Transcurso de Gerações e Reerguendo o Futebol Brasileiro – (1966)

Published On 03/04/2017 | História das Excursões
Por Kadw Gomes
Santos, 03/04/2017

Por tudo que fez o Santos FC na temporada 1965, conquistando o Bicampeonato Paulista, o Pentacampeonato Brasileiro, tendo nas excursões um desempenho altíssimo que assegurou as Taças do Hexagonal no Chile (vencendo as principais forças da última Copa do Mundo/62), a Pequena Taça do Mundo, em Caracas, e o Quadrangular de Buenos Aires (abatendo os grandes times argentinos e fazendo o Real Madrid “acovarda-se” para o que a imprensa mundial chamou de “maior duelo do século XX”), as perspectivas eram as melhores na renovação do clube iniciada em 1966.
Porém, diversos ocorridos prejudicaram o Santos, tornando-o um período intensamente complicado. (1) A forma equivocada que a CBD conduziu a preparação para a Copa foi decisiva no fracasso da Seleção Brasileira em campos ingleses, e o Santos por ser um clube “exposto aos olhos do mundo” acabou sendo o mais prejudicado. (2) A ascensão das seleções europeias, como Alemanha, Portugal e, sobretudo, a conquista da Inglaterra, propagou um achismo de “fim do domínio brasileiro” para uma nova era com predomínio europeu nos próximos anos. (3) Além disso, a própria renovação da equipe do Santos, tendo de lidar com maturidade para se manter entre os maiores do mundo; (4) reerguendo o futebol brasileiro ao final de todo esse processo. Entendamos…
Devido ao acordo que fez com a CBD, motivado pelos acontecimentos nas últimas participações, o Santos não disputaria, embora tivesse a vaga, a Copa Libertadores na sua Temporada Internacional de 1966. Com a Copa do Mundo sendo uma obsessão para a CBD, o presidente João Havelange fez um acordo com a diretoria do Santos em prol da conquista. Assim, praticamente quase todos os atletas titulares santistas participaram dos 3 meses de treinamentos para a Copa da Inglaterra, período ao qual a CBD convocou 44 atletas para selecionar os 22 para o mundial. Nesse interim, o clube consegue mesmo sem força máxima ao longo da disputa o título do Torneio Rio-São Paulo, embora dividido com outras quatro equipes. A competição interestadual serviu para revelar novos craques, como o ponta-esquerda Edu, que com 16 anos tornou-se naquele ano o mais jovem jogador a disputar uma Copa do Mundo.
No Mundial a seleção fez uma participação decepcionante. O processo de preparação e as escolhas do grupo impulsionaram bastante o resultado: muitos craques ficaram de fora, enquanto jogadores veteranos ou sem a mesma capacidade técnica formaram o grupo selecionado. E nesse projeto desgastante preparatório, extremamente bagunçado, o Santos foi obrigado a emprestar seus jogadores e ficou até o final de julho, desfalcado de quase todos os titulares, dos quais seis ficaram no grupo dos 22 escolhidos. Com a conquista da Inglaterra que sediou a Copa do Mundo/66, o futebol sul-americano ficava em segundo plano. Um abalo enorme sentiu o futebol Brasileiro fazendo renascer um sentimento derrotista. E com isso o Santos sendo um dos mais desgastados por ser o “clube símbolo do melhor futebol mundo”.
Para superar todas as dificuldades e retomar seu posto entre as melhores equipe do mundo, além de recuperar novamente o orgulho do futebol brasileiro para conquistar outra Copa do Mundo, o Santos FC passou por uma metamorfose incrível. E começou ainda em 66 trilhar os novos rumos de recomposição. Ao fim dessa etapa (1966-1970), o Santos não apenas se recupera, como também recoloca o futebol brasileiro no posto de melhor do mundo, provando que a Era de Ouro foi a fase mais gloriosa da história do futebol mundial…
Pelo cenário internacional o Santos FC iniciou sendo precursor de uma nova rota no cenário do futebol: a África subsaariana, popular “África negra”. Atuando na Costa do Marfim, os jogadores santistas foram recebidos como ídolos sagrados, Pelé como um deus, e o Santos retribuiu com um lindo show de futebol, goleando por 7 a 1 o Stade Club Abdjian, com direito a dois gols de Pelé, (2) de Coutinho e (2) de Pepe, um deles olímpico. Lima foi quem abriu a contagem. A partida em campos africanos é um sucesso, dando perspectivas de retorno do Alvinegro nos próximos anos. Da África a delegação parte para um giro na América do Sul e Central…
Atuando em solo argentino, dia 13 de janeiro, com facilidade o Santos vence por 2 a 0 (gols de Pepe e Pelé) o combinado Tucumán-San Martim. Na sequência vieram as primeiras dificuldades, quatro partidas sem vencer, sendo três derrotas seguidas, duas para o renovado esquadrão do Botafogo/RJ de Gérson e Jairzinho. Até que enfrentou o Campeão Peruano em pleno estádio Nacional de Lima, dia 29 de janeiro.

Pelé (SFC) ao lado de Pedro “Perico” León.

Em ritmo frenético iniciaram a partida o campeão brasileiro (Santos) e o campeão peruano (Alianza Lima). Ambos os quadros propuseram um breve período de nervosismo, atacando com decisão. Todavia, foi somente com 25 minutos, o primeiro tento: Carlos Alberto avançou e passou a Pelé, este enganou a defesa adversária e deixou Del Vecchio livre para arrematar (1 x 0)! O ponto abalou a equipe da casa, irritados partiram para a violência. Pelé foi o que mais sofreu, sendo atingido no tornozelo e tendo de deixar o campo. Só aos 41’, o Santos voltou a marcar, por intermédio de Del Vecchio, aproveitando passe de Salomão. No segundo tempo o Alianza tentou desfazer a diferença, mas esbarrou na forte defesa santista. Com 13 minutos, o Santos voltou a dominar, Del Vecchio fez o hat-trick, aproveitando rebote após chute de Abel. Pelé encerrou a contagem santista aos 21’, sendo substituído na sequência. Os peruanos aproveitaram o relaxamento dos brasileiros e foram ao ataque, numa dessas invertidas fizeram o de honra, com Zegarra num pênalti polêmico. Na ocasião, aos 33’, Gilmar (SFC) foi expulso após socar o árbitro Henrique Montes, não aceitando a marcação da penalidade (o arqueiro chegou a ser preso e em seguida liberado). A partida reiniciou, mas o placar não mudou. Apesar do incidente, os jornais locais elogiaram “a grande capacidade futebolista” dos santistas.
Em gramados Sul-Americanos, seu adversário mais importante seria o então Bicampeão Chileno/64-65, o maior esquadrão da história do futebol chileno, “La Ballet Azul” da Universidad de Chile, no dia 09 de fevereiro. Partida ocorrente no estádio Nacional de Santiago, abarrotado por 70 mil pessoas que foram prestigiar a peleja entre campeões, Brasil vs Chile. O técnico Lula formou o Santos com Gilmar; Carlos Alberto, Mauro (Oberdan), Orlando e Geraldino (Zé Carlos); Zito (Salomão) e Lima; Dorval, Del Vecchio, Pelé (Toninho) e Abel (Pepe).
                                   Zito (SFC) e Contreras (LAU), personagens do grande duelo.
Todos os meios esportivos no Chile não falavam em outra coisa: a chegada da delegação santista causava um verdadeiro alvoroço. Além de Pelé, eram esperados outros craques também integrantes do selecionado brasileiro. Na partida observou-se um primeiro tempo equilibrado, ataques mútuos de ambos propondo um jogo aberto, o Santos marcou logo aos 3’, por intermédio de Lima. A Universidad mostrou eficiência conseguindo o ponto, com o argentino Oleniak aos 10’. Com 30 minutos, após jogada pessoal Pelé desempatou (2 a 1)! Mas foi somente na fase complementar que o Santos transformou seu bom desempenho em gols, foram necessários apenas 12 minutos: Pelé aos 3’ e aos 8’ desorganizou completamente a defesa chilena e emplacou a goleada (4 x 1). Um minuto após o quarto, Del Vecchio fez o quinto, tendo Dorval marcado em chute preciso aos 16 minutos, definindo a goleada santista para cima do “Ballet Azul” então bicampeão chileno/64-65.
Quando retornou a Argentina, entre os dias 11 e 13 de fevereiro, o Alvinegro enfrentou equipes da primeira divisão nacional, como o Rosário Central, no interior, em Rosário, dia 11 de fevereiro. Partida a qual o Santos foi dominante. Muito em função da excelente atuação do médio-central Zito, no desarme, na posse da bola e distribuição de jogo, enquanto Pelé foi muito bem marcado. As ações foram extremamente bruscas na primeira etapa, produzindo alguns incidentes: Del Vecchio trocou socos com Bautista e Pepe atingiu Ainza com um pontapé. Na fase final, o jogo se tornou menos violento e o desenrolar proporcionou lances importantes. Logo aos 15 minutos, Zito driblou um defensor e arrematou forte, o goleiro defendeu, mas Del Vecchio pegou o rebote e assinalou o único gol do jogo! Os argentinos foram extremamente defensivos para não serem goleados. Uma prática corriqueira de muitos adversários. Cansado, o time do Santos administrou a vitória. Para a imprensa argentina “O Santos se mostrou mais homogêneo e objetivo” (La Nación), e que “a violência empanou o brilho do jogo tendo Pelé sido marcado por três, as vezes quatro jogadores do Rosário” (El Clarin), com “os brasileiros demonstrado boa dosagem de técnica, principalmente Zito, mas logo o jogo decaiu, devido às jogadas bruscas”.
O Santos encerrou a primeira parte de seus compromissos com um empate diante do Colo-Colo, em 2 a 2. Assim, seu saldo mostrou triunfos ante dois campeões nacionais – do Peru e Chile – tendo um aproveitamento geral de mais de 66 %, em rota internacional na América do Sul nos primeiros meses do ano. Na sequencia o time segue para os Estados Unidos.
                                Pelé (SFC) e Eusébio (SLB), um novo confronto para a definição.
Valendo pelo “New York Champions Cup”, estádio da ilha de Randall, dia 28 de agosto. Eram passados pouco mais de um mês da derrota do Brasil para Portugal na Copa da Inglaterra, quando o Santos base daquele selecionado (com Gylmar, Lima, Orlando, Zito, Pelé e Edu que estiveram em Liverpool, reforçado por Carlos Alberto, Oberdan, Mengálvio, Dorval e Toninho) e o Benfica – praticamente a seleção de Portugal inteira – com Jaime Graça, Coluna, José Augusto, Torres, Simões e Eusébio (além de Costa Pereira, Raul, Cruz, Cavém, Jacinto e Simões), fariam um embate de expoentes que representou uma oportunidade do futebol brasileiro se reerguer e vingar-se da derrota em Liverpool.
Para o Brasil a partida teve um significado elevado, todo um prestigio estava sendo colocado em xeque. A imprensa portuguesa já chamava Pelé de “antigo Rei”, pois creditava a Eusébio o novo dono da coroa. Uma derrota seria como colocar uma pá de cal no prestigio brasileiro. A expectativa era enorme e o jogo foi repercutido em vários países do mundo, chegava o momento da verdade lá fora: seria o fim da hegemonia brasileira e o inicio de reinado europeu?
A partida começou com um atraso de 30 minutos porque os torcedores invadiram o campo para reverenciar os jogadores. Quando finalmente iniciado o grande confronto, percebe-se um Santos sedento por gols, logo aos 3’, Dorval perdera ótima oportunidade arrematando fraco para a defesa de Costa Pereira. Aos poucos, porém, equilibrou-se as ações de meio campo, com respeito entre os esquadrões, até que aos 9’ Pelé recebeu passe de Mengálvio, atirou para a meta com perigo, mas o defensor Cavém desvio para escanteio. O Benfica reagiu, sendo coagido pelos zagueiros santistas, resultando ainda em dois escanteios perigosos. Contudo, foi o Alvinegro que marcou aos 17 minutos: após driblar um defensor, Toninho invadiu a área e arrematou no canto esquerdo de Costa Pereira, assinalando 1 a 0! Pelé, aos 38’, passou por dois portugueses e quase aumentou, mas sem sucesso, terminando assim a primeira fase.
Pelé se prepara para o arremate. Ao fundo Carlos Alberto observa. O Santos abatia a base portuguesa numa vingança da Copa de 1966, vencendo o Benfica por 4 a 0.
No início da etapa complementar o Benfica foi ao ataque, exercendo maior pressão buscando empatar. Contudo, a defesa brasileira se mostrou atenta, principalmente a Eusébio que, bem marcado, nada conseguiu de prático. Aos 6’ nova invasão, os espectadores não se continham… a bola volta a rolar e depois de alguns lances menos pertinentes, aos 26 minutos, Pelé recebeu de Mengálvio a cerca de 20 metros da meta portuguesa e, quando preparava para o arremate, foi parado com falta de Jacinto. O próprio Pelé cobrou, lançando a Edu, na esquerda, e o ponteiro assinalou com potencia um belo gol (2 x 0)! Aos 31 minutos, numa ação conjunta do ataque santista, Edu marca o 3º gol, depois de fintar, sucessivamente, três adversários, receber de Pelé, ficar livre e tocar sutilmente tirando do arqueiro português. A última obra prima foi marcada por Pelé, após receber de Toninho, dominar fazendo um zagueiro sentar, driblar outro deixando-o sem reação e chutar quando Costa Pereira nada podia fazer, outro golaço! E as pessoas voltam a invadir o campo, emocionados para agarrar os craques. Com 4 a 0 no placar, não havia mais tempo para uma reação portuguesa, o Santos FC mostrava a verdade em Nova Iorque, restabelecendo o prestigio ao dar o primeiro passo para reestruturação do futebol brasileiro.
E o esquadrão não para. Três dias depois, enfrentando o principal time grego na época, o AEK (vice em 65 e 67, campeão nacional em 68), o Santos buscou contornar mais uma implacável defesa. Era uma prática comum, muitos adversários atuarem completamente recuados para não serem humilhados, jogando por uma bola no contra-ataque. Apesar disso, o Alvinegro conseguiu muitas jogadas perigosas, todas defendidas pelo goleiro Maniateas. A expectativa era de goleada, porém, o Santos apenas conseguiu marcar aos 30 minutos. Toninho avançou desde a sua área, passou a Pelé e prosseguiu na corrida até receber a devolução, por entre dois zagueiros, encontrando-se frente a frente com ao guardião e assinalando com classe o 1 a 0. Depois o Santos continuou insistindo, buscando alargar a vantagem, porém, não conseguiu no primeiro e nem em toda fase final. Peleja pouco agradável, ataque contra defesa, mas outra ótima renda (Cr$ 123.200.000,00).
De Nova Iorque, fadado de bola, o time seguiu para o México: empata com Toluca (1 x 1) e Atlante (2 x 2) em jogo com grande destaque dos jornais pela presença santista, testemunhado por aproximadamente 50 mil pessoas. E antes de regressar ao Brasil, mais uma partida em Nova York, Estados Unidos. Outro adversário possante, a Internazionale de Milão (Itália), em disputa do Troféu “Il Progresso” .
                                    Sandro Mazzola (Inter) e Gylmar dos Santos Neves (SFC).
Mais de 40 mil pessoas, recorde de renda (U$ 243.000) em partidas nos Estados Unidos, Yankee Stadium. Mostrando uma superioridade absoluta o Santos arrasou a Internazionale, de Milão. Com apenas 6 minutos, Edu fintou o zagueiro Burgnich e, de uma distância de 20 metros, arrematou preciso com violência marcando um golaço inicial (1 x 0)! E nos primeiros 20 minutos, o jogo sucedeu-se em controle absoluto do Santos, particularmente no meio campo com Zito, Orlando, Dorval e Carlos Alberto, superando os oponentes. Mas bastou um descuido e a qualidade de Mazzola, com um belo tiro, venceu Gilmar decretando o empate. Assim, nos últimos 15 minutos o jogo ficou mais disputado, o gol deu ânimo aos italianos, tendo duelos de craques como Facchetti contra Edu, assim como Zito contra Mazzola. Pelé chegou a marcar um novo gol, mas estava impedido. A primeira parte encerrou no 1 a 1.
Foi um duelo entre o melhor sistema defensivo do mundo contra o melhor alinhamento ofensivo do planeta. A etapa final mostrou uma nova configuração santista, imprimindo com efeito um ritmo arrasador, capaz de baquear qualquer defesa, inclusive a melhor de todas. Logo aos 4 minutos, auxiliado por Pelé, o centroavante Toninho furou o bloqueio “catenaccio” e fez 2 a 1. Aos 26’, depois de uma pressão constante, a uns dez metros da meta italiana, Pelé deferiu um tiro potente e o goleiro não alcançou, marcando um golaço (3 x 1)! Quatro minutos depois, o médio Mengalvio, um dos melhores em campo, enganou o ferrolho italiano num surpreendente chute, Sarti não conseguiu impedir, finalizando a goleada em 4 a 1. Os comentaristas esportivos ficaram impressionados pela forma como foi baqueado o Bicampeão Mundial de 64-65, jornais italianos concordaram que, apesar de uma reformulação, o Santos continuava a ser uma das melhores equipes do mundo.
Ao final desta temporada internacional, o Alvinegro abriu dois novos mercados no futebol mundial (África e Estados Unidos), consegue restabelecer o prestigio brasileiro vingando-se da geração portuguesa, abateu campeões nacionais da América e Europa e teve um aproveitamento de 68, 75 %, fazendo em 16 jogos: 08 vitórias, 06 empates e duas derrota. A reestruturação do esquadrão santista, outorgando sua dinastia, passou também no comando técnico: Lula, o técnico mais importante da história do SFC, dava lugar ao auxiliar Antoninho Fernandes (craque do time nos anos 1940). Uma nova geração de craques se forma e o Alvinegro supera percalços para novas proezas nacionais e mundiais.

Fontes e Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Livro Time dos Sonhos (Odir Cunha);
Almanaque do Santos F.C. (Guilherme Nascimento);
Blog do Prof. Guilherme Nascimento;
ASSOPHIS (Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC );
Jornais A Tribuna, Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil;
Arquivos Getty Imagens;

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *