Senhor do Mundo!

Published On 03/12/2016 | A História das conquistas
Por Kadw Gomes

Depois do Bicampeonato da Copa dos Campeões da América, triunfando em plena a mística La Bombonera por 2 a 1 ante o Boca Juniors da Argentina, o Santos F.C. chegou ao final do ano de 1963 querendo repetir o feito da Seleção Brasileira: conquistar o Bicampeão Mundial. Mas a tarefa não era uma das mais fáceis, nenhum outro clube havia chegado no topo do mundo duas vezes.
Vivia-se o ápice do “Futebol Arte”. A torcida brasileira estava eufórica pelas inúmeras conquistas nos esportes. Em nível de clubes, o país também necessitava de um time ao qual representa-se toda a pujança, euforia e opulência daquela período de ouro do futebol nacional. Papel que coube ao Santos Futebol Clube!
E os brasileiros – principalmente os cariocas – abraçaram o Alvinegro de Vila Belmiro como seu, fazendo o coração dar o ritmo do desafio que suplantou todos os feitos passados no reino do futebol. Enxergou, principalmente, na imaculada camisa branca (que se sujaria de lama, sangue e suor) a canarinho brasileira, a identidade do futebol espetáculo, promovendo um gesto de amor, adoração, generosidade, jamais igualado em um campo de futebol.
Com as glórias nacionais e internacionais conquistadas entre 1961-63, os inúmeros triunfos de valor global sobre poderosos adversários, a miríade de craques lendários reunidos numa equipe, o Santos F.C. queria intensificar sua fama de MAIOR TIME DO MUNDO buscando torna-se o primeiro clube na história Bicampeão Mundial. Para tanto, porém, teria de enfrentar um grande adversário, remetente sensação do futebol europeu, o A.C. Milan, equipe revolucionária e histórica, num embate entre clubes que representavam verdadeiras seleções mundiais.
PODEROSO ADVERSÁRIO.
Após vitória de virada por 2 a 1 sobre o Benfica/POR, na final da Copa dos Campeões da UEFA, o futebol europeu deslumbrava uma nova equipe possante: o Milan passava a ser o melhor time europeu e primeiro time italiano a conquistar a Europa. Antes mesmo do título continental, os Rossoneri gozavam do prestigio de serem campeões italianos/1962, dotavam de um grande elenco e uma postura tática de revolução para a época, na qual os jogadores se deslocavam muito, alguns sem posição fixa.
Naquele time despontavam alguns craques lendários, outros já eram consagrados, mesclando num conjunto formidável. A squadra milanista formava, sobretudo, a base da seleção Italiana (Guezzi, Maldini, David, Trapattoni, Gigi Radice, Rivera, Lodetti, Mora), reforçada de craques do selecionado brasileiro (Dino Sani, Altafini Mazzola, Amarildo). Ainda estava fresca na memória milanista a vitória de 3 a 0 sobre o Brasil (que tinha sete atletas do Santos), há cinco meses das finais do Mundial. Lembrança que dava ao Milan uma enorme confiança para o grande confronto.
GUERRA DE NERVOS.
Na noite de 16 de outubro, a torcida Rossoneri provocou uma verdadeira guerra de nervos aos santistas, incentivada pelo atacante brasileiro Amarildo. No estádio San Siro, em Milão, o AC Milan entrou em campo com Guezzi, Davi, Maldini e Trebbi; Trapattoni e Pelagalli; Mora, Lodetti, Rivera, Mazzola e Amarildo. O Santos FC formava com Gylmar; Lima, Haroldo, Calvet e Geraldino; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. O público foi de 51.957 pagantes, com renda de 140 milhões de libras. O arbitro escolhido foi o austríaco Ernst Haberfelnner.
Logo que iniciou a partida, embalado pelos gritos da torcida, o Milan foi para cima do Santos com toda potência, amassando os brasileiros. Nos primeiros minutos, construiu vantagem de 2 a 0 com relativa facilidade, gols de Trapattoni e Amarildo, controlando o resultado por todo primeiro tempo. Na segunda etapa, mais consciente das ações e pontual nos ataques, o Santos parecia iniciar uma reação quando Pelé entrou em velocidade e deferiu chute rasteiro no canto esquerdo de Guezzi, marcando para o Alvinegro. Entretanto, não demorou para o Campeão Italiano recondicionar seu domínio, marcando o terceiro gol com Amarildo e o quarto com Mora. O segundo gol de Pelé serviu apenas para diminuir a implacável derrota. O resultado de 4 a 2 demostrava não apenas quem tinha sido superior, fazia duvidar da imagem de melhor time do mundo, construída pelo Santos, na condição de colocar o Milan no cume do futebol.
A maior prova da capacidade do Santos foi escrita nesse duelo Mundial. Em Milão o time passou por um dos piores momentos de seu período áureo. Havia vivido uma guerra de nervos, provocada principalmente por Amarildo, que teve o descalabro de afirmar que Pelé não era mais o mesmo, não era mais o melhor jogador do mundo. Além da derrota, da desconfiança da imprensa europeia em contraste ao desejo da derrocada sul-americana, para a partida revanche o Santos estaria desfalcado de três dos principais elementos da equipe: Pelé, machucou-se 12 dias antes, em um empate de 0 a 0 com o Juventus pelo Campeonato Paulista; o propulsor do ataque e da defesa Zito (Líder e Capitão), e da segurança defensiva feita por Calvet – ambos também machucados. Os três fizeram testes na última hora para ver se ainda dava para entrar em campo, mas foram vetados.
Alguns críticos costumam afirmar que o esquadrão santista era apenas Pelé. Definitivamente, porém, aquele Santos comprovou em campo que tinha um grupo inigualável, capaz de superar os mais difíceis desafios e obstáculos. Pelé não teve a oportunidade, naquele Mundial, de provar o contrário das palavras de Amarildo devido sua contusão. Na verdade, mostrou foi ao mundo, anos depois, que era o Rei do futebol. Já o Santos, faltava de fato ao esquadrão brancaleone uma emblemática virada, para demonstrar a força do conjunto, a capacidade de reverter adversidades, de suplantar quaisquer duvidas do melhor futebol do mundo, mesmo sem sua estrela maior, e promover a mais emblemática das viradas do futebol brasileiro.
A MAIS EMBLEMÁTICA VIRADA DO FUTEBOL BRASILEIRO.
SANTOS FAZ O BRASIL VIBRAR. VENCE E DÁ OLÉ!
Ao longo da história o Santos criou grande simpatia e admiração do povo carioca, chegando a ser cognominado de o clube mais carioca dos paulistas. Assim, embora com alguns opositores, a escolha do Maracanã para às grandes decisões mostrou-se correta, sendo um refúgio de grandes trunfos: nas arquibancadas a torcida brasileira abraçou a equipe numa apreciação de apoio aos santistas!
Grande expectativa tomou conta do povo brasileiro para o segundo jogo decisivo entre Santos e Milan, pelas finais do Mundial Interclubes, na noite de 14 de novembro de 1963, um público de 132.728 pessoas abarrotou o Maracanã para acompanhar uma das maiores viradas da história do futebol mundial.
A torcida brasileira ainda aguardava com esperança que Pelé pudesse ser escalado… quando anunciou a escalação, porém, o locutor fez suspense para revelar: mas Almir seria o substituto de Pelé – ao mesmo tempo o que se escutava era uma enxurrada de vaias.
Muito elegantes estavam os jogadores do Milan, com seu tradicional uniforme rossonero, calções e meias pretas, dando um caráter todo especial, formando com Guezzi, Davi, Maldini e Trebbi; Trapattoni e Pegalli; Mora, Lodetti, Mazzola, Rivera e Amarildo. Já o Santos apresentava sua indumentária toda branca, indo a campo com Gilmar, Ismael, Mauro e Dalmo; Haroldo e Lima; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Almir e Pepe. O arbitro era o argentino Juan Brozzi. Mesmo sem três titulares importantíssimos, o time estava bem preparado. Com 15 dias de antecedência, a delegação havia viajado para o Rio, hospedando-se no próprio Maracanã (que estava inaugurando sua concentração) e durante esse período treinou de manhã e à tarde.
Era iniciado o prélio entre brasileiros e italianos, e não demorou muito para o primeiro ataque ser forjado pelo Milan. Na primeira intervenção santista, contudo, um lance importante: Pepe é derrubado na área milanista, mas o juiz não marca a penalidade máxima. Dali em diante, viu-se um Santos muito desajeitado e nervoso em campo, todo aquele apoio da torcida brasileira e a preparação pareciam não surtir efeito desejado. Pois, bastaram 18′ para o Milan abrir uma vantagem de 2 a 0 e esboçar uma goleada, naquele momento afastando o sonho do bicampeonato santista. No primeiro gol, aos 13′, Amarildo recebeu livre e avançou pela esquerda, driblou Lima e cruzou para Mazzola, aparecendo entre Mauro e Haroldo, cabeceou livre. Cinco minutos depois, Maldini lançou Mora em profundidade, o atacante correu livre pelo meio da defesa santista e chutou forte na saída de Gilmar.
Faltava objetividade, calma para decidir os lances por parte do Santos, que atacava, porém, não finalizava, e o que se observava era um pleno domínio do Milan. Na necessidade de ir para cima, somente a vitória interessava, o Alvinegro passou a melhorar e equilibrar o jogo a partir dos 20 minutos. Lima recebeu e chutou forte de fora da área, mas por cima. Cinco minutos depois Pepe avançou pela esquerda, mesmo marcado por dois, deferiu chute de longe em que Guezzi defendeu. No lance seguinte, Mora cometeu falta em Pepe, o ponteiro cobrou e a bola bateu na barreira. Apesar dos italianos terem domínio do meio campo, eram os brasileiros que mais atacavam com perigo. Aos 30′, Mauro desarmou Mazzola e passou para Dorval, que fintou três adversários e cruzou para Coutinho, mas David afastou. Aos 43′, Coutinho cabeceou e Guezzi rebateu e encaixou em seguida. Perto do fim, a defesa de Milão cedeu escanteio, Dorval cobrou e a bola encontrou Almir que cabeceio, mas Guezzi defendeu em cima da linha. Embora os santistas continuassem atacando, o primeiro tempo terminou em 2 a 0 para o Milan.
“Quando chegamos ao vestiário, um dos repórteres de um jornal do RJ, veio nos contar que no vestiário do Milan tinha uma mesa de uns 20 metros, com todo tipo de comida e bebida, preparada para a festa. Bem, seria mesmo muito difícil você virar contra um time europeu, principalmente italiano, que jogava muito bem atrás, e eles ainda jogavam pelo empate. Nós teríamos 45 min para reverter tudo isso. Eu me lembro que nós ficamos no vestiário acho que uns três ou quatro minutos, só. Se você olhasse no rosto de cada um dos jogadores, você notava a ansiedade para voltar a campo. Ninguém se conformava com aquele resultado. Nós entramos e começou a chover. Nós tomamos uns dez minutos de chuva, enquanto os italianos ainda estavam no vestiário”, Lima.
Ainda no invertera-lo, foi feita uma ligação para a companhia área Alitália: dirigentes do Milan faziam reservas para o voo que sairia logo depois da partida (somente em caso de derrota o Milan teria de fazer mais um jogo com o Santos, no mesmo Maracanã, dali a dois dias).
De repente o tempo começou a mudar. Os céus davam sinais para os homens da terra. Os semblantes mudaram. Quem estava no Maracanã naquela noite, se lembra que de uma noite quente e estralada no primeiro tempo, sobreveio um verdadeiro diluvio no segundo…
Não era apenas a atmosfera e o clima que havia se modificado, quando iniciou o segundo tempo entrava em cena nova postura santista: o coração passou a ditar o ritmo do jogo. Logo no primeiro minuto, Pepe invadiu a área e chutou rasteiro, mas a bola acertou a trave. Menos de quatro minutos depois, Maldini fez falta em Coutinho. Começava a reação: Pepe cobrou de forma fulminante e acertou um petardo no canto, o goleiro nem se mexeu: 2 a 1! A pressão continuou, aos 9′, Dalmo cobrou falta da esquerda sobre a área, Mengalvio desviou de cabeça e empatou (2 a 2!). A está altura, o domínio do Alvinegro é intenso, nem mesmo a chuva fortíssima, que deixou o gramado encharcado, impede o Santos de evoluir com classe: bola de pé em pé. Agora de forma organizada a equipe brasileira mostrava seu verdadeiro futebol. O Milan tentou sair do sufoco com um ou outro ataque. Mas, aos 19′, Lima recebe na intermediaria, dribla Trapattoni, chuta de longe e faz 3 a 2! “Eu peguei um chute que nunca mais na minha vida vou pegar. Uma bomba da intermediaria que foi um negócio…”, Lima.
Começava o carnaval no Maracanã. Bandeiras são alçadas, espetáculo inesquecível começa, todos estão eufóricos com a virada dos santistas. E não parou por aí, aos 21′ da segunda etapa, Pepe foi empurrado por David e sofreu falta. Barreira formada… ele mesmo ajeita, novamente cobra com um violento chute, a bola fura a barreira, passa pelo goleiro, e estufa as redes: Santos 4 a 2! Estava devolvido o placar de Milão.
“ (…) Surgiu um Santos vigoroso, sem ser violento, clássico e acima de tudo excepcionalmente objetivo, em confronto com um Milan (sic) mostrando sinais de fadiga, sem esconder um descontrole que se acentuava à medida que os minutos corriam… Pelo que fez no segundo tempo, o Santos poderia e merecia não só os quatro pontos que marcou, mas dois ou três mais, que melhor refletiam a sua capacidade de reação” (Jornal O Estado de São Paulo).
Entrega total com um espirito de luta admirável dos jogadores santistas, corriam como nunca, uma união inexorável de ataque e defesa. Armava-se uma guerra, vencida na bola e na porrada, jogadores exaustos, se arrastavam na lama… Almir relatou: “Corri como um doido durante os 90 minutos. Armei e defendi, dei e levei cacete, me arrastei na lama para não deixar a bola com os italianos, irritei os homens, só não consegui pegar o Amarildo do jeito que eu queria… Sai de campo como herói. A mesma torcida que me vaiava, agora estava me aplaudindo. Nada disso me comoveu, o que me impressionou foi o abraço que Pelé me deu, ele que era e ainda é meu ídolo: – Almir, você é grande! ”.
Os torcedores estavam em devoção pelos santistas, perto do fim da partida, acenavam lenços brancos ao som de “Ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora…”. Pedem o Olé, categoricamente são atendidos pelo Santos, que coloca o adversário na roda – nunca um público tão grande esteve tão feliz em um estádio de futebol. Espetáculo!
SANTOS F.C. HONRA O FUTEBOL BRASILEIRO.
NA RAÇA, NA TÉCNICA E NA VONTADE! PRIMEIRO CLUBE BICAMPEÃO DO MUNDO.
Batalhas históricas. As decisões entre Santos e Milan tomaram proporções épicas. O vencedor poderia não ser somente um possuidor de maiores virtudes técnicas, mas o que tivesse mais coração, garra e raça. Foram jogos que não faltaram características de um duelo grandioso e emocionante: momentos de refinada técnica das equipes, outros de pura raça e entrega, polemicas, espetáculos da torcida, nervos à flor da pele, emoções, superações e um campeão.
Em 16 de novembro, um sábado à noite, sob uma chuva persistente, brasileiros e italianos voltaram a campo para a grande decisão do Mundial Interclubes de 1963 e, apesar do tempo ruim, 120.421 pessoas superlotavam com entusiasmo e expectativa o palco do Maracanã/RJ. O Santos jogou com o mesmo time da partida anterior, mas o Milan fez algumas alterações: Balzarini substituiu o goleiro Guezzi e, no ataque, Fortunado entrou no lugar de Rivera. O arbitro era o mesmo: o argentino Juan Brozzi.
As equipes entram em campo. Fogos de artificio e eminente barulho da torcida acompanha o quadro santista. Pelo lado do Milan, seus atletas apresentam semblante de frieza. Ambos os times confiantes, mas nervosos, os primeiros minutos anunciavam uma partida tensa…
As primeiras invertidas são do campeão europeu. Mora penetra pela direita, mas é combatido por Dalmo que joga para escanteio. Aos cinco minutos, Dorval toca para Coutinho, que é cercado por Trapattoni. Ao tentar recuar para Ismael, o centroavante santista faz um passe curto que é interceptado por Amarildo. Este avança e ao tentar chutar a gol é prensado por Mauro, que alivia o perigo. Fortunado cobrou tiro de canto e a defesa rebateu.
Um minuto depois Lima controla a bola e passa para Almir. O avante finta dois na entrada da érea e é derrubado por Benitez. O juiz marca a falta e os italianos reclamam com empurrões. Pepe cobra a falta e a bola, rebatida por Balzarini, sobra para Almir. O atacante brasileiro tenta chutar e acerta a cabeça do goleiro, que começa a sangrar. Maldini se revolta com Almir, que ergue os braços, alegando inocência. Os italianos partem para a briga. Junto à linha de fundo, Pellagalli agride Coutinho. Começa um conflito generalizado, com dezena de pessoas e jogadores trocando pontapés e socos. Mauro vem correndo e entra no bolo. O ponta Mora vai ao chão. Somente após seis minutos, o campo foi evacuado e a partida é reiniciada.
Balzarini voltou para a meta com a cabeça enfaixada, enquanto o juiz conversa com os capitães Mauro (SFC) e Maldini (ACM). Aos sete minutos, Maldini comete falta em Almir, mas, descontrolado, não gosta quando Juan Brozzi marca a inflação e o encara, dando-lhe uma peitada. Aos 10 min, Almir avançou pela esquerda, fintou Trebbi duas vezes e centrou. Balzarini saltou, defendeu, largou e Maldini afastou.
A pressão é toda santista. A defensiva alvinegra só assiste a partida, que se desenrola no campo do adversário. O Santos toca de pé em pé e o Milan se encolhe na defesa. Aos 18′ Coutinho tabela com Almir, a bola desvia em Trapattoni e sobra para Lima, na meia-direita, próximo à entrada da grande área. O santista atira rasteiro, Balzarini não pega e a bola passa raspando a trave, quando a assistência já comemorava o ponto. O bicampeão sul-americano segue tentando o gol. Aos 27′, Coutinho recebe de Lima e passa na esquerda para Almir. Mesmo pressionado por Pellagalli, o atacante santista corre em direção à linha de fundo e chuta cruzado, Balzarini faz uma defesa espetacular. Dorval cobra o escanteio e a defesa rebate, na sobra Pepe avança pela esquerda, finta Pelegalli e chuta para fora.
O relógio marcava 30 minutos, quando Lima centra para a área e a bola vai em direção de Almir. Trebbi escorrega ao tentar cortar o passe. De forma desesperada Maldini busca chutar para afastar, mas acerta com violência a cabeça de Almir, que cai rolando de dor no gramado. Juan Brozzi marca pênalti! Os italianos ficam revoltados e o cercam enfurecidos. “Lima fez um cruzamento alto. Eu estava mais ou menos ali pela marca do pênalti. Ia chegar um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, tinha de acreditar em mim. Vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo ali naquele lance: meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque o italiano vinha com vontade. Agora era ele ou eu. Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé, eu rolei de dor pelo chão. O argentino não conversou: pênalti”, Almir.
O jogo fica paralisado por alguns minutos. Os italianos protestam, tiram a bola da marca do pênalti, não queriam deixar cobrar. Maldini fica enlouquecido, ofende o árbitro e tenta agredi-lo, sendo expulso. Revoltado, o capitão do Milan só abandona o gramado com a intervenção dos policiais, com os quais discute também. Outros jogadores do Milan ameaçam abandonar o campo. A torcida vaia os italianos. O campo é invadido por repórteres, fotógrafos e policiais. A polícia intervém, fica em torno do campo para impedir uma nova confusão generalizada.
Em meio ao tumulto, Dalmo pede ao ponta-esquerda Pepe para cobrar o pênalti, que percebe o companheiro realmente decidido, cedendo ao lateral aquele que, segundo o mesmo, seria o seu maior momento na história do futebol. “Foi o maior feito da minha vida como jogador. O Santos era famoso, a gente viajava pelo Brasil, Pelas Américas e pela Europa. Os estádios estavam sempre lotados para nos ver jogar”, Dalmo.
Assim, aos 34 minutos, Dalmo aproxima-se da bola para cobrar a penalidade. Interrompe o movimento do chute ao perceber que Balzarini adiantou-se. O árbitro repreende o arqueiro italiano e pede que ele volte à sua posição inicial. Novo apito, Dalmo deu uma balançada tentando enganar o goleiro e bateu rasteiro, no canto esquerdo, o goleiro Balzarini pulou certo, mas a bola entrou caprichosamente rente à trave. “Era um barulho ensurdecedor, aquele povo todo gritando. Houve um desentendimento. Quando eu ia bater, dava a paradinha, (sou o inventor da paradinha), e o goleiro se adiantava. O árbitro mandou que eu não fizesse a paradinha e que o goleiro não se adiantasse. Fui frio e calculista, pois estava acostumado a cobrar pênaltis nos outros clubes em que joguei. Quando corri para a bola, o estádio silenciou. Mas já estava decidido. Bati no canto esquerdo do goleiro, rasteiro e fiz o gol”, Dalmo.
Com a vantagem o Santos se mostra mais tranquilo, demonstra mais domínio ímpetuoso, enquanto o Milan parece atordoado. Em um cruzamento, o Santos marca outro gol, mas o juiz anulou alegando falta no goleiro. A partida segue nervosa, com mais luta do que técnica, truncada e concentrada no meio-campo. O arbitro dá oito minutos além do tempo regulamentar. Nesse interim, Amarildo dá uma entrada forte em Ismael, este retribui com uma cabeçada e acaba expulso. Profundamente arrependido, Ismael sai de campo acompanhado por Coutinho e, aos prantos, é recebido pelo massagista Macedo, que o acompanha até o túnel. Ao fim, os milanistas saem de campo vaiados, enquanto os santistas são aplaudidos.
No segundo tempo o clima continua tenso e os jogadores exageram na violência. Almir é o primeiro a ir ao chão. Antes de três minutos de jogo, Haroldo desconta numa entrada violenta em Amarildo. Aos sete minutos, Almir dribla Trapattoni e corre em direção à área italiana. O zagueiro italiano apela e derruba-o acintosamente, recebendo apenas uma bronca do árbitro. A expulsão de Ismael, ocorrida no final da primeira fase, provocou radical modificação no sistema de ataque santista, Dorval recuou para zaga, deixando Coutinho e Almir isolados.
As equipes deixaram de lado a técnica, a partida perdeu toda a beleza, mas se tornou empolgante. O Milan aproveita a modificação santista. Aperta os brasileiros, joga melhor e busca o empate. Apesar disso, o Santos também ataca: aos 14′, Pepe cobra falta, a bola passa pela barreira, mas Barlucci agarra firme. Aos 20′, Haroldo lança para Lima, que apareceu livre, o santista demora para chutar, o goleiro fecha o ângulo e defende espalmando para escanteio, numa grande defesa. Pepe cobra o escanteio, Coutinho cabeceia e encobre Berlucci, mas antes da bola entrar Benitez salva.
Apesar de um Milan melhor, o Santos continuo sem dar chances ao adversário. Mas as coisas começaram a se complicar aos 30′, com as contusões de Pepe e Almir. Como se sabe, na época não podia fazer substituições. A partir dali o Milan veio para cima. Aos 32′, Fortunado cruza e Mora aproveita, penetra na área, porém erra o chute e a bola vai a esquerda de Gilmar. Na sequência, Mazzola recebe, aparece livre e avança, mas chuta para fora. Os contundidos do Santos mostram espírito de luta. Aos 43′, Almir acerta passe preciso à Pepe, que sofre falta de Pellagali. Pepe cobra e obriga Berlucci a fazer grande defesa. Nos últimos minutos o Milan apertou demais e o empate que provocaria uma prorrogação esteve bem perto. O Santos recuou, exausto, e passou a jogar com o coração: foi o momento da superação, mostrando maturidade, os santistas sobrepujaram todas as adversidades, reflexo que vinham desde o primeiro jogo, seguraram os italianos firmemente.
Quando, finalmente, o arbitro Juan Brozzi apita, assinalando o final da partida…
Era o momento de festejar! O time faz uma volta olímpica triunfal, a torcida invade o campo para abraçar os jogadores. Os guerreiros, vestidos pela imaculada camisa branca, estavam sujos, apresentavam ombros caídos de cansaço, alguns apenas de meias, os jogadores se arrastaram em torno do campo acenando para a torcida, no maior momento de carinho, sinergia perfeita, jamais igualada, entre um time de um estado brasileiro e uma torcida de outro. O Santos FC colocava o futebol brasileiro em outro patamar. Naquela noite o Santos e a imprensa carioca fizeram o brasileiro acreditar que vivia no maior país do mundo: o maior estádio, o maior futebol, Pelé, o Carnaval, Copacabana… O milagre do futebol se espalhou pelas pessoas que abandonavam o Maracanã com a alma lavada. O Santos não pertencia mais a ele mesmo. O locutor da Rádio Globo Valdir Amaral, deferia as seguintes palavras: “Esse maravilhoso Santos deu ao Brasil, a mim, a você, senhor, ao País, a glória imensa de ser Bicampeão do Mundo! Transcendemos como nação!
Pelo apoio incondicional, carinho e acolhimento, a diretoria santista doou uma placa ao Maracanã/RJ onde agradece o apoio inestimável. Ela diz: “Às palmas dos cariocas, o coração do Santos Football Club”.

Fontes e Referencias:
Jornal Gazeta Esportiva;
Jornal O Estado de SP;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Na Raça! Como o Santos se tornou o primeiro Bicampeão Mundial (Odir Cunha);
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Revista Bola Alvinegra, SFC.

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