Piedade! Só 7 gols basta!

Published On 16/08/2017 | Jogos Históricos
Por Ronaldo Silva
São Paulo, 16/08/2017

O esquadrão santista teria pela frente o clube mais popular do país, num Maracanã que acolheria um grande público para presenciar Pelé e os grandes nomes do time da Vila Belmiro, num embate pela fase classificatória do charmoso Torneio Rio-São Paulo.
Há uma semana, o Santos havia conquistado uma vitória segura sobre o Fluminense por 3 a 1, num jogo que ficou famoso devido Pelé ter anotado o “Gol de Placa” arrancando desde o meio de campo e passando por diversos adversários.
O técnico Lula teria todo seu elenco a disposição para o confronto diante de um Flamengo que contava com Gérson, Dida e Carlinhos grandes nomes no time da Gávea. O Santos defendia a liderança do torneio ,sem ter perdido pontos até então.

O JOGO
O Flamengo começou jogando com entusiasmo e velocidade, enquanto o Santos, mais técnico e num ritmo cadenciado. Pepe e Dorval formavam na mesma linha que Zito e Mengálvio, no meio campo para conter Gérson e Carlinhos. Até os 18 minutos da etapa, o Flamengo movido pela vontade de aparecer bem e quebrar o fabuloso prestígio do Santos, lançou-se com todas as suas forças nas disputas dos lances, levando vantagem algumas vezes por sorte e outras por empenho.  As deslocações de seu ataque confundiram os santistas, esse domínio rubro-negro permitiu que o zagueiro Joubert fosse para frente, desguarnecendo o setor direito. Aos poucos, o Flamengo permitiu que o Santos reagisse e equilibrasse o jogo.
Foi o Flamengo, logo no começo que esteve mais perto do gol, perdendo algumas boas chances de marcar, deixando que o goleiro Laércio aparecesse fazendo excelentes defesas. Os cariocas chegaram a ensaiar um show por volta dos 10 minutos, com Dida, Henrique e Joel trocando uma série de passes frente à área santista, fazendo a grande torcida do Maracanã vibrar intensamente. Uma cabeçada de Dida pouco mais tarde quase foi ao fundo da rede, mas acabou passando por cima do travessão de Laércio, com grande susto ao goleiro.
Percebendo que o setor direito do Flamengo falhava constantemente, por aí o Santos forçou o jogo. O bom futebol santista ainda não havia aparecido e começou a surgir aos 20 minutos. Depois de uma série de ataques, houve um escanteio do lado direito da meta carioca. Dorval cobrou para Pelé que atirou o com violência, para a tentativa de defesa do goleiro Fernando que largou a bola, deixando para Pepe bem colocado chutar para inaugurar o marcador. Pelé, de quem boa parte do Maracanã esperava algo genial, foi o autor do segundo gol santista. O lance nasceu da esquerda, com um bom passe de Pepe. A bola, alta, caiu dividida entre Pelé e Bolero. O meia santista levou a melhor e cabeceou para canto do gol, sem defesa para Fernando. Um lance de oportunismo e vigor do camisa 10 santista.
A defesa do Flamengo que já vinha jogando mal piorou ainda mais depois desses gols e o Santos foi dominando as ações com Mengálvio, Pelé e Pepe movimentando-se à vontade. Curioso somente um desentendimento entre o juiz Olten Aires de Abreu e o bandeirinha Victor Soares, que não se entenderam num lance de ataque do Flamengo. O bandeirinha pediu para ser substituído após o incidente.
SEGUNDO TEMPO
O Santos voltou absolutamente tranquilo, no mesmo sentido tático. Com atuações excepcionais de Pelé, Mengálvio, Pepe e Dorval o time exerceu seu domínio e logo aos 4 minutos, marcou seu terceiro gol com Pelé. O goleiro Fernando sem ter intuição da jogada assistiu ao atacante santista bater Jadir, invadir a área e cobrí-lo com categoria. Não passaram dois minutos sem o Santos conseguisse outro gol, dessa vez anotado por Coutinho num primoroso lançamento de Zito, num lance que houve reclamação de impedimento por parte dos flamenguistas. Placar registrava 4 a 0 para o time da Vila Belmiro.
Aos 8 minutos, numa jogada pessoal de Henrique que invadiu a área santista, esperou a saída de Laércio e empurrou a bola, sob suas pernas no fundo da rede. A animação rubro-negra não durou muito, pois logo de imediato Coutinho lançou Dorval na área e o ponteiro direito numa bela jogada aparou a bola no peito, rolou-a no chão e chutou para marcar, sem chances para o goleiro flamenguista. No minuto seguinte, o Santos aumentou sua vantagem, quando Dorval foi derrubado por Bolero dentro da área do Flamengo. Pepe foi encarregado da cobrança da penalidade, esta executada no seu estilo com violência.

Dorval arremata para anotar 5 a 1 para o Santos

Durante algum tempo, o Santos afroxou sua pressão, mas por volta dos 20 minutos, Dorval e Pelé ensaiaram uma série de boas arrancadas contra a assustada defesa do Flamengo, acabando com outro gol do Rei que bateu de forma espetacular na corrida três jogadores contrários antes de atirar para a rede. O Flamengo apesar de arrasado no placar não entregou o jogo, tentando ataques com Joel, Dida e Henrique. Mas o Santos manteve-se firme no seu domínio, chegando a tornar-se irritante pela sua segurança ante a agonia do adversário. O técnico Lula proibiu os jogadores santistas de marcar mais gols quando o Santos vencia por 7 a 1, com isso os jogadores alvinegros passar a abusar das exibições para o público, que vendo o espetáculo no gramado do Maracanã passou a aplaudir e apoiar os atletas santistas e esquecendo o Flamengo.
Grande atuação dos comandados de Lula, numa bela exibição de todos os atletas com destaque para Pelé. Após a sonora goleada aplicada sobre o Flamengo, a imprensa carioca ainda atônita se pronunciou “A que ponto chegamos! Um clube vir de Santos e desfilar sua arte em nossa casa e ainda ter a descortesia de nos humilhar com uma goleada humilhante e impiedosa”

FICHA TÉCNICA
11/03/1961 – Flamengo 1 x 7 Santos
Gols: Pepe aos 22min e Pelé aos 31min do primeiro tempo; Pelé aos 4min, Coutinho aos 6min, Henrique aos 8min, Dorval aos 10min, Pepe (p) aos 12min e Pelé aos 19min do segundo tempo.
Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro
Competição: Torneio Rio-São Paulo
Renda: Cr$ 6.675.580,00 (recorde)
Público: 87.868 + 2.530 gratuitos (total: 90.218)
Árbitro: Olten Aires de Abreu
SFC: Laércio; Dalmo, Mauro (Formiga) e Fioti (Feijó); Zito (Urubatão) e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula
CRF: Fernando; Joubert, Bolero e Jordan; Nelinho (Jadir) e Carlinhos; Joel, Gérson, Henrique (Luís Carlos), Dida e Babá (Germano). Técnico: Fleitas Solich

Fontes e Referências
Almanaque do Santos FC;

Jornal do Brasil;
Jornal “O Estado de São Paulo”;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC)

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