Restabelecendo o prestígio do Futebol Brasileiro na Europa – 1966-67-68

Published On 21/11/2017 | Memória Santista
Por Kadw Gomes
Santos, 21/11/2017

Embora tenha vivido seu período de ouro no futebol mundial entre 1958 a 70, o Brasil não ficou ileso de passar por um momento desconfortável. De 1966 a 68 ocorreu uma ascensão europeia (Inglaterra, Alemanha, Portugal, Itália e USSR) e o futebol brasileiro teve de reerguer-se para buscar o apogeu. O Santos foi imprescindível nesse processo.
Após a Copa do Mundo de 1966, sediada e vencida pela Inglaterra (de Gordon Banks, Bobby Moore, Stiles, os irmãos Jack e Bobby Charlton, Ball, Hunt, Geoff Hurst & cia) passou a ocorrer uma valorização do futebol baseado no aspecto físico e disciplinar, em detrimento a técnica, habilidade e o improviso, características essenciais do jogo brasileiro. Foi uma fase intensamente insolúvel, propagou um achismo de “fim do domínio brasileiro” para uma nova era com perspectivas de “predomínio europeu” nos anos vindouros. E muitos foram os fatores que fizeram difundir esses ideais futebolísticos.
A começar pela forma equivocada que a CBD conduziu a preparação para o mundial, preferindo jogadores veteranos ou fora de forma, sem uma renovação previa e deixando craques de fora. Fatores decisivos no fracasso da Seleção Brasileira, alastrando a impressão de que no Brasil se praticava um jogo ultrapassado e que não havia renovação da geração Bicampeã Mundial (1958-62). Com grande conotação na imprensa mundial, os Ingleses pareciam suplantar o jogo bonito, fazendo valer o futebol mais eficiente com a conquista da primeira Copa do Mundo. O English Team utilizava um sistema (4-2-4 virava 4-4-2) ao qual exerciam grandes zagueiros, pontas que recuavam e um meio-campo robusto. Na Alemanha, país vice-campeão mundial, a disciplina e uma adesão de sistemas mais defensivos era maioria – embora o Borussia Dortmund fugisse um pouco a risca.
Em meio a isso, estava fresco a memoria de como Portugal havia vencido o Brasil abusando da imposição física e da violência. Naquela época, sobretudo, vigorava na Europa o famoso sistema catenaccio italiano (postulação de uma marcação rígida, predominância de um líbero, reunindo com folga os ataques pelas pontas e reduzindo os espaços do campo), praticado pela Internazionale de Heleno Herrera, esquadrão Bicampeã da Liga dos Campeões e do Mundial Interclubes entre 1964-65, fazendo sucumbir qualquer outra tática. Pouco tempo depois, a seleção italiana ainda conquistaria a Eurocopa de 1968 nesse sistema. 
Mas a impressão de que a escola europeia passaria a prevalecer ante o jogo sul-americano, do qual o Brasil é o maior representante, não prosperou por muitos anos. A habilidade natural se adaptaria aos esquemas mais fechados. E não foi mera coincidência, que justamente nessa etapa, o Santos estivesse em meio a uma renovação, surgindo uma nova geração de craques. Mas antes disso faltava uma revanche contra Portugal. 

A VINGANÇA CONTRA PORTUGAL
Era passado pouco mais de um mês da derrota do Brasil para Portugal na Copa do Mundo da Inglaterra, quando o Santos (de Gylmar, Lima, Orlando, Zito, Pelé e Edu que estiveram em Liverpool, mais Carlos Alberto, Oberdan, Mengálvio, Dorval e Toninho) e o Benfica base da seleção portuguesa com Jaime Graça, Coluna, José Augusto, Torres, Simões e Eusébio (além de Costa Pereira, Raul, Cruz, Cavém, Jacinto e Simões), fariam um embate de expoentes pelo New York Champions Cup, no estádio da ilha de Randall, dia 28 de agosto. Ocasião que representou uma oportunidade do futebol brasileiro vingar-se da derrota em Liverpool.
Na Europa o prestigio do futebol brasileiro vinha sendo colocado em “xeque”. A imprensa portuguesa já chamava Pelé de “antigo Rei”, creditando Eusébio, o pantera negra, o novo dono da coroa. Uma derrota santista seria como colocar uma pá de cal no prestigio brasileiro, a expectativa era enorme e o jogo teve grande repercussão. Momento da verdade lá fora: seria o fim da hegemonia brasileira e o início de reinado europeu? Após um atraso de 30 minutos, devido torcedores invadirem o campo, o Santos mostrou que não, dando a resposta com uma inapelável goleada de 4×1 ante o Benfica. No primeiro tempo, Toninho marcou aos 17′ e Edu aos 26′, arrematando com potencia, e aos 31′, após driblar vários zagueiros e tabelar com Pelé. Na etapa final, o Rei (passando por zagueiros e marcando bonito) decretou a desforra.
Após a incrível vitória santista, os próprios jornais de Portugal lançaram manchetes admitindo a vingança brasileira. A Bola, o principal jornal português, afirmou: “Benfica perdeu um segundo Portugal e Brasil. Nova York vingou Liverpool”. O Diário de Sports concordou: “Derrota contundente do Benfica frente a um Santos sedento de vingança”. Enquanto o jornal Mundo Esportivo, de Lisboa, concluiu: “O Santos conseguiu a desforra dos brasileiros. O encontro do Rei com o ex-Rei desta vez foi favorável a Pelé.
A TÉCNICA SUPERA O CATENACCIO ITALIANO
Ainda naquela excursão (05/09), pela final da competição de Nova York, mais de 40 mil pessoas, recorde de renda (U$ 243.000) em partidas nos Estados Unidos, compareceram para prestigiar Santos x Internazionale de Milão no Yankee Stadium. Partida de extremo realce ao qual defrontaram-se na época os dois maiores campeões do mundo. Bastaram seis minutos, Edu fintou o zagueiro Burgnich e arrematou de longa distancia marcando um golaço para o Santos! Sucedeu-se um jogo em controle absoluto santista nos 20’ iniciais. Mas bastou um descuido e a qualidade de Mazzola, com um belo tiro, venceu Gilmar decretando o empate. Nos últimos 15 minutos o jogo ficou mais disputado, o gol deu ânimo aos italianos, tendo duelos de craques como Facchetti contra Edu e Zito contra Mazzola. Pelé chegou a marcar um novo gol, mas estava impedido. A primeira parte encerrou no 1 a 1.
Duelo entre o melhor sistema defensivo do mundo contra o melhor alinhamento ofensivo do planeta. A etapa final mostrou uma nova configuração santista, imprimindo com efeito um ritmo arrasador, capaz de baquear qualquer defesa. Aos 4 minutos, auxiliado por Pelé, o centroavante Toninho furou o bloqueio “catenaccio” e fez 2 a 1. Aos 26’, Pelé deferiu um tiro potente e o goleiro italiano não alcançou (3 x 1)! Quatro minutos depois, Mengalvio enganou o ferrolho italiano e num surpreendente chute venceu o arqueiro Sarti, decretando Santos 4 a 1, campeão nos Estados Unidos! No Brasil, o Jornal Estado de SP, avaliou como “a vitória que fez sobreviver a ofensividade, a arte e a beleza, frente a um sistema tático frio, forte e viril que prevalece no velho Mundo”
SOBREPONDO-SE AO CAMPEÃO DO PAÍS (ALEMANHA) VICE-CAMPEÃO MUNDIAL
No ano seguinte, após abrir um novo mercado para os clubes em apresentações que ajudaram no desenvolvimento do futebol no continente africano, o Santos também teve como destino a Europa, mais preciso a Alemanha (13/06), país vice-campeão mundial. Em Munique, o Alvinegro enfrentou o vigente Campeão Alemão, TSV 1860 München. Um bom resultado seria recondicionar o Santos ao cume da crítica europeia, pois estava diante de uma das principais equipes do velho mundo. Os “Die Löwen 1860” vinham dos títulos da Copa da Alemanha, um vice-campeonato europeu e a conquista nacional do Alemão, com craques da seleção germânica como Patzke, Kueppers, Konietzka e Brunnenmeier. E o Santos até abriu o placar, mas empurrados por um público estimado em 40 mil expectadores, os alemães impuseram uma vantagem de 3×1 no primeiro tempo. Das arquibancadas, afastado por contusão, Zito (SFC) sofreu observando a humilhação. Indignado, desceu até os vestiários e falou à Antoninho: “Quero jogar”!
Mesmo sem estar na melhor forma o “gerente santista” entra, organiza com voz firme a distribuição no meio-campo e comanda uma reação impressionante. Zito inicia a jogada e Pelé diminui aos 7′. Os alemães mostraram reação e dois minutos depois fizeram 4 a 2. Naquele momento, poderia ser impossível reação a qualquer time. Mas não para um que tem Zito! Ele incendeia os companheiros, desarma, grita, dribla e inicia as jogadas: é o dono do meio campo. Com uma pressão surpreendente a defesa alemã se segura como pode, até que Edu diminui com 33’, após passe de Zito. Pouco depois, Toninho aproveita lançamento de Pelé, é oportuno e manda às redes. Finalmente, já aos 38 minutos, Pelé passou por três marcadores e assinala arremate inapelável (5 x 4), virada brasileira em cinco minutos!
O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES MUNDIAIS
Em um dos seus maiores momentos no futebol mundial, o Santos alcançou um título oficial inédito e valioso na Europa no ano de 1968. Antes, porém, teve de conquistar a Recopa Sul-Americana, para obter a classificação. Na Recopa Mundial, em pleno estádio Giussepe Meazza (San Siro), dia 24 de junho, o Alvinegro teve pela frente a Internazionale do catenaccio, base da seleção italiana campeã da EURO-68. Depois de um primeiro tempo sem gols, aos 11 minutos da etapa complementar Pelé cobrou uma falta, na sobra Toninho Guerreiro mostrou oportunismo e velocidade assinalando o único gol do jogo. Santos F.C. O Campeão dos Campeões Mundiais!

Dessa forma, entre 1966 a 68, com as vitórias diante de portugueses, italianos e alemães e uma renovação de craques na equipe, o Santos passava uma imagem no exterior de que o Brasil recuperava seu prestigio e o recolocou em alta no exterior. Mais do que isso, reafirmou a valorização tática do futebol técnico, de habilidade e ofensivo. E ainda faria mais nos próximos anos…
A provar definitiva se deu quando a Inglaterra enfrentou o Brasil no Maracanã em 1969. Ocasião que deixou o futebol brasileiro em atenção. Contando com os santistas (8 atletas) a Seleção Brasileira venceu (2×1) a Inglaterra e se recolocou entre os favoritos na disputa mundial. Ainda naquele ano, começaram os trabalhos para nas Eliminatórias da Copa do Mundo do ano seguinte no México. O técnico chamado foi o jornalista João Saldanha, que utilizou o Santos (9 atletas) para modelar uma das melhoras equipes da história e o Brasil deu show, se classificando com categoria. Na Copa do Mundo, o comando técnico passou a ser de Zagallo, que também contou com uma base santista (5 atletas) e aquela Seleção Brasileira – considerada pela imprensa mundial como a melhor da história – conquistou o Tricampeonato Mundial, a posse definitiva da taça Jules Rimet. 

Fontes e Referências:
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
Centro de Memória e Estatística do Santos FC.

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