Um pedido ao Rei!

Published On 12/01/2017 | Jogos Históricos
Por Ronaldo Silva,
São Paulo, 12/01/2017

Durante a semana, o público carioca aguardou com ansiedade para ver Pelé e Jairzinho, ou melhor para ver no Maracanã o desfile de dois times que individualmente possuíam os melhores jogadores do futebol brasileiro.
O grande clássico dos Anos Dourados valia pela 3ª fase do Campeonato Nacional de 1973, o técnico Pepe praticamente mandaria a campo sua força máxima e o único desfalque seria o ponta-direita Mazinho. O Santos não vencia a equipe da estrela solitária há 12 jogos, e buscava acabar com esse tabu.

O JOGO
O Botafogo começou melhor a partida. Sua equipe, como a do Santos, entrou com o objetivo de jogar ofensivamente. Zequinha foi explorado pela direita e conseguia sempre criar boas jogadas e incomodou a retaguarda santista. Seus centros eram precisos para a área, mas Ferretti e Jairzinho sempre chegavam atrasados no lance.
No meio de campo, Dirceu marcava com precisão a Brecha, Carbone ficou mais fixo e Carlos Roberto lutava desesperadamente contra os adversários. Marinho Chagas não ia muito à frente, preocupado com a agressividade de Eusébio, e Brito e Osmar se revesavam com inteligência na marcação e cobertura de Pelé.
Nesse período em que o Botafogo dominou a partida, o Santos incomodou o goleiro Cao somente num chute de longe e fraco de Edu, enquanto que Jairzinho (três vezes) e Ferretti (duas) obrigaram Cejas a se desdobrar no gol. Sem Brecha para participar das triangulações com Pelé e Nenê, o ataque do Santos não pode desenvolver seu tipo de jogo característico: o toque de bola. Pelé, então, recuou um pouco e seu time passou a usar o contra-ataque. Em três lances seguidos, o panorama da partida foi totalmente alterado.
No primeiro, aos 15 minutos, Pelé foi lançado por Clodoaldo, driblou Carbone e Osmar, penetrou na área e chutou raspando a trave direita de Cao. O segundo, aconteceu dois minutos depois: novamente lançado, Pelé invadiu a área e foi derrubado por Brito, mas o juiz não quis dar o pênalti. O terceiro, aos 21 minutos, surgiu o gol.

Edu recebe livre para abrir o marcador (Foto: Jornal do Brasil)

Desprevenida, a defesa do Botafogo foi envolvida num contra-ataque rápido. Eusébio deu para Pelé que num belo passe encontrou  Edu. Tudo de primeira e Edu só teve o trabalho de chutar enviesado e forte no canto esquerdo de Cao. Depois do gol, o Botafogo continuou lutando com entusiasmo no ataque, mas seu meio de campo incorreu no erro de avançar demasiadamente e sua equipe se desarticulou na marcação.
Com isso, com campo livre para dominar a bola e criar suas jogadas, Pelé desequilibrou totalmente o jogo. Aos 37 minutos, Pelé lançou Nenê entre Brito e Miranda. O atacante ganhou a disputa na corrida, avançou e chutou para as redes, marcando o segundo gol do Santos. A torcida presente ao Maracanã aplaudiu o Rei pela bela assistência e participação decisiva nos dois gols santistas.
SEGUNDO TEMPO
Com 3 minutos, Edu foi até a linha de fundo e quase marcou. Dois minutos depois, em jogada individual, Pelé passou por Carbone e sofreu pênalti de Miranda. Dessa vez o juiz marcou. Ninguém reclamou e o próprio Pelé cobrou, fixando o placar em 3 a 0.
O segundo período, o time santista fez uma exibição perfeita. Sua defesa, principalmente Marinho Perez, jogava com seriedade e muita garra. Clodoaldo protegia a todos e Brecha se esmerava na ligação do meio de campo com o ataque. O time se deu ao luxo de jogar de duas maneiras ofensivas: através de tabelinhas curtas pelo meio, com Pelé, Nenê e Brecha, ou tem lançamentos em profundidade para os ponteiros Eusébio e Edu.
Mesmo com a derrota iminente, o Botafogo continuou lutando. Porém, o time carioca não corrigiu o erro do meio de campo avançando e sua defesa, inteiramente desprotegida, lutava com muito sacrifício para conter o ataque santista. Mesmo assim, Cejas com excelentes defesas impediu a reação botafoguense.
Aos poucos o Botafogo foi aceitando a derrota e caiu de produção. Marinho Chagas, no entanto, estava disposto a vingar-se dos gols que sua equipe sofreu com pontapés. Num desses lances, aos 32 minutos, o jogador do Botafogo adiantou a bola e chutou violentamente o zagueiro Marinho Perez. O árbitro não apitou a falta.
O lance prosseguiu com os jogadores do Santos surpresos e revoltados. Jairzinho tentou passar por Hermes e o zagueiro colocou a mão na bola dentro da área. O pênalti foi marcado incontinente, mas Marinho Chagas, talvez por castigo, cobrou mal a penalidade e o magnífico Cejas pode defender a penalidade sem dificuldades.
Vitória categórica do Santos que se credenciou como um dos grandes favoritos à conquista do campeonato e de quebra voltou a vencer o Botafogo. Pelé numa atuação magistral se consolidou como o vice-artilheiro do torneio e com suas belas jogadas e assistências aumentou o clamor popular por seu retorno à Seleção Brasileira na disputa da Copa do Mundo na Alemanha.

Ficha Técnica:
20/01/1974 – Botafogo 0 x 3 Santos
Gols: Edu aos 21min e Nenê aos 39min do primeiro tempo; Pelé (p) aos 5min do segundo tempo
Local: Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro
Competição: Campeonato Brasileiro de 1973
Renda: Cr$ 665.609,00
Público: 74.478
Árbitro: José Luís Barreto
SFC: Cejas; Hermes, Marinho Perez, Vicente e Zé Carlos; Clodoaldo e Brecha; Eusébio, Nenê (Léo Oliveira), Pelé e Edu. Técnico: Pepe
BFR: Cao; Miranda, Brito, Osmar e Marinho Chagas; Carbone e Carlos Roberto (Valtencir); Zequinha, Ferretti (Nilson), Jairzinho e Dirceu. Técnico: Paraguaio

Fontes e referências:
Almanaque do Santos FC;
Jornal do Brasil
Jornal “Folha de São Paulo”;
Jornal “O Estado de São Paulo”

One Response to Um pedido ao Rei!

  1. O Santos tambem foi o primeiro a ter 23 jogadores diferentes, que ultrapassaram a marca de 100 gols pelo clube. O recorde de um jogador que fez mais gols contra uma mesma equipe no Brasil pertence a Pele, quando jogava no Santos.

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