Pioneiro no combate ao racismo!

Published On 20/11/2015 | Memória Santista
Por Gabriel Santana
Santos, 20/11/2015

A Lei Imperial n.º 3.353, mais conhecida como Lei Áurea, foi sancionada no 13 de maio de 1888, extinguindo a escravidão no Brasil.
Em 1913, mesmo não sendo mais escravos, os negros eram de classes sociais inferiores, e não tinham as mesmas condições das pessoas de cores brancas.
O futebol nasceu elitista, um esporte para as classes oligarcas que não admitiam a presença de setores populares na prática esportiva, ou seja, não permitiam que negros participassem dos clubes e jogos.
O Santos foi fundado em 1912, e com apenas um ano de vida, já realizava um grande feito em sua história. Foi pioneiro a incluir atletas negros em seus quadros esportivos.
Aliás, em seu primeiro ano de vida, mais precisamente no 1º jogo treino da história santista, Anacleto Ferramenta, jogador mulato, participou da partida, e marcou o primeiro gol não oficial do Santos. Em 1915 e 1916, atuou pela equipe principal.

OS PRIMEIROS ATLETAS NEGROS

No dia 15 de novembro de 1913, o time santista realizou um evento, ou festival esportivo, como era denominado na época, e dentro das festividades, foram realizadas provas de atletismo e mais duas partidas de futebol, dos chamados primeiro e segundo quadros do Santos. O adversário santista na ocasião, foi o Atlas FC, da capital.
O Atlas era um time da várzea paulistana, porém, em seu elenco, um grande poderio, com inúmeros atletas que disputavam o Campeonato Paulista, onde podia-se destacar: Loschiavo, Lagreca, Brito, Mario e Juvenal Prado, além de Friedenreich, que já era a grande atração, porém naquele dia não pode comparecer.
Era a primeira vez que um time da capital descia a serra para enfrentar o Santos, e a partida ganhou dimensões enormes para a ocasião. Através da imprensa, o Alvinegro fez inúmeras divulgações, visando atrair atletas também de outras cidades.
Desta forma, um público descomunal (para os padrões de 1913) ocupou as dependências do Campo da Avenida Ana Costa.
Iniciando as festividades às 12:30 com a banda da União Portuguesa que exibiu-se ao público e em seguida começaram as provas de atletismo. Como curiosidade destaco a vitória de Raymundo Marques, jogador do time santista, na prova de 100 metros rasos.
No 2º quadro, especie de “Santos B” da época, o clube de Vila Belmiro surpreendeu, e escalou dois atletas negros, os dois primeiros oficiais de sua história. O fato era inusitado para a época, e usando a camisa alvinegra, seria a comprovação do caráter democrático do clube praiano, fazendo jus ao lema da cidade de Santos: “Terra da liberdade e da caridade”.
Devido aos esforços dos historiadores Guilherme Nascimento, Wesley Miranda, Walmir Gonçalves, Marcelos Fernandes e Evaldo Rodrigues, foi encontrado a foto da equipe do 2º quadro, e posteriormente, a identificação dos atletas negros:
milton
Milton, meia esquerda:
Milton Félix de Lima era atleta do Escolástica Rosa FC (time da tradicional instituição escolar de Santos) e atuou pelo Santos naquele 15 de novembro, em resposta ao apelo dos dirigentes alvinegros. Porém, Milton teve uma importância maior, pois no ano seguinte ao lado de Aldo (outro atleta negro, da cidade de Santos), foi Campeão Paulista pela Associação Atlética São Bento.
Começou no São Vicente AC, disputou o Campeonato Paulista de 1913 pelo Santos FC (2º quadro), passou pelo Escolástica Rosa FC e finalmente, Clube Atlético Santista.
Milton foi também Campeão Santista pelo Clube Atlético Santista e participou de inúmeras convocações da seleção da cidade de Santos. Foi árbitro da Liga Santista e posteriormente participou da vida social do Clube Atlético Santista.
ESMERALDO

 

Esmeraldo, médio esquerdo:

Além do “2º quadro”, atuou pelo time profissional em 1913. Participou do Campeonato Paulista de 1913 (2º quadro), e permaneceu até 1915, ano em que se transferiu para a Associação Atlética Americana (uma dissidência do Santos FC, que entre outros contava com Raymundo Marques, Durval, Anibal e Fontes).

Ficha Técnica:

15/11/1913 – Santos 5 x 1 Atlas SC (São Paulo)
Gols: Não informados.
Local: Avenida Ana Costa, em Santos.
Dia: Sábado
Competição: Festival Esportivo Edu Chaves (2º quadro)
Árbitro: Armando Cunha
SF: Fauvel; Bandeira e Herculano; Pelucio, Geraule e Esmeraldo; Raymundo Marques, Pujol, Osvaldo, Milton e Jathyl.
ASC: Loschiavo; Soares e Zerillo; Fonseca, Paulini e Catão; Matanó, Camargo, Felix, Amaral e Lopes.
Após a partida do 2º quadro, o time principal entrou em campo:
Ficha Técnica:
15/11/1913 – Santos 4 x 4 Atlas-SP
Gols: Não informado
Local: Avenida Ana Costa, em Santos.
Competição: Amistoso (Festival Edu Chaves)
Árbitro: Eurico Vergueiro
Santos: Durval Damasceno; Ernani e Américo; Pereira, Ambrósio e Ricardo; Adolfo Millon, Haroldo Cross, Paul, Marba e Arnaldo Silveira.
Atlas: Brito; Odilon e Mario Prado; Lagreca, Juvenal Prado e Barroso; Oliveira, Ferreira, Souza, Raul e Pujol.
Também usando camisas listradas, ao final da partida os atletas santistas receberam 11 medalhas de prata e o clube recebeu troféu pelo Festival Esportiva Edu Chaves, oferecido pela Cia Atlas de Seguros.
Enfim, o Festival em homenagem ao aviador brasileiro, poderia ter sido apenas mais um dos diversos que eram realizados na época, mas quando trata-se do Santos Futebol Clube, nunca é apenas “mais um”.
O Alvinegro mais uma vez entrou para história, fazendo jus as cores da sua equipe. Foi um dos primeiros clubes a tomar tal atitude. Pioneiro no combate ao preconceito e ao racismo!
E nada mais justo. O clube que relevou atletas como Pelé, Coutinho, Edu, Joel Camargo, César Sampaio, Juary, Robinho, Neymar.. todos da cor negra, e todos berço de um dos maiores clubes, o Alvinegro Santos Futebol Clube.
Infelizmente, em 2015, depois de 127 anos da lei imposta, existem boçais em nossa sociedade que menosprezam e tratam pessoas da cor negra com inferioridade, afirmando que os negros não tem os mesmos direitos dos brancos. Com toda certeza, inferiores são esses cidadãos, e principalmente ignorantes e ingratos, por não conhecerem e reconhecerem a história e a importância dos escravos negros em nosso país. Suas tradições e culturas foram trazidas e mantidas até hoje, principalmente a humildade, sentimento para poucos hoje em dia.
Santos Futebol Clube, o maior clube do mundo, desde sempre Alvinegro.

Fontes e Biografias:
Historiador Guilherme Nascimento;
Historiador Wesley Miranda;
Historiador Evaldo Rodrigues;
Historiador Marcelo Fernandes;
Historiador Walmir Gonçalves;

One Response to Pioneiro no combate ao racismo!

  1. Simplesmente fantástico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *