Perigo no Alçapão

Published On 04/09/2016 | Jogos Históricos
Por Ronaldo Silva
São Paulo, 04/09/2016

“Manteria o Santos a tradição já tão propalada? Baquearia, em Vila Belmiro, mais um conjunto estrangeiro?” questão abordada pelo jornal A Tribuna, em 11/02/1938, que refletia a dúvida que tomava conta do público santista em geral sobre mais um grande encontro internacional que a cidade iria recepcionar.
A equipe santista neste início de temporada estava em reformulação, seguiam no clube figuras conhecidas como o goleiro Cyro Maciel e o zagueiro Neves, ambos campeões paulistas de 1935 pelo alvinegro, outro destaque da equipe era o conhecido “homem dos sete instrumentos” Gradim que possuía esse apelido por atuar em diversas posições. Dentre as aquisições no ínicio de temporada estavam o goleiro espanhol Talladas e o meia argentino Emílio Novo que vieram do Flamengo, do futebol gaúcho chegaram o zagueiro Wanderlino e o centromédio Artigas, proveniente da Ponte Preta foi trazido o ponta esquerda Rui Gomide. Com tantas mudanças em relação a última temporada, o Santos apostava nessa mescla de jogadores consagrados e novos valores para enfrentar este embate internacional.
O Club Libertad teve a honra de nesta excursão ser a primeira equipe paraguaia a atuar em solo brasileiro, para este giro internacional a equipe paraguaia reuniu alguns dos melhores valores do futebol paraguaio para uma série de partidas. Dentre os destaques do clube guarani estavam alguns atletas da Seleção do Paraguai como o zagueiro Invernizzi, o centromédio Ortega, o médio direito Diego Ayala que futuramente vestiria a camisa do Santos e o meia direita Cáceres que já havia atuado no Boca Juniors e sem dúvidas era o grande nome da equipe. A excursão começou pelo interior da Argentina onde o disputou duas partidas na cidade de Posadas e conquistou duas goleadas por 7×2 e 4×1 sobre equipes locais. A chegada ao Brasil aconteceu em São Paulo onde a equipe alcançou dois bons empates contra a equipe do Estudante e em sequência contra o Palestra Itália, nestas partidas a equipe paraguaia demonstrou um futebol de toques rápidos e precisos, boa qualidade técnica e chegaria à Vila Belmiro defendendo sua invencibilidade na excursão.

O JOGO
O jogo internacional tão esperado foi adiado devido as fortes chuvas na cidade de Santos em um dia, sendo realizado na noite seguinte onde o tempo seguia fechado e o gramado da Vila Belmiro encontrava-se muito pesado para a disputa deste embate. Foi um primeiro tempo muito disputado pela duas equipes e que apresentou em muitos momentos domínio do Libertad que apresentando um futebol homogêneo e organizado conseguiram arrancar aplausos da assistência porém não conseguiram abrir o marcador e em contrapartida a equipe santista apesar dos diversos treinos antes da partida apresentava em muitos momentos desentrosamento que foi compensado com grande espírito de luta dos jogadores santistas. A primeira fase, apesar da grande força de vontade das equipes, terminou empatada em 0 a 0.
Que seria do segundo tempo? Dolorosa interrogação e tantas outras nas arquibancadas da Vila Belmiro sobre o que poderia ser modificado no time do Santos para conseguir superar o time paraguaio. Logo no retorno do intervalo foram substituídos os estreantes Wanderlino e Artigas por respectivamente Bompeixe e Marçal, no setor ofensivo saiu o meia argentino Novo para entrada de Mário Pereira que estava há um ano fora da equipe devido problemas no joelho resultado de uma entrada criminosa que havia recebido num amistoso, conhecido como o “Perigo Loiro” foi um dos principais jogadores da conquista do título paulista de 1935.
O retorno do “Perigo Loiro” aos gramados foi assim descrito pelo jornal A Tribuna “Eis que rompem aplausos…seguidos por momentos de torturante dúvida…Mário Pereira em campo. Vai jogar! Forma a ala com Sacy…Começa o segundo tempo. O “Loirinho” então revivendo suas proezas mais gloriosas, torna-se, constitue-se um grande, um maravilhoso espetáculo em campo, assim se tornando o ponto convergente de todas as atenções. Um primor. Estilo renovado, elegante. Passes incisivos, “entradas” cortantes, fintas desnorteantes! Mário Pereira assombra. De repente, centenas e centenas de pessoas, explodem num entusiasmo de delírio. Mário Pereira, numa jogada magistral, fizera com que, afinal, aparecesse para o Santos, um 1 no placar. Fizera ele, de forma impressionante, o 1º tento para o Santos, abrindo-lhe as portas para mais grande triunfo internacional”

Time santista antes do confronto contra o Libertad (Foto/A Tribuna)

O Santos se tornou dono da partida no segundo período, este gol de Mário Pereira logo aos 6 minutos transmitiu total tranquilidade e segurança a equipe que conseguiu neutralizar a equipe adversária e incentivada pela torcida calculada em cerca de quinze mil pessoas conseguiu desenvolver um bom futebol. As arquibancadas da Vila Belmiro novamente se agitaram quando avistaram o “Perigo Loiro” fora de combate cita o jornal A Tribuna “Aquelas mesmas centenas de pessoas que, antes, vibraram de entusiasmo, ficaram como que paralisadas, num misto de comoção. Mário Pereira havia tombado no gramado. Não suportaria o efeito da lesão antiga. Tem que deixar o gramado carregado. Estrugem aplausos de todos os lados, aclamando Mário Pereira que deixava o gramado como um herói, deixando, a outros, a tarefa que não pode concluir”, substituído por Ari, este acabou sendo o último momento de Mário Pereira com a camisa alvinegra, pois apesar de muito esforço não conseguiu superar os problemas em seu joelho.
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Mário Pereira

Seus companheiros prestaram uma grande homenagem ao “Perigo Loiro” e sacramentaram a grande vitória aos 33 minutos com Aurélio dando um passe em boas condições para o novato Rui Gomide que confirma o 2º gol do Santos para o delirantes aplausos da torcida.
Esplêndida vitória alcançou o time santista, que apresentou um bom futebol e acabou com a invencibilidade do eficiente time paraguaio. O jornal Correio Paulistano mencionou na edição de 12/02/1938 o seguinte trecho “Mais uma vez a tradição não foi quebrada e a turma da Vila Belmiro fez valer os méritos de sua nova organização, conquistando uma das mais belas vitórias internacionais”. O Libertad teve o mesmo destino de outros ótimos esquadrões, como Bella Vista, Rampla e mesmo as seleções francesa e norte-americana, que já haviam conhecido o revés no “Alçapão”.
Este triunfo fez o Santos alcançar a primazia dentre os clubes brasileiros ao derrotar equipes que já haviam sido campeões nacionais na América Platina (Argentina, Uruguai e Paraguai). Anteriormente, o Santos derrotou os argentinos Huracán e Estudiantes, o uruguaio Rampla Juniors e desta feita o tradicional Libertad do Paraguai. Um feito histórico internacional na vida alvinegra.

Ficha Técnica:
10/02/1938 – Santos 2 x 0 Libertad/PAR
Gols: Mário Pereira aos 6min e Rui Gomide aos 33min do 2º tempo.
Local: Vila Belmiro – Santos (SP)
Competição: Amistoso
Renda: R 11:000$000
Árbitro: Tomaz Cardoso de Almeida
SANTOS: Cyro; Neves e Wanderlino (Bompeixe); Figueira, Artigas (Marçal) e Abreu; Sacy, Aurélio, Gradim, Novo (Mário Pereira) (Ari) e Rui Gomide.
LIBERTAD: Fernandez; Ferreira e Invernizzi; Ayala, Ortega e Benegas; Benitez, Cáceres, Gustale, Ozório e Bernie.

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC;
Jornal “A Tribuna”;
Jornal Correio Paulistano;
Site oficial do Club Libertad

One Response to Perigo no Alçapão

  1. José Carlos says:

    Muito bacana a matéria. Antes mesmo das décadas de 50-60, o Santos já realizava grandes partidas internacionais.

    ISSO É O SANTOSFC!

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