro tempo. Depois o Palmeiras até tentou, empatou a partida na etapa complementar (Ademar aos 21’), mas ao fim as equipes terminavam empatadas em 1 a 1. Resultado que liquidava o Alviverde, qualificando o Santos para a quinta decisão nacional consecutiva, ao qual enfrentaria o representante campeão do estado da Guanabara (DF).
Buscando surpreender o “melhor time do mundo”, a equipe do Vasco apostava em duas armas: as estratégias do treinador e o faro de gol do centroavante Célio. Comandado por Zezé Moreira (técnico brasileiro na Copa de 1954), o Cruz-Maltino era um conjunto forte, de boa marcação e domínio de bola, sempre bem organizado taticamente. Mas, do outro lado tinha pela frente um time excepcional, que soube respeitar o adversário, como uma grande equipe deve fazer, na ocasião Lula preparou o Santos assim: Gilmar; Carlos Alberto, Mauro, Orlando e Geraldino; Lima e Mengálvio; Dorval, Coutinho (Toninho entrou no decorrer), Pelé e Pepe.
No primeiro cortejo decisivo, registrado na noite do dia 1º de dezembro daquele ano, no estádio do Pacaembu/SP, uma apresentação formidável do Santos frente a um Vasco disciplinar, mas completamente dominado. Apesar de um primeiro tempo com a vantagem mínima, que ocorre aos 6′ após um bate e rebate de um bombardeio santista dentro da área, ao qual Coutinho depois de tentar duas vezes abriu o placar, o Santos até poderia ter feito mais, desperdiçando inúmeras oportunidades. Na segunda etapa, o Vasco manteve marcação individual, contudo, a goleada começou a ser desenhada aos 18 minutos. Pelé lançou Toninho, que driblou Fontana, tirou do goleiro vascaíno, na sobra quem surgiu foi o oportunismo de Dorval à balançar as redes: 2×0. Não demorou muito, e o Santos deferiu outro tento, que aconteceu depois de uma linda triangulação: Toninho passando à Pelé, que domina e lança na direita para Dorval chegar fuzilando a meta de Gainete (3×0)!
Em desvantagem no placar, o Vascou ainda acertou uma bola na trave, que o zagueiro Mauro conseguiu salvar em cima da linha. Mesmo com os 3 a 0 na conta, o Santos não desafinava, intensificava a pressão, fazendo o Cruz-Maltino ficar abafado no campo de defesa e tentar conter com faltas. Foi com Pepe aos 36′, em jogada individual, passando pela marcação e cruzando para Toninho, que o Alvinegro alargou: 4×0! O Vasco chegou a diminuir de pênalti (com Célio) na sequencia. Apesar do ponto, os santistas começaram a prender bola e distribuir o “Olé”, as faltas do adversário aumentavam. Em uma delas, aos 41′, Orlando cobrou encontrando Geraldino, este emendou infiltração ao avançado Toninho, que entrou em diagonal pela esquerda e chutou forte marcando o quinto gol santista, epilogando impiedosa contagem por 5 a 1.
Na partida de volta, realizada também a noite, dia 08 de dezembro, em mais uma performance superior onde sobressaiu-se a técnica em defronta de uma forte entrega, o Santos tornou a vencer o Vasco – o arbitro Armando Marques, que não nutria simpatia pelo Santos, expulsou quatro do time paulista, três do carioca, numa confusão no final do jogo, após entrada forte de Zezinho em Lima, com o mesmo revidando, assim gerando o tumulto. Na ocasião, o autoritário triunfo ocorreu em pleno Maracanã/RJ, com um bonito gol de Pelé, ao qual driblou a zaga vascaína e deferiu arremate certeiro no canto direito – 1×0 – para encerrar o enredo do legitimo Pentacampeão Brasileiro. Num entusiasmo que não podia ser contido, o vestiário virou manicômio, e jogadores e a torcida festejaram novamente no palco das grandes apresentações do Santos.
Saudado pela imprensa como um legitimo Pentacampeão Brasileiro, o Santos FC acrescentou a um histórico que já lhe pertencia, como maior Campeão Brasileiro/Nacional. De forma a sacramentar uma histórica supremacia no futebol nacional, que evidenciava o Alvinegro de Vila Belmiro como o melhor/maior clube do futebol brasileiro sob fatos e constatações. Ademais, o Santos era dignificado como exemplo, ou podemos dizer modelo, para a própria seleção brasileira, como declarou o técnico Flávio Costa, para o Jornal Última Hora “Os caminhos para o futebol? Os caminhos do Santos, claro. Suas vitórias não são apenas caseiras; as maiores conquistas no Exterior, mostrando que o bom futebol aparece com superioridade em qualquer ponto da Terra”.
Jornal a Gazeta Esportiva, edição do dia 10/12/1965: Um gol de Pelé deu ao Santos pela quinta vez consecutiva a conquista da Taça Brasil. Craques Pentacampeões Brasileiros retornaram às primeiras horas da madrugada de hoje, sendo todos dispensados até amanhã à tarde, quando estarão na Vila Belmiro para treinamento e concentração visando o cotejo de domingo contra o Palmeiras, ocasião em que o bicampeão paulista estará se despedindo do campeonato.

Fontes e Referencias:
Almanaque do Santos FC;
Centro de Memória e Estatísticas do Santos FC;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do SFC);
Dossiê, Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959 (Odir Cunha e José Carlos Peres);
Jornal a Gazeta Esportiva e Estado de SP.

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