Retoques e roubos não impedem o brilho do esquadrão – (1964)

Published On 14/03/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 13/03/2017

Depois de torna-se o primeiro clube do Brasil Bicampeão da Copa Libertadores, Bicampeão Mundial e Tricampeão Brasileiro, o Santos passou por um período de reformulação no elenco na temporada 1964, concretizado apenas em 65. Apesar do processo transitório, na opinião de críticos europeus e sul-americanos (estudo da El Gráfico), o Alvinegro continuava a ser o melhor time do mundo. A equipe de 64/65 foi uma das cinco mais votadas pela à enquete histórica dentre as maiores de todos os tempos.
Algumas mudanças do time de 62/63, mas nada que impedisse o esquadrão de seguir conquistando, na imagem a equipe Tetracampeã Brasileira/64: Lima, Zito, Haroldo, Ismael, Modesto e Gilmar; abaixo estão Toninho, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
As principais modificações no time santista foram na defesa. Com as entradas de Ismael, Modesto, Joel Camargo e Geraldino nos lugares de Mauro (passou quase o ano todo machucado), Calvet (com uma contusão no calcanhar de Aquiles acabou nunca mais retornando) e Dalmo (saindo por problemas contratuais). Na frente, ao final da temporada, o técnico Lula chegou à conclusão de que Toninho (outro atacante contratado foi Peixeinho) era o substituto perfeito de Dorval (vendido para o Racing-ARG) ou até Coutinho, que começaria a sofrer com o excesso de peso.
Além das mudanças de atletas, seja por terem sofrido lesões ou encaixe de novas peças no elenco, foi muito grande o desgaste das muitas competições, jogos e viagens das temporadas passadas e a equipe estava saturada, exausta. Talvez por isso, o Santos iniciou mau – entre os dias 01 e 06 de fevereiro – sua temporada de jogos pela América do Sul, perdendo para Independiente-ARG e Peñarol-URU. Porém, depois disso, o time fez apenas um amistoso no Brasil e teve duas semanas para descansar.
Somente no dia 22 de fevereiro o Santos retomou sua excursão pelo continente Sul-Americano, e venceu com tranquilidade o Sport Boys (3 x 2). Três dias depois voltou a fazer 3 a 2, com gols de Pelé (2) e Toninho, para superar o atual bicampeão peruano Alianza Lima. O Alvinegro chegou a passar pelo Chile, tendo como grande resultado outro triunfo de 3 a 2, numa virada surpreendente – Toninho marcou 3 gols – em pleno estádio Nacional de Santiago (com 66 mil pessoas) sobre o campeão chileno Colo Colo. Mas foi mesmo contra equipes argentinas que o time conseguiu emplacar uma série de grandes vitórias.
Com novo 3 a 2 (gol de Toninho 2 vezes e Peixinho) sobre o Godoy Cruz, dia 01 de março, o Santos obteve seu primeiro triunfo na Argentina. Depois o Alvinegro venceu o Talleres, em Córdoba, por 2 a 1. Para finalmente enfrentar os dois principais campeões do futebol argentino: Boca Juniors, que conquistou os nacionais de 1962, 64 e 65; e o Racing, campeão de 1961 e 66, tinha sido terceiro no ano anterior. Até aquele momento, contando com a Era Amadora, Boca (15 títulos) e Racing (14 títulos) eram os maiores campeões do futebol argentino.
Embate entre Santos FC x Racing, no estádio El Cilindro, Argentina. Na foto, Pelé e o ex-santista Dorval.
Em La Bombonera, dia 05 de maio, o Boca Juniors de Marzolini, Orlando, Paulo Valentim, Gonzáles e outras feras, veio querendo a revanche da Libertadores perdida no ano anterior. Mas o que se viu foi um verdadeiro massacre do Santos no primeiro tempo, marcando aos 13’ (Peixinho), aos 20’ (Zito) e aos 29 minutos (Pelé). A inchada do Boca ficou inconformada, exigindo prontamente que seu time mudasse a postura. E isso aconteceu na segunda etapa, Rodrigues e Paulo Valentim diminuíram e o Boca parecia que conseguiria empatar, porém, aos 25’, Peixinho tratou de esfriar os ânimos marcando o quarto gol do Santos, Valentim até diminuiu, mas a vitória santista estava assegurada, 4×3. Aí foi a vez do Racing dos destaques Martín, Belen, Menotti e o ex-santista Dorval, dois dias depois, abarrotar o El Cilindro com mais de 80 mil pessoas. Uma partida truncada, com jogadas duras dos dois lados, mas o Santos conseguiu vantagem de 1 a 0 na primeira fase, em jogada individual de Coutinho. Na etapa complementar, as emoções ficaram para o final, aos 38’ Menotti empatou e parecia terminar em igualdade, mas eis que surgiu uma bela trama de Pelé, para o Santos derrotar outro gigante argentino.
Gigantismo que nada tinha o modesto Colón de Santa Fé, adversário do Santos do dia 10 de maio daquele ano, num jogo que traz curiosidades. Nesta partida ocorreu a mais incrível façanha da história do Colón até os vice-campeonatos  argentinos do clube (em 97 e 2000), pois, conseguiram vencer o Santos de Pelé & cia por 2 a 1. A vitória virou filme na Argentina e, depois daquele episódio, o estádio do Colón passou a ser intitulado “Cemitério dos Elefantes”. “Já havíamos derrotado grandes clubes daqui da Argentina como Racing, River e Boca Juniors. Mas, depois que batemos o Santos, (…) o estádio passou a ser chamado assim” (explicou o ex-jogador do Colón, que jogou a partida, Luiz López).

Camisa do Santos (Lima) no museu do Saint-Étienne, na França.

Na França, depois de empatar em 1 a 1 com um dos maiores times da Europa na época, o esquadrão do Stade de Reims – adversário ao qual o SFC nunca perdeu, tendo vencido todos os outros duelos –, o Alvinegro foi enfrentar o forte time do Saint Ettiénne, dia 21 de maio, em pleno o temível stade Geoffroy Guichard. Naquele ano, o Saint Ettiénne do poderoso ataque “Trio d’Verts” conquistaria seu primeiro Campeonato Francês/64 e terminaria invicto jogando em casa. Num duelo entre dois times de ofensivas poderosas só poderia ser uma partida com muitos gols, o trio francês Perbin, Mitoraj e Guy marcaram uma vez cada, mas Toninho (2), Peixinho e Almir resolveram para o Santos, 4 a 3.
Três dias depois os santistas estavam na Alemanha, para enfrentar o Borussia Mönchengladbach, a base do time era a mesma campeã da Copa da Alemanha. Laumen fez para o time alemão logo aos 3 minutos, mas ainda na primeira fase, Pepe aos 40’ e Peixinho aos 42’ viraram o jogo para o Santos conquistar mais uma vitória na Alemanha. Pela excursão de 1964, o SFC acabou conhecendo sua primeira derrota para um time alemão, diante do Borussia Dortmund (1×3) que tinha um forte esquadrão campeão da Recopa europeia. Cabe destacar que, atuando na Alemanha, enfrentando as principais equipes do país, o Santos obteve um recorde de 13 jogos invictos, com 12 vitórias, nove consecutivas, pelo período de 1959 a 64. Façanha jamais igualada por outra equipe brasileira. Dentre os adversários, venceu Bayern München, Hamburgo, Schalke 04, Stuttgart, Fortuna, 1860 München, Eintracht Frankfurt (vice-campeão da Europa/60), Wolfsburg, combinados e seleções.

 

Partida jogada em Paris, na França, entre Santos x Borussia Dortmund-ALE. Época do golpe civil-militar de 64 no Brasil, brasileiros que estavam exilados na França compuseram uma grande torcida santista neste jogo.

Depois de um bom desempenho nas excursões, a temporada internacional santista marcava no calendário a disputa da Copa Libertadores, no mês de julho, ao qual o clube buscaria o tricampeonato continental. A Semifinal do torneio, entretanto, mostrou um dos capítulos mais vergonhosos do futebol Sul-Americano. A partida já seria complicada, ainda mais porque o Alvinegro acabou sofrendo com a contusão de atletas (Mauro Ramos, Mengálvio, Coutinho e Pelé) e, dessa forma, a equipe atuou desfalcada contra o Independiente da Argentina. Mas o maior problema do Santos foi ter sido vergonhosamente prejudicado por uma arbitragem subornada, que prejudicou acintosamente a equipe brasileira. “Em 1964, quando jogamos com o Santos, eu ganhei o (árbitro) Leo Horn, que era holandês, com os dois bandeirinhas” afirmou Grondona, ex-presidente da federação argentina de futebol, em gravações descobertas em maio de 2013. O Santos acabou eliminado pelos argentinos (2 x 3 e 1 x 2) e, a partir de 1966, passou a não mais disputar a competição mesmo possuindo a vaga, retornando apenas em 1984.
“A arbitragem foi estranha no jogo que fizemos no Rio (…) deixou o Independiente bater a vontade. Nos lances duvidosos, o apito era contra o Santos. Nos contra-ataques, os bandeiras marcavam impedimentos inexistentes contra o Santos, às vezes o árbitro dava uma falta para impedir nosso ataque. São situações não tão claras de interferência da arbitragem, mas que há um prejuízo …Então não fico surpreso do caso ter sido retomado” disse o ex-atleta do Santos, Lima, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. A última partida entre os dois times em Buenos Aires também transcorreu de maneira igualmente controversa, terminando com a vitória do time argentino por 2 x 1 com dois gols supostamente impedidos.

Fontes e Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornal Estado de S. Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *